Semana Santa e Páscoa: um conto para se meditar!

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Semana Santa e Páscoa: um conto para se meditar!

Mensagem por Pe. Anderson em Qua Abr 08, 2009 3:59 pm

Queridos amigos,

Deixo aqui um conto de Anton Pavlovich Tchecov. É um texto incrível, que serve para ser meditado sobre vários temas. Pode ser muito útil para a Semana Santa. Deve ser um texto obrigatório nos nossos grupos de jovens. Acabei de traduzir esse texto do espanhol e espero que possa servir a muitos. Se quiserem, podem postar comentários.

O Estudante
Tchecov

No princípio, o tempo estava agradável e tranqüilo. Gorjeavam os pássaros e dos pântanos vizinhos vieram o zumbido triste de uma algo vivo, como se estivesse soprando numa garrafa vazia. Uns pássaros começaram a voar, e um disparo retumbou no ar primaveral com alegria e estrépito. Mas quando escureceu no bosque, começou a soprar o intempestivo e frio vento do oeste e tudo ficou silencioso. As poças foram cobertas de agulhas de gelo e o bosque se tornou desagradável, sórdido e solitário. Cheirava a inverno.

Ivan Velikopolski, um estudante da academia eclesiástica, filho de um sacristão, voltou da caça e se dirigia para casa por uma trilha ao longo de um prado inundado. Tinha os dedos entorpecidos e o vento lhe queimava o rosto. Parecia-lhe que o súbito frio quebrava a ordem e a harmonia, que a própria natureza sentia medo e, que por isso tinha escurecido antes do tempo. Ao seu redor tudo estava deserto e parecia particularmente sombrio. Somente na horta das viúvas, perto do rio, uma luz brilhava. Em cerca de quatro “versetas” ao redor, até onde estava a aldeia tudo estava mergulhado na fria escuridão da noite. O estudante lembrou que, quando ele saiu de casa, a mãe dela, descalça, sentados no chão do salão, limpava o samovar, e seu pai estava deitado ao lado da estufa e tossia; ao ser Sexta-Feira Santa, em sua casa não tinha feito comida e sentia uma terrível fome. Agora encolhido de frio, o estudante pensou que o mesmo vento, soprava nos tempos de Riurik, de Ivan o Terrível e Pedro o Grande, e também naqueles tempos havia existido essa brutal pobreza, essa fome, esses perfurados telhados de palha, a ignorância, a tristeza, o mesmo ambiente deserto e o sentimento opressão. Todos estes horrores tinha existido, existem e existirão, e quando passassem mil anos, a vida não seria melhor. Não tinha vontade de ir para casa.

A horta das viúvas era chamado assim porque era cuidava por duas viúvas, mãe e filha. Uma fogueira ardia fortemente, entre crepitações e chispas, iluminando à sua volta a terra lavrada. A viúva Vasilisa, uma velha alta e robusta, vestida com um casaco de homem, estava junto ao fogo e observava com olhar pensativo as chamas; sua filha Lukeria, baixa, de rosto abobado, picado de varíola, estava sentado no chão e esfregava o caldeirão e as colheres. Seguramente acabavam de jantar. Se ouviam vozes de homens; eram os trabalhadores do local transportando cavalos para beber água do rio.

“Voltou o inverno”, disse o estudante aproximando-se da fogueira. “Boa noite!”

Vasilisa estremeceu, mas logo o reconheceu e sorriu afavelmente.

-Não te tinha reconhecido, meu Deus. Isso é porque vais ficar rico.

Começaram a conversar. Vasilisa era uma mulher que tinha vivido muito. Havia servido algum tempo como enfermeira e depois como uma babá na casa de alguns senhores; se expressava com delicadeza e seu rosto mostrava sempre um leve e delicado sorriso. Lukeria, sua filha, foi um aldeã, submissa ao seu marido e se limitava a olhar ao estudante e permanecer calada, com uma estranha expressão em seu rosto, como a de um surdo mudo.

- Em uma noite igual de fria, se aquecia ao fogo, o apóstolo Pedro – disse o estudante, estendendo as mãos em direção ao fogo. Isso significa que até então era frio. Ah, aquilo que foi uma noite tão terrível! Uma longa e triste noite para não mais poder!
Ele olhou para a escuridão que o rodeava, convulsivamente sacudiu a cabeça e perguntou:

- Você foi à leitura do Evangelho?

- Sim, estava lá.

- Então você se lembra que, durante a Última Ceia, disse Pedro a Jesus: “estou disposto para ir para contigo à prisão e à morte”. E o Senhor respondeu-lhe: “Pedro, na verdade te digo que antes que o galo cante, me negarás três vezes”. Depois do jantar, Jesus estava muito triste e rezou no horto, enquanto o pobre Pedro, completamente esgotado, com as pálpebras pesadas, não podia vencer o sono e adormeceu. Então, ouvira que Judas beijou a Jesus e entregou-o aos seus carrascos aquela mesma noite. Levaram Jesus então acorrentado ao sumo pontífice e ele foi chicoteado enquanto Pedro, exausto, atormentado pela angústia e tristeza, entendes? cansado, pressentindo que algo terrível ia acontecer na terra, o seguiu... Amava com loucura a Jesus e agora via, de longe, como o açoitavam...
Lukeria deixou as colheres e fixou seu olhar imóvel no estudante.

- Chegaram onde estava o sumo pontífice – prosseguiu – e começaram a interrogar Jesus, enquanto os criados acenderam uma fogueira no meio do pátio, porque fazia frio, e se aqueciam. Com eles, perto da fogueira, estava Pedro, que também se aquecia, como faço agora. Uma mulher, vendo-o, disse: “Esse também estava com Jesus”, o que significava que ele devia ser levado ao interrogatório. Todos os criados que estavam ali perto do fogo o olharam, seguro, severamente, com receios, pois ele, agitado, disse: “Eu não o conheço”. Pouco tempo depois, alguém o reconheceu novamente como um dos discípulos de Jesus e disse: “Você também é um dos seus discípulos”. E ele novamente o negou. E por terceira vez, alguém se dirigiu a ele: “Por um acaso não te vi hoje no horto com ele?” E ele o negou uma terceira vez. Pouco depois disso o galo cantou e Pedro, olhando de longe a Jesus, recordou as palavras que ele tinha dito durante a Ceia... Recordou então, voltou a si, saiu do pátio e começou a chorar amargamente. O Evangelho diz: “depois de sair dali, chorou amargamente”. Então, eu imagino um tranqüilo jardim, muito sossegado, escuro, muito escuro e no meio desse silêncio apenas se ouvia um calado soluço...

O estudando suspirou e ficou pensativo. Vasilisa, que seguia sorridente, soluçou rapidamente, grossas e abundantes lágrimas deslizaram por suas bochechas, enquanto ela intercalava uma manga entre seu rosto e o fogo, como se estivesse envergonhada de suas próprias lágrimas. Lukeria, entretanto, olhou fixamente o estudante, embaraçada, com a expressão grave e tensa, como a de quem sente uma forte dor.
Os trabalhadores regressavam do rio, e um deles, a cavalo, já estava perto e à luz da fogueira oscilava ante ele. O estudante deu boa noite às viúvas e recomeçou a caminhada. De novo o envolveu a escuridão e lhe adormeceram as mãos. Havia muito vento; parecia que, na realidade, o inverno havia retornado e não que ao final de dois dias chegaria a Páscoa. Agora o estudante pensava em Vasilisa: se começou a chorar é porque o que aconteceu com Pedro naquela terrível noite tem alguma relação com ela...

Olhou atrás. O solitário fogo crepitava na escuridão, e a seu lado já não se via a ninguém. O estudante pensou mais uma vez que se Vasilisa começou a chorar e que sua filha se comoveu, era evidente que aquilo que ele tinha contado, o que aconteceu há dezenove séculos, tinham ligação com o presente, com as duas mulheres, e provavelmente, com aquela deserta aldeia, com ele mesmo e com todo o mundo. Se a senhora começou a chorar, não foi porque ele sabia contar aquela história de maneira comovedora, mas porque Pedro lhe parecia próximo e porque ela se interessava todo o seu ser com o que tinha acontecido na alma de Pedro.

Uma súbita alegria agitou sua alma e inclusive teve que parar para recuperar o fôlego. “O passado – pensou – e o presente estão unidos por uma cadeia ininterrupta de eventos que surgem uns dos outros”. E lhe pareceu que acabava de ver os dois extremos dessa corrente: ao tocar um deles, vibrava o outro.

Então ele atravessou o rio numa balsa e depois, ao subir a colina, contemplou sua aldeia natal, e o poente, onde no raio do ocaso brilhava uma luz púrpura e fria. Então ele pensou que a verdade e a beleza que haviam guiado a vida humana no horto e no palácio do sumo pontífice, haviam continuado sem interrupção até o presente e sempre constituiriam o mais importante da vida humana e de toda a terra. Um sentimento de juventude, de saúde, de força (ele tinha apenas vinte e dois anos), e uma inexprimível e doce esperança de felicidade, de uma misteriosa e desconhecida felicidade, tomou posse dele, pouco a pouco, e a vida lhe pareceu admirável, encantadora, cheia de um elevado sentido.


Fim
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Um abraço a todos e feliz Páscoa!
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Re: Semana Santa e Páscoa: um conto para se meditar!

Mensagem por Rafaela Botelho em Qui Abr 09, 2009 3:36 pm

Olá

Muito bonito.

A parte que mais me chamou a atenção foi quando a filha viúva chorou daí ele pensa que se ela chorou foi porque a história de Pedro se asemelha com a dela em alguma coisa, e, quando ele fala sobre a ligação do passado com o presente.
Sempre pensei nisso, mas gostei do jeito que se expressou.
Na verdade, as coisas sempre acontecem como já aconteceram. O fundo é o mesmo, mudam os personagens.

Fiquem com Deus
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