A Páscoa: seu significado e data.

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A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Pe. Anderson em Sex Mar 27, 2009 11:50 am

Caros amigos,

Aproveitando esse período de preparaçao para a Páscoa do Senhor disponho aqui um pequeno artigo sobre o significado da Páscoa e sobre a importante questao da data da mesma. Creio que pode ser útil a muitos.

"Estamos nos aproximando da festa da Páscoa e talvez muitos se perguntam: o que significa essa festa? E porque essa festa é celebrada cada ano numa data diferente? Essas perguntas são muito interessantes e para chegarmos a respondê-las temos que fazer uma grande viagem no tempo.

A origem dessa festa é na verdade muito antiga. Ela foi se desenvolvendo e adquirindo significados cada vez mais ricos.

Dizem os historiadores que no mundo Mediterrâneo há milhares de anos, havia uma festa da passagem do inverno para a primavera, no mês de março. Geralmente esta festa era realizada na primeira lua cheia da “época das flores”.

Os judeus celebravam essa festa no seu início. Mas por volta do ano 1250 a.C. essa festa ganhou novo significado: começou a significar uma passagem (Passah). Ou a passagem de Deus no Egito, ferindo os primogênitos e libertando o povo escravo do faraó; ou a passagem do povo da escravidão à liberdade (com o importante passo do Mar Vermelho). A Páscoa se tornou então a festa central do povo de Israel.

Entre os cristãos a Páscoa ganha novo significado: pois Cristo morreu durante a Páscoa dos judeus, que se celebrava sempre no dia 14 de Nisán do calendário judaico (entre março e abril no nosso calendário atual). Esse dia sempre coincidia com a primeira lua cheia da primavera.

Os cristãos, no início celebravam o domingo, a páscoa dominical, o dia da ressurreição do Senhor, de sua passagem da morte à vida. A festa cristã da Páscoa anual surge de fato a partir do ano 150. Para determinar uma data anual os cristãos discutiram muito, segundo a forma de compreender o mistério pascal de Cristo.

Por um lado, os asiáticos entendiam que é Cristo que “passa” da morte à vida. Os romanos, por outro lado, acentuavam que somos nós os que passamos da morte à vida através da morte e ressurreição de Cristo.

De acordo com essa diferente forma de entender o mistério pascal de Cristo, começou a se celebrar a Páscoa em diferentes datas, dentro do mesmo cristianismo. A maioria dos cristãos (inclusive a Igreja em Roma) a celebrava no domingo seguinte ao dia 14 de Nisán; e outros (os da região da Ásia Menor) a celebravam sempre no dia 14 e Nisán.

No ano 325 foi celebrado o Concílio de Nicéia (reunião de todos os bispos do mundo, convocados pelo imperador Constantino), para discutir questões principalmente doutrinais, que preocupava a Igreja de então. Nessa importantíssima reunião se definiu a questão da data da Páscoa, decisão que segue vigente até nossos dias. Então ficou definido:

1º - Que a Páscoa se celebre sempre no domingo;
2º - Que jamais se tenha a Páscoa ao mesmo tempo que os judeus; quando o dia 14 de Nisán cair no domingo, a Páscoa deverá ser celebrada no domingo posterior.
3º - É proibido aos cristãos celebrar a Páscoa duas vezes no mesmo ano.

Dessa forma ficou estabelecido o critério para a celebração da Pascoa cristã, que celebra a ressurreição de Cristo e nossa passagem da vida antiga de escravos do pecado à vida livre dos filhos de Deus. Assim podemos entender porque a maior festa cristã parece que não tem uma data fixa todos os anos.

A Páscoa sempre foi considerada, pois uma celebração da vida. Da vida nova que nasce na primavera, e da vida nova que nasce de Deus: do Deus que liberta o seu povo por amor e que nos faz vencer a morte pela ressurreição de Cristo. Bem posteriormente se uniu à Páscoa o símbolo do coelho, animal que simboliza de forma especial a fecundidade, a beleza da vida. A figura do coelho da Páscoa foi trazida para a América pelos imigrantes alemaes entre o final do século XVII e início do XVIII. E os ovos de Páscoa simbolizam a alegria da vida, que nos é dada gratuitamente".

Celebremos com muita alegria essa grande festa cristã essa grande festa da vida! Feliz Páscoa a todos!
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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Rafaela Botelho em Ter Mar 31, 2009 9:33 am

Muito bom...
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showw

Mensagem por leco em Qua Maio 06, 2009 10:22 am

hummmmmmmmmm
é sempre bom ter esses conhecimentos!
Agradecido

leco

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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por são vieira em Sex Jul 17, 2009 2:14 pm

mas é interessante ... mas não podemos confundir a pascoa bíblica com outras festividades pagãs. Páscoa significa libertação e a primeira foi instituída em 1513, ano que Israel foi liberto do jugo do Egipto e atravessou o mar vermelho. cada família teria de fazer sacrifícios designadamente de um cordeiro.esta Páscoa judaica prefigurava muitos aspectos proféticos que se iriam cumprir com jesus, o cordeiro Maior. a ultima ceia de jesus como é denominado pela cristandade ganhou um significado maior. a pascoa judaica foi abolida pois apenas lembrava o ato libertador da nação e passou a ser chamada de refeição nocturna do senhor.com dois emblemas de grande significado e instituído um novo pacto com a nova nação espiritual visto que Israel carnal como nação foi rejeitada. mas se estudarmos ao pormenor cada uma destas observâncias biblicas entendemos a profundidade profética de ada uma delas e como esta ultima é de grande significado para nós.

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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Manuel Portugal Pires em Sex Jan 07, 2011 2:41 pm

Um tópico muito interessante e bem delineado.
Contudo eu discordo inteiramente com os 3 pontos definidos no chamado "Concílio de Nicéia" do ano 325. E porquê?!

1º No domingo celebrar-se-ia, de certa forma, acorrentados a um dia da semana, não a Páscoa, mas a Ressurreição do Senhor, já que ele foi visto ressuscitado, pela 1ª vez, na madrugada do 1º dia da semana que mais tarde passou a ser conhecido por «domingo». Páscoa não significa Ressurreição, mas «passagem» do anjo exterminador, isto é MORTE. A Ressurreição de Israel veio depois. O mesmo aconteceu com Cristo.


2º O dia 14 de Nisan (Abib) foi o dia da morte do Cristo. Esse dia é que é o dia biblico da Páscoa e Cristo é a nossa Páscoa (ao se imolar por nós). Tomou o lugar simbólico do Cordeiro Pascal. Na ÚLTIMA Ceia do Cristo comida com os Seus discípulos, no dia 14 de Nisan (depois do pôr do sol do dia 13 de Nisan), o relato bíblico não menciona a morte do Cordeiro Pascal. Esse cordeiro que era simbólico, foi definitivamente morto na pessoa de Yeshua, pelos soldados ROMANOS, depois do povo de Israel ter sido aliciado pelos Sacerdotes de Israel e os Maiorais do Sinédrio. Eu preferia que se mantivesse a celebração do dia 14 de NISAN como a celebração da morte do Senhor, no seu contexto real: o judaico. A confusão de Páscoa com Ressurreição não deveria acontecer, assim como uma certa aversão contra os judeus, pois tanto judeus como pagãos (os não judeus) foram culpados pela morte do Senhor.

3º Ora se a celebração da Páscoa é a morte do Cordeiro Pascal e esse cordeiro é a figura de Yeshua, acho correcto celebrarem o memorial desse dia todos os dias que os cristãos quiserem. Devo informar que a Páscoa em Cristo passou a ser chamada pelos teólogos de EUCARISTIA. Assim, o clero, sem se aperceber, infligiu esse ponto 3º do concílio.

Assim, quando alguém disser «Natal é todos os dias» eu prefiro pensar para comigo «Páscoa é todos os dias».

Quanto à ressurreição devo lembrar um pequeno versículo que passo a transcrever.

Mas cada um na sua própria ordem: primeiro, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.
(1ª Corintios 15,23)
Aconselho a ler não apenas este versículo, mas todo capítulo 15 pois Cristo nossa Páscoa é todos os dias.


Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.
(1ªCorintios 5,7)
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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Manuel Portugal Pires em Sex Jan 07, 2011 3:01 pm

Continuando:
Paulo ao afirmar «sois pães ázimos. » está a dizer que, teologicamente falando, somos EUCARISTIA, o corpo de Cristo do qual ELE é a CABEÇA.

É Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja. É Ele o princípio, o primogénito de entre os mortos, para ser Ele o primeiro em tudo;
(Colossenses 1,18)
E a Igreja (ou assembleia) do Cristo é constituída pelos eleitos do PAI:

Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado
(Mateus 20,23)
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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Pe. Anderson em Qui Jan 27, 2011 6:12 pm

Caro senhor Manuel, queridos amigos

Desculpem mas somente hoje vi essas ultimas postagens nesse tópico.

3º Ora se a celebração da Páscoa é a morte do Cordeiro Pascal e esse cordeiro é a figura de Yeshua, acho correcto celebrarem o memorial desse dia todos os dias que os cristãos quiserem. Devo informar que a Páscoa em Cristo passou a ser chamada pelos teólogos de EUCARISTIA. Assim, o clero, sem se aperceber, infligiu esse ponto 3º do concílio.

Nao entendo o que o senhor quer dizer aqui (como quase tudo o que escreve), mas posso dizer que a Páscua judaica era a morte do cordeiro pascual e tambem a recordaçao da libertaçao do povo de Israel do Egito.

A Páscua crista é o mistério da morte e ressurreiçao de Cristo, o novo "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". O mistério Pascual de Cristo inclui, pois da sexta-feira santa até o domingo da Pascua, da Ressurreiçao do Senhor.

O Concílio de Nicéia estabeleceu que nao se celebrasse a Páscua anual em datas diferentes na Igreja, no século IV. Mas evidentemente, cada domingo é a Páscua Domincal do Senhor, onde os cristaos sempre celebraram o mistério da morte e ressurreiçao de Cristo.

Esse mistério Pascual também é celebrado diariamente na Igreja, na Eucaristia, onde, atraves do Sacramento da Eucaristia fazemos o memorial da paixao, morte e ressurreiçao do Senhor. Na Missa, pois, celebramos o Mistério Pascual de Cristo, coisa que é celebrada diariamente na Igreja o onde todos os cristaos podem participar.

Nao há nenhuma contradiçao com o Concílio, se entendemos tudo no seu contexto. Grande abraço e que o Senhor o abençoe.
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Re: A Páscoa: seu significado e data.

Mensagem por Pe. Anderson em Ter Mar 15, 2011 4:28 pm

Caros amigos,

Coloco aqui um texto do ultimo livro do Papa sobre o tema. Muito esclarecedor.

Ratzinger-Bento XVI: A data da Última Ceia

Passagem do livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição”

1. A data da Última Ceia
O problema da datação da Última Ceia de Jesus assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc 14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos trata-se de uma quinta-feira.
Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo a cronologia sinóptica –, Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de sexta-feira foi condenado à morte por Pila- tos e sucessivamente, «pela hora tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado. O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na ma- nhã do «primeiro dia da semana», no domingo.
Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf. v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá de facto tido lugar precisamente no dia da festa.
Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.
Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.
Esta coincidência, teologicamente importante, de Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica. João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu carácter pascal redunda problemática.
Por isso desde há muito que se fazem tentativas para conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.
A senhora Jaubert baseia-se principalmente em dois textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus, que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente 13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.
Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra, simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.
Observa a estudiosa francesa que as cronologias referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece – segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à manhã de sexta-feira.
Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos, nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di- rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida, ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria depois adiado a crucifixão até sexta-feira.
No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados também noutros textos.
A isto, porém, é preciso responder que os vestígios da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus, de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades, como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.
Ilustrei esta tese de maneira particularmente detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade, mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e simplesmente possível acolhê-la.
Que dizer então? A avaliação mais cuidada de todas as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P. Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das fontes, que a decisão deve ser favorável a João.
João tem razão quando afirma que, no momento do processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi- do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto significa que Jesus morreu na altura em que se imola- vam no templo os cordeiros pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso, que tivessem reconhecido Je- sus como o autêntico Cordeiro, que precisamente assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro significado – tudo isso é simplesmente normal.
Resta a pergunta: mas, então, porque é que os sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição? Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar. Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14, 12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não seria mencionada a Páscoa.
Esta operação, apesar dos numerosos nomes importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da Ceia como não pertencente à Páscoa» (A Marginal Jew, I, p. 398).
Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa.
Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.
Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu sentido pleno.
O primeiro testemunho desta visão unificadora do novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1, também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial. Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.
Com base nisto, pode-se compreender como a Última Ceia de Je- sus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.
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