Socialismo científico e Rerum Novarum

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Socialismo científico e Rerum Novarum

Mensagem por diogo0912 em Ter Jul 16, 2013 12:21 am

Pessoal,

Em debate sobre o socialismo, argumentei que, tal como está escrito na rerum novarum, no socialismo não existe a propriedade particular.

http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum_po.html

Entretanto, no debate argumentaram que EXISTE propriedade particular no socialismo e que não existe propriedade privada somente nos meios de produção.

Manifesto comunista:
"A característica particular do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a propriedade privada atual, a
propriedade burguesa, é a expressão final do sistema de produção e apropriação
que é baseado em antagonismos de classes, na exploração de muitos por poucos.
Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida nessa frase: abolição da
propriedade privada.
Censuram-nos a nós comunistas o querer abolir o direito à propriedade pessoalmente adquirida como fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que é considerada a base de toda a liberdade pessoal, de toda a atividade e independência.
A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Refere-se à propriedade do
pequeno artesão e do camponês, forma de propriedade que antecedeu a propriedade burguesa? Não há necessidade de aboli-la; o desenvolvimento da indústria já
a destruiu, em grande parte, e continua a destruí-la diariamente.
Ou refere-se à propriedade privada atual, a propriedade burguesa?
Mas o trabalho assalariado cria propriedade para o trabalhador? De modo algum.
Cria capital, ou seja, aquele tipo de propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado,
a fim de explorá-lo novamente. A propriedade em sua forma atual baseia-se no
antagonismo entre o capital e o trabalho assalariado. Examinemos os dois termos
desse antagonismo."

Então, teria a rerum novarum errado quanto a isso?
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diogo0912

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Re: Socialismo científico e Rerum Novarum

Mensagem por Lucas B. em Dom Jul 21, 2013 3:09 pm

Muito cuidado Diogo, pois Marx e Engels como mestres do "engodo" intectual que eram, tentariam não deixar explicita a idéia de "perda" que na leitura superficial só acometeria a classe "burguesa" quando na verdade ela é total abolição do direito à propriedade objetivamente, então surge com o direito "subjetivo" de propriedade, onde o indivíduo deixa de existir enquanto indivíduo passando a ser representado pelo todo da classe (e a classe necessáriamente é representada pela sua própria quota de idealizadores), em outras palavras: mesmo o quinhão em que vive, só é considerado seu, porque você é considerado "parte" do Estado administrador da coletividade, no entanto ele é claramente e unicamente uma concessão estatal da qual na prática você poderá constatar não dispor de sua propriedade na qualidade individual, veja o que diz o próprio manifesto:

Já antes vimos que o primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia pela luta.
O proletariado usará a sua dominação política para arrancar a pouco e pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção na mão do Estado, i. é, do proletariado organizado como classe dominante, e para multiplicar o mais rapidamente possível a massa das forças de produção.
Naturalmente isto só pode primeiro acontecer por meio de intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas, através de medidas, portanto, que economicamente parecem insuficientes e insustentáveis mas que no decurso do movimento levam para além de si mesmas e são inevitáveis como meios de revolucionamento de todo o modo de produção.


Quando falam em apropriação "apenas" dos meios de produção é um ledo engano achar que se referem apenas a fábricas ou fazendas, uma breve releitura dos acontecimentos na Russia, Cuba, China e outros entusiastas do ideal da revolução, demostra cabalmente que o espaço como um todo é considerado parte do meio de produção, expropriações de familias de suas propriedades residenciais, tivessem as dimensões que fossem eram consideradas "intervenções despóticas necessárias" ao ideal revolucinário, uma outra prova pode constatar neste outro trecho:

Para os países mais avançados, contudo, poderão ser aplicadas de um modo bastante geral as seguintes:

1.Expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado.
2. Pesado imposto progressivo.
3. Abolição do direito de herança.
4. Confiscação da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes.
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo.
6. Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado.
7. Multiplicação das fábricas nacionais, dos instrumentos de produção, arroteamento e melhoramento dos terrenos de acordo com um plano comunitário.
8. Obrigatoriedade do trabalho para todos, instituição de exércitos industriais, em especial para a agricultura.
9. Unificação da exploração da agricultura e da indústria, actuação com vista à eliminação gradual da diferença entre cidade e campo.
10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas na sua forma hodierna. Unificação da educação com a produção material, etc.


Me responda como você pode ter uma "propriedade privada" e não pode sequer deixá-la para sua esposa ou filhos? Negociações entre terceiros como lê-se no primeiro trecho que postou estão totalmente fora de cogitação, então a única forma de alguém adquirir propriedade é através de concessão estatal. Eu posso estar ficando velho mas não louco, e até onde sei o que torna uma propriedade sua é a possibilidade legal de dispor sobre ela da maneira que lhe aprouver, você acha que é isso o que indica o manifesto?

Num sistema de partido único que prega abertamente a dominação da classe revolucionária, dá pra perceber que o conceito de "rebelde" pode ser extremamente elástico a ponto de abranger todo e qualquer que discorde do sistema, que é claro está passível de confisco inapelável de suas "propriedades".

Veja bem que não se fala em "direito de trabalho" para todos, que numa sociedade com alto desemprego é um apelo bem carismático, mas em "obrigatoriedade de trabalho", ora como já vimos que o conceito de indivíduo está dissolvido na coletividade abstrata que na prática legitima a dominação do Estado, nem mesmo a sua força de trabalho é uma propriedade privada já que não é você e sim o coletivo (leia-se Estado) que lhe fará uma "concessão" (ou imposição) em que tipo de trabalho e logicamente região você atuará.

Já existem muitos trabalhos que analisam o Socialismo/Comunismo em viés crítico, no entanto eles não possuem a popularidade dos primeiros, inclusive (e principalemente) em meios não eclesiásticos, que afinal apesar de se tratar da Doutrina Social da Igreja, seu foco não é especificamente os erros dessas ideologias e sim em como interferem na vivência cristã na sociedade.

Se tiver mais alguma dúvida e estiver ao meu alcance e dos demais que quiserem acrescentar, basta comentar. Fique em paz

Vinde Senhor Jesus!

Lucas B.

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