Deuteronômio 23:1,2

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Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Danilo Rafael Galetti em Dom Mar 24, 2013 6:08 pm

Por mais que vez ou outra eu leia algumas análises (superficiais) sobre o Antigo Testamento, não deixo de ficar confuso quando encontro certos versos do A.T. que são no mínimo muito estranhos, e fico um tanto desconcertado, frustrado e cético com relação à inspiração bíblica ou inerrância bíblica. O verso abaixo é um exemplo, mas também há outros. Procurei respostas, mas não encontrei explicações satisfatórias. Alguém pode me explicar?

"Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou cortado o membro viril, não entrará na congregação do SENHOR.
Nenhum bastardo entrará na congregação do SENHOR; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do SENHOR. " Deuteronômio 23:1-2

Danilo Rafael Galetti

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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Flávio Roberto Brainer de em Ter Mar 26, 2013 7:23 pm

Caro Danilo Rafael,

Que a paz de Jesus esteja sempre no seu coração !!!

Em primeiro lugar, quero agradecer pela sua participação no nosso fórum e dar-lhe as boas vindas.

Não sei se sou a pessoa indicada para responder a esta sua questão, até mesmo pelo grau de dificuldade que ela nos apresenta. Não sou um exegeta, e por esta razão, me sinto muito pequeno para dar um parecer em nome da Igreja Católica que integro. Assim, quero deixar claro que esta minha resposta é uma tentativa de contribuir de alguma maneira com o seu questionamento e de tentar ajudá-lo nesta sua inquietude, de acordo com o meu entendimento de leigo católico.

Para responder a esta questão, necessariamente, há que se perquirir na história da humanidade as várias modalidades de castração que eram comuns em várias civilizações daquela época.

Na região mesopotâmica e em vários impérios, dentre outras culturas ou civilizações, a castração era uma prática comum em três modalidades distintas. Na primeira modalidade, a castração foi por muito tempo uma imposição dos governantes e dos imperadores para aqueles que seriam seus funcionários e assessores de confiança. Tal prática era justificada como uma forma de proteção as mulheres que viviam nos palácios, como também por acreditarem que os eunucos, não tendo descendentes, não tendo para quem deixar heranças eram mais fiéis e menos corruptos. Na segunda, eram castrados muitos homens que seriam escravizados pelos seus senhores para o exercício braçal em qualquer um dos setores da economia. Por ultimo, a castração era também utilizada como pena aplicada a homens que se davam a práticas inerentes ao desregramento da sexualidade como estupro, abuso de crianças e mulheres e homossexualidade, dentre outras caracterizadas como crime no contexto das várias sociedades daquela época.

Dentre estas três modalidades, a ultima sempre foi combatida pela sociedade desde os tempos mais remotos, ponderando-se que todo crime sexual é acompanhado de ato depravado, sórdido, repugnante e horrendo, produzindo sequelas indescritíveis e irreparáveis para as vítimas e seus familiares.

Geralmente, na maioria das nações, os crimes dessa natureza eram punidos nos parâmetros da Lei de Talião. Esta Lei era interpretada tanto como um direito, quanto como uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal. Assim, ao homem que praticasse tais crimes, era aplicada uma pena igual, semelhante ou relacionada ao crime praticado.

Para situarmo-nos no contexto da citação que você nos propõe tirada do livro do Deuteronômio, há que se discernir entre as maneiras utilizadas paras as modalidades de castração a que me referi no início do meu texto. Nos dois primeiros casos, ela era feita com instrumentos específicos, tratando-se de um procedimento cirúrgico no qual eram amputados os testículos. No ultimo caso, a castração era um processo violento feito a macete que consistia em colocar os testículos do criminoso em local rígido esmagando-os com um golpe certeiro e forte, usando para tanto um grosso pau roliço semelhante a um bastão ou a um cassetete, ou mesmo, uma marreta fabricada com madeira de lei.

Adentrando no campo das Sagradas Escrituras, o objeto do nosso estudo está descrito no seguinte teor:

“AQUELE A QUEM FOREM TRILHADOS OS TESTÍCULOS, OU CORTADO O MEMBRO VIRIL, NÃO ENTRARÁ NA CONGREGAÇÃO DO SENHOR. NENHUM BASTARDO ENTRARÁ NA CONGREGAÇÃO DO SENHOR, NEM AINDA A SUA DÉCIMA GERAÇÃO ENTRARÁ NA CONGREGAÇÃO DO SENHOR” (Dt 23,1-2).

Ainda no sentido de tornar mais clara esta citação, tive o cuidado de verificar em várias traduções da Bíblia o vocábulo “TRILHADO” que consta na tradução de João Ferreira de Almeida que você se serviu, e encontrei o termo “ESMAGADO”. Assim, numa analogia mais profunda, retrocedendo um pouco na minha descrição, e revisitando as maneiras como se procedia no ato da castração, está muito claro que os que tinham trilhados ou esmagados os testículos, bem como os que tinham cortado o membro viril, eram realmente os que receberam a castração como pena de delitos inerentes ao desregramento de natureza ou de ordem sexual.

Para os israelitas, a Congregação ou Assembleia do Senhor tem um alcance cultural e não abrange a todos. O texto do Deuteronômio não define sua composição nem suas funções, mas regulamenta sua pureza por exclusão, se relacionando com a geração, que assegura a continuidade de Israel por famílias e tribos, de maneira que, os que não contribuem para esta bênção, não podem ser membros de direito. Assim, os que tiveram os testículos esmagados em decorrência de penas de delitos se enquadram por várias razões no processo de purificação dos israelitas pelo processo de exclusão a que me refiro.

A crença de que Deus castiga as iniquidades dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração (Dt 5,9), fundamentada no decálogo, reforça ainda mais o processo de pureza por exclusão, considerando-se que, se o castigo de Deus penetra na história das gerações descendentes, estas trarão em si mesmas tudo o que decorre dos delitos das gerações ascendentes, inclusive a possível herança da prática dos mesmos delitos e dos mesmos pecados, passando a macular de forma sucessiva a pureza dos israelitas.

Em relação aos bastardos, de acordo com o pensamento israelita, estes não continuam a linhagem paterna, o ciclo genealógico que assegura a continuidade genealógica de Israel por famílias e tribos como uma benção de Deus, acontecendo o mesmo com as suas gerações descendentes.

Não sei se respondi bem ao seu questionamento, mas descrevi aqui aquilo que me foi possível compreender, considerando que os livros do Pentateuco, pelo seu valor histórico, refletem a mentalidade da época em que foram escritos, não sendo, portanto, livros de fácil interpretação.

Por ultimo, quero exortá-lo a perseverar na leitura das Sagradas Escrituras afirmando que nelas há muitas passagens de difícil compreensão que somente o Espírito Santo de Deus que foi dado a Igreja nos dá a graça do entendimento no seu tempo (e não no nosso). Se perseveramos fazendo a nossa parte, Ele, o Mestre da Verdade, com certeza, completará aquilo que está faltando.

Que Deus nos abençoe !!!

Um grande abraço !!!


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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por MSPP em Qui Mar 28, 2013 1:37 pm

Olá, Danilo Rafael Galetti

Parece-me (embora esteja errado) que você pensa que esses versos da Bíblia se estão referindo à SALVAÇÃO, mas não.
Eles referem-se apenas à congregação de Israel que se reunia e na qual não podia haver pessoas com imperfeições.

http://www.paroquias.org/biblia/index.php?c=Dt+23

Também havia restrições quanto a estrangeiros (prosélitos), mesmo que se tivessem convertido ao judaísmo.
Devemos ter em conta que essas leis não eram apenas religiosas, mas também identificativas de um povo e compará-las às leis dos povos vizinhos.
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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Flávio Roberto Brainer de em Sab Mar 30, 2013 6:19 pm

Muito bem pontuadas as observações do Sr. Manuel nesta questão.
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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Jonas E. em Dom Abr 14, 2013 12:42 pm

Gostaria de complementar indicando um livro muito interessante que foi lançado contradizendo o Livro "Deus, um delírio". O nome do livro que indico é "Dawkins, um delírio". Creio que neste livro você poderá ter uma explicação ainda mais detalhada sobre este tema.

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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Flávio Roberto Brainer de em Dom Abr 14, 2013 7:07 pm

Ok, Jonas,

Onde encontrá-lo ? Quais as suas referências ?

Um abraço!
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Re: Deuteronômio 23:1,2

Mensagem por Danilo Rafael Galetti em Qua Ago 26, 2015 5:29 pm

Como apago este tópico e excluo meu nome do fórum?

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Re: Deuteronômio 23:1,2

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