RPG's

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RPG's

Mensagem por diogo0912 em Seg Nov 12, 2012 2:15 pm

Olá, pessoal do fórum!


Venho fazer um questionamento que tenho desde algum tempo atrás. Sou fã dos jogos de RPG ( para entender melhor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Role-playing_game). Desde pequeno jogava RPG com os meus amigos mesmo sendo contra a vontade de minha mãe (ela dizia que era "coisa do demônio).

Pois bem, no RPG, normalmente eu sou o mestre (pessoa que cria o ambiente do jogo e guia o jogo dos jogadores comun). Com isso, eu posso criar RPG's da maneira que me convém. O problema é que meus amigos gostam muito dos RPG's que contém violência (vampiro, lobisomem, resident evil, entre outros). Eu tento incentivá-los a jogar RPG's com temas não violentos (megamen, pokemon, entre outros), mas a preferência geral são os do primeiro tipo. E mesmo quando eu mestro um RPG violento, eu tento, dentro do possível na estória, incentiva-los a terem atitudes boas (tais como não matar os oponentes, não ir contra as leis das cidades que eles passam, ponderar mais as ações) pondo consequencias dentro do jogo caso alguem faça alguma atitude ruim.

A pergunta central é a seguinte: a igreja diz alguma coisa sobre os RPG's? Será pecado mestrar um RPG violento, mesmo com boas intenções?
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Re: RPG's

Mensagem por Pe. Anderson em Sab Dez 22, 2012 9:17 am

Caro Digo0912

Como vai? Então lhe respondo muito diretamente: só é pecado voce mestrar uma partida de RPG sem me convidar...

Eu também joguei muito RPG antes de ir ao Seminário os do primeiro tipo, os que voce chama de "violentos". Os outros são para crianças. Certamente a Igreja não diz nada sobre isso, mas podemos analisar a questão. O que se faz numa partida de RPG? Em palavras técnicas da Teologia moral: qual é o objeto moral dessa ação? Nesse jogo se escolhe uma forma de diversão, na qual se usa a imaginação para se participar de aventuras fantásticas. Em si mesmo, isso não é nem bom nem mau. A violência do jogo é uma violência pensada, imaginada, mas não atualizada. E isso não é em si mesmo um pecado. São ações que fazem parte do jogo. É claro, pode ser pecado se uma pessoa pensa em efetivamente fazer a ação violenta caso tivesse a possibilidade real de faze-lo. Nesse caso, pode ser considerado o pecado de "maus desejos".

Certamente no jogo se pensa em fazer coisas más, ações violentas, mas isso em si não é pecado. Santo Tomás de Aquino dizia: "As coisas más, é melhor pensar do que ter; as coisas boas, é melhor ter do que pensar".

No RPG se descobre também o carater das pessoas e pode ser um estímulo para que elas crescam, mudando o modo próprio de pensar. Nesse sentido, se o mestre for bom e sábio, pode ajudar muito aos seus amigos. Quem sabe dando pontos a ações nobres, justas e sábias. Que voce acha?

Posso melhorar a resposta mais tarde. Assim como outros amigos aqui, que jogavamos muito RPG e alguns continuam jogando.

Um grande abraço e que o Senhor sempre lhe abençoe.
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Re: RPG's

Mensagem por alessandro em Dom Dez 23, 2012 11:04 am

A resposta do padre Anderson está muito bem ponderada e a julgo correta.

Tenho pouco a acrescentar. Penso apenas o seguinte:
RPG, como qualquer outra forma de divertimento, pode ser mobilizada para o bem ou para o mal. Quando uma pessoa deixa de cumprir seus deveres, como por exemplo estudar, para jogar RPG é claro que está cometendo um erro.

Também penso que é bastante importante selecionar o grupo com que se jogo. Não estou dizendo para adotar uma postura que exclua os outros, mas como um grupo de RPG normalmente é um grupo de amigos que tem bastante contato, um acaba influenciando bastante o outro. Tenho muito o agradecer a Deus pelo grupo com o qual joguei RPG na adolescência.

Em relação à fantasia recomendo que leia "O Senhor dos Anéis" de Tolkien. A obra é profundamente marcada pela fé católica e á há violência e aventura. Sinceramente não vejo como buscar matar um dragão vá atrapalhar sua vivência da fé.

Uma postura que adotei foi evitar jogos que envolvam a fé cristã. Fiz isso porque não julgo correto ficar brincando com aquilo que para mim é sagrado.

Ah...penso que jogar RPG de maneira saudável desenvolve um monte de bons hábitos: leitura, criatividade, companheirismo. Além disso aventuras de fantasia tocam pontos que nos fazem refletir sobre virtudes importantes para nosso dia a dia como a fortaleza e a coragem. Não digo que que jogava RPG por isso. Fazia para me divertir, mas acabei encontrando muitas coisas boas e, ao contrário do que o amigo acima apontou, nunca mostrei nenhuma tendência à violência.

Uma frase famosa que citávamos brincando em meu grupo de RPG era: "Isso não existe. É só um jogo."

abraços e espero ter ajudado

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Re: RPG's

Mensagem por Pe. Anderson em Dom Dez 23, 2012 12:45 pm

Caros amigos,

Obrigado a Alessandro (com que eu jovaga RPG) por sua resposta e ao Ricardo Gabriel por suas intervenções que levantam questões bastante interessantes. A frase que o Alessandro disse que usavamos no jovo me fez lembrar que inclusive tinhamos criado um vocabulário próprio, especialmente um verbo próprio. Alessandro, voce se recorda?

Outro dia, aqui em Roma, no colégio sacerdotal onde eu moro, um padre mais velho do que eu depois do almoço começou a falar conosco sobre o RPG, que ele jogava muito quando era jovem e do qual ele só tem boas recordações. Aí eu descobri que não era o único padre rpgista (hehehe) e vi que vários outros já haviam jogado. Esse padre que falava bem do RPG hoje é professor de Teologia Moral e Bioética numa Universidade Pontifícia de Roma.

Acho que o que eu disse pode ter gerado alguma dúvida no Ricardo Gabriel e que talvez ele tenha tanto receio por esse jogo porque não saiba do que estamos falando (não conheça o jogo), por isso o texto dele pode ser lido de forma ambígua. Vamos tentar esclarecer umas coisas que ele disse aqui, que pode ter surgido do que eu disse no meu texto anterior.

“Eu penso que sua atitude está certa no ambiente violento, mas que você não deve se expor a ele”.


O RPG não é um ambiente violento, porque se trata de uma espécie de teatro no qual não há gestos, mas somente discursos e recurso à imaginação. O RPG também é bem diferente dos jogos de computador, porque para ser jogado é necessário um grupo de pessoas reais presentes num mesmo lugar. É impossível jogar RPG sem sociabilidade, algo que é cada vez mais difícil de se encontrar no nosso mundo “virtual”, no qual as pessoas deixam de viver suas vidas reais em função de uma vida “virtual”. O RPG coloca as pessoas reais em contato real, algo que é em si mesmo excelente.

“Não há neutralidade em nossas atitudes e pensamentos: ou estamos do lado de Deus ou não (independente se somos conscientes disto)”.
Depende. Santo Tomás diz que em si mesmo há objetos morais indiferentes, como o pegar uma palha do chão ou o coçar a barba (são exemplos dele), o passear etc. Isso quer dizer que quando analisamos objetos morais na Ética, é possível considerar objetos em si mesmo, sem dizer que não são nem bons nem maus. Porém, na vida prática, isso não ocorre. Todos os atos humanos ou são bons ou maus. De modo que os que em si mesmo são indiferente são denominados bons ou maus em vista de se estão ordenados ou não ao fim último da pessoa (Deus).

Desse modo, penso que em si mesmo o RPG não é nem bom nem mau. O que faria esse jogo ser um “objeto intrinsecamente mal”? É a mesma coisa o RPG do que o aborto, o furto, a traição, o adultério, a tortura de inocentes, o desejar deliberadamente o mau dos outros? Claro que não. O RPG em si mesmo é uma diversão onde não se faz mau a ninguém, nem se pensa mau ou se deseja mau a ninguém. O que pode ser morto no RPG são coisas que não existem: elfos, trolls, orcs, dragões, vampiros, lobisomens etc. Algumas vezes, quando se joga RPG de policiais e bandidos pode ocorrer uma briga ou assassinatos. Mas tudo isso a nível imaginativo de pessoas que não existem. Que mal há nisso?

Também nossas diversões são atos ordenáveis a Deus. Podemos faze-los para dar glória a Deus. Santo Tomás de Aquino dizia que peca gravemente que passa toda a vida sem jamais contar uma piada ou fazer uma brincadeira. E São Josemaria Escrivá dizia: “os sacerdotes devem ser santos, alegres, sábios e esportistas”. Não tem melhor descrição do que foi o Papa João Paulo II.

“Tudo o que é da vontade de Deus é bom e se há algo que nos faz ter dúvidas quanto a ser pecado ou não, provavelmente o é”.
Tudo o que bom é da vontade de Deus e não porque algo é da vontade de Deus que se torna bom. Isso aqui é o centro do erro dos voluntaristas e nominalistas, que diziam que uma coisa é boa só porque Deus mandou. Na verdade, Deus só manda as coisas que são intrinsecamente boas. Quando temos dúvidas sobre se algo é pecado ou não, temos que esclarecer a dúvida, e não dar por pecado tudo o que é duvidoso. Enquanto há dúvida sobre algo, não se pode agir antes de se eliminar a dúvida. Mas achar que tudo o que é duvidoso é pecado é aceitar uma consciêcia escrupulosa, que toma como pecado o que não é.

“Por exemplo, assistir a filmes pornográficos não seria adultério em si, pelo menos em aprovar o que estamos vendo? Se não estivermos dispostos a fazer o mesmo, mas lhe damos audiência, alimentamos essa indústria e somos "a favor dela".”

Não entendi o que voce quis dizer aqui. De qualquer modo, assistir a filmes pornográficos é algo mau em si, é sempre pecado grave, ainda que não se reproduza o que se está vendo e que não seja casado. Quem é casado e assiste filme pornográfico não peca de adultério em ato (sim em pensamentos e/ou desejos), mas peca sempre pelo fato mesmo de se ter assistido esses filmes.

Não sei o que voce chama de “pré-pecado”. São Tiago falou mesmo disso?

“Se o padre não considera seu antigo vício maléfico para hoje, para os seus fiéis, digo-lhe que se arrependa.”
O jogo de RPG nunca foi um vício para mim, mas uma diversão bem saudável, na qual fiz verdadeiros amigos. De qualquer modo, agradeço sua preocupação pela minha conversão. Peço-lhe que me ajude, rezando pra que essa aconteça.

“Se uma coisa não pode ser classificada como boa ou má é porque não há critério santo sendo utilizado. Se o bem não é realizado, torna-se mal; se o mal não é cumprido, torna-se em bem.”

Heheheh, desculpa, mas sua definição de bem e mau é bem circular e por isso mesmo logicamente inválida. Sobre se uma coisa não pode ser classificada como boa ou má, pode ser chamada de indiferente. Já lhe expliquei antes. Se o bem não é realizado, pode se tratar de uma omissão, ou pode-se também realizar um bem menor. Por exemplo: uma pessoa pode decidir continuar conversando com um amigo numa rua quando próximo a ele há uma pessoa idosa que talvez precise de ajuda para atravessar a rua. O fato dele conversar com outro não é mau. A omissão pode ser pecaminosa, se a pessoa idosa realmente precisa da ajuda e alguém voluntariamente decide de não ajudá-la. Mas deixar de ajudar porque outras pessoas que estão mais perto podem faze-lo e porque a pessoa não parece necessitada de ajuda, isso não é um mau necessariamente. Se o mal não é cumprido, não necessariamente torna-se bem. Alguém pode não fazer algum ato mau, mas pode ter escolhido de não fazer nenhum outro gesto bom.

“Mas dizer que coisas más são para se pensar é malignidade e falar que coisas boas é para se ter é egoísmo. Coisas más nem no pensamento e coisas boas sejam distribuídas a todos”.
Aqui voce não entendeu o que Tomás quis dizer porque não sabe o contexto que ele diz isso. Um opositor disse: os cristão falam muito do mal (do pecado) e assim perdem sua alegria de viver. Então ele respondeu: as coisas más (os pecados) são melhores ser pensados do que faze-los. (A Teologia moral, os confessores pensam e analisam os pecados, mas não faz ninguem se torar mal por causa disso). E as coisas boas, nós cristãos preferimos ter (e ser) do que pensar.

“Sobre a separação entre profano e sagrado, não acho que seja boa, pois se não podemos fazer algo para a glória de Deus, estamos desperdiçando tempo, talento e energia. Não nego que há exercício de habilidades neste jogo, mas há também uma certa iniciação em vários valores anticristãos.”
Um jogo de RPG, ou de futebol, ou um passeio nas montanhas pode e deve ser feito para glória de Deus. Não sei que valores anticristãos são transmitidos nesse jogo. Isso é somente um jogo e não um objeto de adotrinamento moral. O RPG é feito a partir de livros que compoem um ambiente (um mundo, numa época), no qual há objetos e os personagens tem carateristicas específicas e missões a serem realizadas. Não é uma cartilha de moral.
Voce parece ter uma ideia bem negativa dos jogos, esportes e diversões. Veja o que o Papa disse recentemente para os atletas olímpicos italianos:

http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=288122

O resto eu não comento porque foje do assunto e porque está bem grande já o meu texto. Mas podemos continuar esclarecendo depois.

Grande abraço a todos.
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