Qual o conceito de mal metafísico?

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Qual o conceito de mal metafísico?

Mensagem por Fabricio em Ter Maio 08, 2012 7:45 am

Prezados,
O mal, como há muito tempo ensina a Igreja, é a privação do bem. Sendo assim, o mal não existe como substância, ele necessariamente precisa do bem para existir. Não vou me extender aqui, mas a evolução deste conceito por parte de pensadores como Santo Agostinho nos leva a conceituação do mal metafísico, mal físico e mal moral. Confesso as senhores que já li muitas explicações sobre essa conceituação, mas ainda persiste em mim certa dúvida quanto ao que vem a ser o mal metafísico. Alguém poderia me ajudar?

Fabricio

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Re: Qual o conceito de mal metafísico?

Mensagem por Pe. Anderson em Sex Maio 18, 2012 5:52 am

Caro Fabrício,

Excelente questão!

O mau metafísico é uma abstração, um ente de razão, pois não é uma natureza. Esse conceito pode significar uma privaçao devida em certa natureza (mal metafísico relativo). Ou o mau metafísico absuto: o nada, algo que não existe. Estou fazendo minha tese sobre o tema do bem e do mal em Santo Tomás. Se lhes interessar, posso publicar aqui como o tema é tratado por P. Ricouer, Santo Agostinho e pelo Pseudo Dionísio, o Areopagita.

Grande abraço.
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Re: Qual o conceito de mal metafísico?

Mensagem por Fabricio em Sex Maio 18, 2012 8:02 am

Olá, Pe. Anderson
Muito obrigado pela sua intervenção! Vou aceitar sua oferta sobre os escritos de P. Ricouer, Santo Agostinho e Dionísio.
Realmente este conceito de mal metafísico me deixa bastante confuso. Pelo que entendi até aqui o mal metafísico atém-se basicamente à ausência de uma perfeição. Mas o único ser que encerra em si toda a perfeição é Deus, os demais seres estariam dispostos em graus hierárquicos de perfeição. Por exemplo, o fato do animal não pensar seria um mal metafísico, ou o fato do homem não ter asas também seria... no entanto, essas privações não seriam um mal físico porque elas são da natureza do ser animal e do ser homem, então o mal metafísico não seria um mal em si... estaria certo este conceito?
Fique com Deus

Fabricio

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Re: Qual o conceito de mal metafísico?

Mensagem por Pe. Anderson em Seg Maio 21, 2012 5:10 pm

Caro Fabrício,

Que ótimo dialogar com voce. Acho que compreendo suas dúvidas sobre o tema e tentarei esclarecer aqui, antes de colocar os textos do meu trabalho academico.

Acho que sua dúvida nasce do fato de que há uma distinção sutil: o chamado "mal metafísico" e a noção metafísica do mal. O chamado "mal metafísico" é uma categoria que provem da Escolástica e quer discernir os tres tipos possiveis de mal: o metafísico, o físico e o moral. O mal metafísico seria, pois, um mero ente de razão e equivaleria exclusivamente ao "nada", à ausência de ser. O mal metafísica não seria, pois, o fato de um animal pensar, de um home não ter asas, pois esses dois casos não são nenhum tipo de mal. Agostinho definiu o mal como ausência da perfeição de uma natureza. E Santo Tomás completou: é a ausência de uma perfeição devida. Não ter algo que não pertence àquela natureza não é um mal. Mal seria não ter algo que pertence a uma natureza. Nesse caso, o mal poderia ser a ausencia de uma qualidade física (mal físico), ou a ausencia de uma ordem (mal moral).

Para Agostinho há uma definição metafísica de mal: a ausencia de perfeição. Ele dizia que o bem consiste em haver ter perfeições: modo, espécie (ou forma) e ordem. Por isso, o mal é uma ausencia, uma falta de modo, espécie ou ordem. Isso tanto no plano físico quanto moral. No plano ontológico, dos seres mesmos, o mal não pode existir, porque todas as naturezas criadas são, enquanto tem o ser, bens. Dizia Agostinho que inclusive nos demônios há bem; inclusive no fogo do inferno há bem, porque há ser.

Essa é uma resposta rápida, espero que seja clara o suficiente. Vou colocar os textos da minha tese, para acrescentar algo, com linguagem mais academica. Grande abraço.
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Bem e mal em Santo Agostinho: diálogo com Paul Ricouer

Mensagem por Pe. Anderson em Seg Maio 21, 2012 5:17 pm

c. Santo Ambrósio e Santo Agostinho:

Santo Ambrósio de Milão, mestre de Santo Agostinho teve influência no pensamento de Santo Tomás especialmente ao afirmar a distinção entre bem honesto, útil e deleitável . Entretanto, a grande contribuição desse autor à História da Filosofia é sem dúvida devida ao fato de ter colaborado de modo determinante no processo de conversão e de formação do grande doutor do Ocidente: Santo Agostinho de Hipona.

Santo Agostinho, autor que antes de se tornar cristão era filósofo platônico e por um tempo frequentou a religião maniquea, é central na história do pensamento ocidental, inclusive no que se refere às discussões sobre a verdade e o bem. Não há dúvidas de que ele seja uma das principais fontes do pensamento de Santo Tomás de Aquino sobre esses temas, ainda que o livro de J. Aertsen sobre os transcendentais não o enumere como uma das fontes do pensamento tomista .

A obra de Santo Agostinho é muito extensa e ele tratou com profundidade a questão da relação entre o bem e a verdade. Recentemente, o filósofo P. Ricoeur escreveu um interessante e sugestivo ensaio sobre o mal como um desafio para a Teologia e para a Filosofia . Naquele texto, era apresentada a história do pensamento humano sobre esse tema em etapas: a antiga, na qual uma forma de pensar sapiencial afrontava a esse inquietante enigma e que teve como obra principal o bíblico livro de Jó. Posteriormente o pensamento teria passado à etapa da teodiceia. E P. Ricoeur se referiu somente àquela feita por Leibniz e pela Filosofia moderna, omitindo toda a contribuição medieval a esse problema, algo que nos parece injustificável. Entretanto, P. Ricoeur apresentava como período intermédio entre o pensamento sapiencial antigo e a teodiceia moderna a resposta cristã dada ao Gnosticismo, que teve Santo Agostinho como seu principal representante. P. Ricoeur então reconheceu que Agostinho é «uma das bases do pensamento ocidental» e que à gnose antiga a Filosofia ocidental deve a colocação de uma nova pergunta: unde malum? (de onde vem o mal?) .

A resposta de Agostinho a essa questão se daria, ainda segundo P. Ricoeur em duas etapas: aquela representada pela polêmica anti-maniqueia e a seguinte disputa anti-pelagiana. Na primeira fase, Agostinho teria se oposto «à visão trágica da gnose (que se classifica ordinariamente entre as soluções dualísticas)». E tal oposição só teria sido possível graças às ferramentas do pensamento neoplatônico que Agostinho possuía. Nessa ótica, o mal então não poderia ser considerado uma substância, já que pensar o “ser” significa pensar o “inteligível”, pensar o “uno” significa pensar o “bem”.

Concomitantemente a essa concepção platônica, o cristianismo trouxe à história do pensamento ocidental uma ideia totalmente nova: a de criação ex nihilo, que implicaria a concepção de uma «distância ôntica entre o criador e a criatura» , o que permitiria a afirmação de um defeito no criado enquanto tal: o “livre arbítrio”, com o qual a criatura racional poderia “declinar” longe de Deus e “inclinar-se” em direção a algo que tem um menor valor ontológico. Segundo P. Ricoeur essa doutrina agostiniana teve o mérito de ter unido “Ontologia” e “Teologia”, dando origem a um novo tipo de discurso: a “onto-teo-logia”.

P. Ricoeur disse então que a negação da substancialidade do mal trouxe consigo a «concepção exclusivamente moral» do mal na história do pensamento. Ora, dita tese nos parece extremamente discutível. Pois Agostinho não apresenta uma concepção meramente moral do mal e esse não é jamais explicado de modo autônomo, ou seja, sem estar fundado numa concepção teológica, ontológica e antropológica. De fato, é isso o percebemos nas obras de Agostinho, inclusive naquelas da fase do seu debate anti-maniqueo. Veremos isso mais adiante no nosso texto.

De qualquer modo, o livro de Ricoeur é muito sugestivo. Ele disse ainda que quando o mal é considerado somente desde o aspecto moral, aparece uma nova pergunta na história do pensamento: unde malum faciamus? («de onde vem o mal que nós fazemos?»). E a essa pergunta Agostinho teria respondido a partir da sua concepção de “livre arbítrio”, no qual o pecado introduziu um nihil privativum, ou seja, um defeito estrutural, cujo responsável seria exclusivamente a vontade da criatura racional e jamais a de Deus. P. Ricoeur disse então que no Contra Fortunatum Agostinho teria tirado a seguinte conclusão da sua «concepção exclusivamente moral do mal»: considerá-lo somente como peccatum ou como paena implicaria assumir uma «visão penal da História: não há alma injustamente precipitada no malheur» .

Ainda de acordo com Ricoeur, a doutrina agostiniana passaria por novos desenvolvimentos, por ocasião da sua disputa anti-pelagiana, alguns decênios mais tarde. De modo que «para tornar credível a ideia» de que todo sofrimento, mesmo aquele «injustamente repartido ou excessivo» é fruto do pecado, deve-se concebê-lo numa dimensão “supra individual”, isto é, referida a todo o gênero humano. De modo que surgiria assim a doutrina do “pecado original” ou “pecado de natureza”.

E na noção de “natureza” estariam incluídas duas noções heterogêneas: a de transmissão biológica do pecado por via de geração e a de imputação individual da culpabilidade. A conclusão então é que «a noção de pecado original aparece como um falso conceito que se pode assignar a uma gnose anti-gnóstica». E a discussão de Agostinho com Pelágio teria sido concluída do seguinte modo: «Mais gravemente, Agostinho e Pelágio, oferecendo duas versões opostas de uma visão estreitamente moral do mal, deixam sem resposta o protesto do sofrimento injusto, o primeiro condenando-o ao silêncio, em nome de uma imputação em massa do gênero humano; o segundo ignorando-o, em nome de uma preocupação profundamente ética da responsabilidade» .

A nosso modo de ver o resumo feito por Ricoeur da Filosofia de Agostinho é muito bom e as sugestões presentes na sua obra são de grande valor. Entretanto, parece-nos incorreto dividir em etapas tão rígidas o pensamento agostiniano, uma vez que já nos textos da sua controvérsia anti-maniquea estava presente sua concepção de pecado original, assim como nos demais Padres da Igreja anteriores a ele; e de igual modo, na sua etapa anti-pelagiana não há uma «consideração meramente moral» do mal, pois está sempre presente em Agostinho a consideração metafísica do bem e do mal, como um seu fundamento e sempre em harmonia com sua visão teológica. De modo que o pensamento agostiniano sobre esses temas é bem mais rico e menos dialético do que é apresentado por P. Ricoeur. Vejamos-lhe, pois, com um pouco mais de detalhe.

Analisamos aqui brevemente um livro da polêmica anti-maniquea de Agostinho, no qual encontramos sérias reflexões sobre a natureza metafísica e teológica do bem. Trata-se de De natura boni obra que, junto com De vera religione são as principais daquela fase de vida de Agostinho. Nesses textos, encontramos uma argumentação rigorosamente racional e filosófica, assim como comentários aos principais textos bíblicos que tratam do tema. Desse modo, vemos uma síntese admirável entre razão filosófica e fé cristã no pensamento de Santo Agostinho.

A principal questão do livro De natura boni, escrita provavelmente no ano 399, é o mal. Qual seria a sua natureza? Para responder a essa questão, Agostinho partia da consideração de que o mal só pode ser conhecido a partir do pensamento do Bem supremo . Isso quer dizer que, assim como afirmava a República, o conhecimento do bem é sempre prioritário. De fato, na concepção platônica e neoplatônica o bem possui não só uma prioridade gnoseológica, mas também metafísica sobre toda a obra da criação. Por isso, Agostinho inicia seu tratado falando do Bem supremo, que é «aquele acima do qual não pode haver nada. Ora, o Bem é Deus e por encima de Deus não pode haver nada. Por isso, Deus é o sumo Bem» . Agostinho inicia, pois, falando do Bem que é superior ao ser, não ao ser em geral, senão ao ser criado que existe por obra sua (ab illo sunt), mas que não é a partir dele (sed non de illo), por não compartir a mesma substância divina. Ou seja, Agostinho está falando no início do seu tratado que o Bem superior a todas as coisas se identifica com Deus mesmo.

Dito isso, Agostinho afirma então a universalidade e a bondade da criação divina. Deus criou todos os bens, tanto os pequenos quanto os grandes, e os criou do nada, daquilo que de fato não é, sejam as coisas visíveis ou invisíveis, corpóreas ou espirituais . Por isso, não pode haver dois princípios eternos da criação, um bom e um mal, um princípio do espírito e outro da matéria. Somente Deus criou todas as coisas e as fez boas. «Do momento que todas as coisas boas, tanto as grandes quanto as pequenas, em qualquer nível de realidade se encontrem, não podem ser senão por obra de Deus; se segue que toda natureza é um bem e que toda natureza não pode ser senão a partir do Deus supremo e verdadeiro» .

O bem para Agostinho se fundamenta na bondade Deus e se encontra presente no mesmo ser das coisas. Deus é transcendente e as coisas são ditas boas no seu mesmo ser, ou seja, enquanto são naturezas. «Portanto, toda natureza é boa e todo bem vem de Deus» . Por outro lado, o mal só pode ser entendido como privação. Isso significa que não pode dar-se sem o bem e não pode destruir totalmente o bem existente. O mal não é, pois, uma substância, uma realidade existente natural e criada, mas sim um defeito presente em determinado ente; de modo que o mal nada mais é que uma imperfeição na natureza, a falta de um bem devido.

Como bem foi acentuado, para superar o maniqueísmo Agostinho contou com duas contribuições provenientes da Filosofia platônica: a afirmação da existência de dois mundos, ou seja, de duas realidades diversas, a material e a espiritual e a concepção neoplatônica de mal como a falta de um bem devido a uma natureza. De fato, era central para se superar o maniqueísmo essas teses, uma vez que a doutrina maniquea era sem dúvidas uma forma de materialismo, no qual a substância da Luz e a das Trevas possuía o caráter corpóreo. De modo que o Maniqueísmo não distinguia entre ser sensível e inteligível e nisso consistia seu erro mais grave. E a segunda contribuição do Platonismo a Agostinho foi o conceito proveniente de Plotino de mal como privação de bem. Essas doutrinas conjugadas com a noção cristã de creatio ex nihilo dariam a Agostinho a chave para superar a doutrina maniqueia, concebendo a natureza criada sempre como um bem substancial e participado.

A afirmação de que tudo o que existe é bom em Agostinho é radical. Inclusive aquilo que a Filosofia medieval chamará de “matéria prima” é boa para Santo Agostinho. «Não se deve dizer que aquela matéria que os antigos chamavam hyle seja um mal». E esclarece que essa hyle não é aquela pensada por Mane, que seria a formadora dos corpos, mas sim é aquela pensada por Aristóteles, ou seja, a pura potência a receber uma forma. «Mas eu chamo hyle certa matéria do todo informe e sem qualidade, da qual se formam essas qualidades que percebemos» .

Agostinho afirma que as características do bem criado são “modo”, “espécie” e “ordem” (modus, species ordo). Em outras obras, Agostinho as chama de mensura, numerus e ordo; ou unus, numerus e ordo. Ao que tudo indica, esses conceitos se baseiam na afirmação bíblica «omnia in mensura, numero, pondere deposuisti» (Sab. 11,21), citada por Agostinho nesse contexto mais de 30 vezes . Como esses conceitos são centrais nas obras de Agostinho aparecerão nas obras de outros autores, entre eles Tomás de Aquino, convém esclarecer o que significam .

a) Modus, mensura, unitas: corresponde ao que chamamos de medida. Num sentido mais amplo, puramente etimológico, significa limite, como indica o original grego peras. Na antiguidade esse conceito indicava determinação, perfeição, sem nenhuma conotação negativa. Exprime o limite de um ente determinado por sua forma;
b) Species, numerus: species corresponde às palavras gregas idea e eidos. Faz referência ao que chamamos de forma ou essência, em sentido metafísico;
c) Ordo, pondus: segundo Agostinho esse conceito resulta da estrutura hierárquica do real, na qual Deus Uno e Trino é a realidade espiritual e imutável; os espíritos criados e mutáveis (alma humana e anjos) são intermediários e os corpos criados e mutáveis são inferiores. Na concepção agostiniana, cada coisa há um lugar na estrutura do mundo, um peculiar valor ontológico. Por isso pondus significa primeiramente peso, não tanto em sentido físico, mas sim metafísico, ou axiológico. De modo que está implicitamente relacionado com a ordem de tendência existente nas formas substanciais de cada ente. No caso do homem, “pondus” se refere ao seu amor preferencial, como é evidente na afirmação agostiniana «amor meus pondus meum» .

Para os especialistas, não há dúvidas de que a principal dessas noções é a de medida (modus), fundamental para a compreensão das outras duas. Diz respeito, acima de tudo, à relação das criaturas com o Criador . Ele, de fato é a medida suprema de todas as coisas, e cria cada coisa que imita e participa na sua perfeição.

De modo semelhante, a noção modus será central no pensamento de Tomás de Aquino, para explicar tanto a verdade quanto o bem. De fato, a verdade é principalmente concebida como adequação entre o conhecimento presente no intelecto e o ser mesmo da coisa conhecida. A verdade é, pois, a justa proporção entre a coisa real e a sua representação presente na nossa mente. De modo que a medida (adequação) é o que determina a noção de verdade. Por isso, Tomás afirmou que Deus mede todas as coisas sem ser medido; as coisas criadas são a medida do nosso conhecimento e medidas pelo intelecto divino; e nosso intelecto é medido pelo ser das coisas naturais e mede àquelas artificiais . E, de modo semelhante, o bem das coisas criadas se funda no ato de ser das mesmas, que é sempre participado, isto é, medido pelo ato de ser divino. A noção de medida (modus) aparece, pois, como central na explicação tomista de verdade e de bem, assim como era para o Doutor de Hipona.

Em Agostinho, Deus é medida de todas as coisas, enquanto que as causa e as faz participar no seu ser, na sua bondade e verdade. Essa é uma tese importante em Agostinho, que encontra uma sólida base na filosofia platônica : «[...] Não é sem medida aquele por opera do qual foi conferida medida a todas as coisas. [...] Mas se dizemos que Deus é a medida suprema, talvez digamos alguma coisa, mas com isso que chamamos de medida suprema, nós entendemos o Bem supremo. Com efeito, toda medida enquanto medida é um bem» .

Deve-se notar que Agostinho, ao afirmar ser Deus a medida de todas as coisas, não está negando a sua transcendência. Ao contrário, está afirmando que Deus é a causa de todas as coisas e que cria tudo com medida, forma e ordem. Ao mesmo tempo, conhecer essas características essenciais da criação é uma via de acesso para o conhecimento de Deus, verdade e bem supremos. «Deus está por encima de toda medida daquilo que é criado, por encima de toda forma e por encima de toda ordem. E está além não somente por causa da distância dos espaços, mas por uma potência inefável e singular do qual deriva toda medida, toda forma e toda ordem» . «[...] Quando vejas em todos os seres as medidas, as proporções e a ordem busca nelas o Criador, porque não encontrarás nada mais do que aquele no qual está a suma medida (summa mensura), a suma proporção (summum numerus) e a suma ordem (summus ordo), isto é, Deus» .

Sendo o bem fundado no ser de cada coisa e possuindo as características antes mencionadas, podemos responder a pergunta sobre a natureza do mal. Afinal de contas, o que é o mal? Santo Agostinho não hesita em responder, seguindo a Plotino, que é a privação de bem, entendida como falta de medida, de espécie e de ordem. «O mal não é outra coisa que a corrupção da medida, da forma ou da ordem natural» . E dita privação é analógica, ou seja, pode dar-se em diversos níveis: ontológico, antropológico e moral.

A corrupção provocada pelo mal na medida, forma e ordem admite graus, pode ser maior ou menor. Entretanto, no nível ontológico, jamais pode ser total. Pois não pode haver uma substância absolutamente má; se isso existisse, teria ser e, portanto, teria em si algum bem, impossibilitando que fosse uma substância totalmente má. O mal físico ou substancial existe somente enquanto que é uma corrupção da medida, da forma e da ordem de certa coisa e é sempre parcial. Se a corrupção fosse total, desapareceria a mesma substância, que é a única coisa que pode ser o substrato do bem e do mal .
Há um texto do De natura boni onde vemos de modo explícito o modo analógico de se compreender a maldade. A maldade moral é entendida em relação àquela ontológica. De fato, ocorre que «quando alguém age em modo inferior ao que deveria agir, ou age no modo que não deveria agir em determinada circunstância, ou fez mais do que deveria, ou age em modo inconveniente. De modo que o que vem repreendido, ou seja, o ato mal, de modo correto não é reprovado por outro se não pelo motivo que nesse não há nenhuma medida» . Segundo Agostinho, pois, a medida, a forma e a ordem são más, na medida em que são inferiores ao que deveriam ser, ou não se adaptam às coisas que deveriam se adequar. E Agostinho seguia então comparando a bondade e a maldade moral com aquela da forma substancial. Quando essa é integra, a realidade é dita bela. E uma forma natural considerada má é aquela inferior a uma mais bela.

Além disso, Agostinho precisou que o mal jamais pode corromper a ordo global da criação: Deus Uno e Trino, espiritual e imutável, espíritos criados e mutáveis, corpos criados e mutáveis. Isto significa que os espíritos criados e mutáveis, ainda quando estão corrompidos moralmente, jamais serão piores do que os seres corporais.

Sobre o mal de pena Agostinho afirmou que também esse entra na ordem racional de Deus. E Agostinho o explica, novamente, a partir do fundamento metafísico do bem. «Estabelecer qual e quanta seja a pena devida a cada culpa depende do juízo divino e não do humano. A remissão que é concedida àqueles que se convertem é uma grande bondade por parte de Deus. E quando a pena é infringida como devida, não é uma iniquidade por parte de Deus, porque uma natureza é mais bem ordenada sofrendo o suplício do que gozando com o pecado. De qualquer modo, enquanto que a pena mantém certa medida (modum), forma (speciem) e ordem (ordinem), em qualquer limite extremo se encontre, é sempre certo bem. E se essas coisas (modus, species e ordinis) fossem retiradas totalmente, de modo a serem completamente destruídas, então não existiria nenhum bem, porque não restaria nenhuma natureza» . Desse modo, não restam dúvidas de que Agostinho trata o bem moral a partir da sua concepção teológica e metafísica do mesmo. O bem moral, assim como a pena devida ao mal moral, entra na ordem do Universo.

E na presente obra Santo Agostinho entende o mal moral principalmente como desobediência a Deus, que causa a corrupção da natureza do pecador. «Às criaturas mais nobres, ou seja, aos espíritos racionais, Deus deu a garantia de não poderem ser corrompidas se não o querem, ou seja, se conservam a obediência ao Senhor seu Deus, aderindo assim à beleza incorruptível. Se, porém, não querem conservar a obediência, do momento em que a própria vontade se corrompe nos pecados, sem que queiram deverão ser corrompidas nas penas» . Então Santo Agostinho faz uma afirmação que pode ser considerado um princípio forte do humanismo cristão: o homem é um bem tão excelso que só pode encontrar a felicidade quando se une a um bem superior a si. «Deus é um bem tal que quem quiser se separar dele, não encontrará nenhum outro bem» («Tale quippe bonum est Deus, ut nemini eum deserenti bene sit»). E, dentro do conjunto das coisas criadas por Deus, a criatura de natureza racional é um bem tão grande que não pode haver nenhum outro bem no qual essa possa ser feliz, senão Deus» . E à continuação, Agostinho manifesta o caráter medicinal da pena: aqueles que pecam são novamente ordenados no suplício (peccantes igitur in supliciis ordinantur). De modo que este reordenamento, enquanto não lhes convém por natureza é uma pena; mas enquanto lhes convém à culpa, é uma justiça (quae ordinatio, quia eorum naturae non competit, ideo paena est; sed quia culpae competit, ideo justitia est).

Aqui vemos mais uma vez que Santo Agostinho explica o mal moral a partir de sua concepção metafísica e teológica. Pois a categoria “ordem” aparece como central. O mal de pena é uma desordem enquanto é um mal que não compete às criaturas racionais por sua própria natureza, é um mal per accidens, ou seja, é um remédio à desordem que o pecado causou na natureza humana.

Santo Agostinho então precisa que o pecado (mal moral) não pode jamais causar dano à natureza divina, que é suprema e imutável; e de modo semelhante, não se pode provocar dano a uma natureza que esteja submetida a Deus. Isso feriria a ordem da criação dada por Deus, de modo que o mal de pena teria uma função reparadora da injustiça. De fato, o princípio de causar dano às diversas naturezas criadas lhes é dado por Deus; entretanto, Ele sabe o que deverá sofrer aqueles que receberam dito poder e que o usam efetivamente para causar dano à criação. Deus, porém, é único, é a única natureza boa por si e não há nenhuma natureza que se possa equiparar com ele .

Nesse ponto, Agostinho denuncia com genialidade e precisão outro erro grave dos maniqueus. Aqueles, ao introduzir outra natureza não criada no mundo, que seria o princípio mal de todas as coisas, atribuem muitos bens ao mal supremo e muitos males ao bom supremo («in summo malo tanta bona ponerent, et in Deo tanta mala»). De fato, os que assumem a existência de um princípio mal de todas as coisas, lhe atribuem qualidades positivas que implicam medida, forma e ordem. Por outro lado, se Deus é apenas um dos princípios da realidade em guerra contra um princípio oposto, haveria características suas que implicariam falta de medida, de forma e de ordem. Santo Agostinho enumera então quais seriam os bens que os maniqueus colocam no princípio supremo do mal: vida (vita), poder (potentia), memória (memoria), inteligência (intellectus), temperança (temperies), virtude (virtus), abundância (copia), sensação (sensus), luz (lumen), suavidade (suavitas), grandeza (mensurae), números (numeri), paz (pax), medida (modus), forma (species) e ordem (ordine). E a natureza de Deus teria também diversos males em si a ponto de que, se a doutrina dos maniqueus fosse correta, argumenta o doutor de Hipona, deveríamos admitir que a maldade da natureza do princípio bom seria ainda maior à do princípio mal. Pois os maniqueus diziam que o princípio Mal, somente queria gozar do bem e da luz, algo que é justo e louvável; e o Deus Bom, porém, só queria destruir o poder das Trevas, por medo de que seu reino fosse colocado em perigo. Não há como ver a absurdidade de tal teoria maniquea e a superioridade intelectual e espiritual de Santo Agostinho .

A discussão filosófica e teológica sobre a verdade em Agostinho também é muito importante e será discutida e aprofundada na Idade Média sua afirmação de que «o verdadeiro é o que é» . De modo que Agostinho aponta assim que a verdade, assim como o bem, é entendida como uma propriedade inerente às coisas, ou seja, algo que se dá no real, independente do fato de ser conhecida por nós. A verdade se funda na causalidade divina. Do Verbo, que é a Verdade mesma e no qual se manifesta a Unidade originária, procede a verdade das coisas, que são mais verdadeiras na medida em que mais se assemelham à Unidade suma .

Portanto Santo Agostinho afirmou uma graduação da verdade, uma vez que essa é uma propriedade presentes nas coisas. E se há graduação, em certo modo, se pode dizer que a falsidade existe nas coisas, já que todo o criado imita a unidade divina, mas fica longe daquela; por isso todas as coisas seriam em certo modo falsas (de modo análogo a como são os seres em relação ao Ser).

Obs.: não acrescentei aqui todas as notas de rodapé da minha tese, todas as citações porque o forum não é um lugar acadêmico e porque a minha tese, esse meu texto deu muito trabalho para ser feito e ainda não foi publicado. Espero assim poder ajudar a discussão somente. Mais adiante posso publicar o que escrevi sobre o Pseudo Dionígio Areopagita, Boécio, Alexandre de Hales, Alberto Magno, segundo for de interesse.

Grande abraço a todos.
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Re: Qual o conceito de mal metafísico?

Mensagem por Fabricio em Qua Maio 23, 2012 7:21 am

Muito obrigado, Pe. Anderson

Acabei de ver o seu texto. Ainda não li tudo, estou com pouco tempo disponível hoje. Assim que acabar de lê-lo, se o senhor permitir, vou expor minhas eventuais dúvidas. Este é um tema que muito me interessa! Muito obrigado por sua ajuda.

Fique com Deus,
Fabrício

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Re: Qual o conceito de mal metafísico?

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