Mas quem foi Galileu?

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Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Pe. Anderson em Dom Jan 24, 2010 8:11 am

Caros amigos,

Uma coisa bem curiosa que eu percebo é que normalmente quando nós tentamos dialogar com uma pessoa nao católica sobre o porquê da nossa fé, em 95% dos casos a outra pessoa nos diz, quase sempre na primeira hora de conversa: e Galileu? Por que a Igreja o condenou à morte, se ela nao é contrária à ciencia?

Em geral, diante de uma acusaçao desse tipo eu pergunto à outra pessoa: mas quem foi Galileu? quando ele viveu? quem foi o Papa que o condenou a morte? em que ano? qual foi o motivo da morte dele? foi porque ele defendeu que a Terra é redonda, ou porque ela é o centro do Universo?

Em 99% dos casos a pessoa assim interrogada responde com sinceridade "nao sei" a quase todas essas perguntas. Isso nos poe adiante um fato curioso: porque essa acusaçao é tao frequentemente feita à Igreja Católica, já que as pessoas nao sabem, em geral, nada sobre esse assunto. Creio que aqui ocorre algo que Chesterton já percebia na sua época: é apenas mais uma acusaçao mecânica que os nao-católicos fazem contra os católicos para justificar assim a sua falta de fé.

A verdade, no entanto, nesse caso é que Galileu morreu com 78 anos e de morte natural. Jamais ele foi torturado ou condenado, condenado à morte, nem mesmo foi ao cárcere. Coloco aqui uns textos que esclarecem bem o tema tratado:

Entrevista com Dom Melchor Sánchez de Toca, subsecretário do Conselho Pontifício para a Cultura

ROMA, domingo, 24 de maio de 2009 (ZENIT.org).- A Organização das Nações Unidas declarou 2009 como o Ano da Astronomia, devido à comemoração do 4º centenário do nascimento do telescópio por obra de Galileu. Por que alguns organismos da Santa Sé se unem a esta celebração, se condenaram o famoso astrônomo?

Por este motivo, Galileu Galilei é visto hoje como um “santo leigo”, como um “mártir da ciência” e a Igreja, como a “grande inquisidora” deste gênio da astronomia. O caso de Galileu é mencionado também no livro “Anjos e Demônios”, de Dan Brown, cujo filme foi lançado mundialmente no dia 13 de maio passado.

– Falemos um pouco das lendas negras de Galileu…

– Dom Sánchez de Toca: Em 9 de maio passado, eu estava dando uma conferência sobre Galileu em Toledo, Espanha, a um auditório formado principalmente por seminaristas e pesquisadores católicos, e comecei dizendo-lhes que muitos se surpreendem ao saber que Galileu não foi queimado na fogueira e nem foi torturado, nem esteve na prisão. Ao terminar a conferência, um dos assistentes me disse: “eu sou um desses, eu sempre pensei que Galileu havia morrido na fogueira”.

O curioso do caso é que na realidade ninguém o disse e nem provavelmente o tenha lido. Simplesmente é o que ele imaginava. Isso demonstra a força tão grande que tem o mito que se construiu em torno de Galileu. Como dizia João Paulo II, a verdade histórica dos fatos está muito longe da imagem que se criou posteriormente em torno de Galileu. Todo o mundo está convencido de que Galileu foi maltratado, condenado, torturado, declarado herege, mas não é assim.

Para dar um exemplo muito recente, o livro de Dan Brown, “Anjos e Demônios”, tem um pequeno diálogo a propósito de Galileu, a quem apresenta como um membro da seita dos Illuminati e contém um monte de erros históricos junto a outras coisas que são corretas.

– Podemos falar desses erros históricos de “Anjos e Demônios” com respeito relação ao tema de Galileu?

– Dom Sánchez de Toca: Na realidade, o livro se refere a estereótipos que estão muito difundidos. O problema de fundo deste livro é a mistura de ideias filosóficas e científicas. A trama vem a dizer que o professor e sacerdote Leonardo Vetra é assassinado por uma seita porque descobriu o modo de tornar compatíveis a fé e a ciência; mais ainda, diz que a física é o verdadeiro caminho para Deus. Estas são ideias que se difundem muito, porque conseguiu, no laboratório, criar matéria do nada. Isso é um absurdo, filosoficamente falando. Fisicamente é impossível o que propõe, porque do nada não sai nada. Pode-se criar matéria a partir do vazio, mas o vazio não é o nada, o vazio é, enquanto o nada não é. É um princípio filosófico elementar.

Esta tese diz que a física representa um caminho melhor e mais seguro para chegar a Deus. Logo, com relação a Galileu, concretamente, apresenta o estereótipo habitual, segundo o qual ele foi condenado por ter demonstrado o movimento da terra.

Galileu dizia, e nisso estavam de acordo seus juízes, que não pode haver contradição entre o livro da Bíblia e o livro da natureza, porque um e outro procedem do mesmo autor. O livro da Bíblia, inspirado por Deus, e a natureza, observante executora de suas ordens. Se têm o mesmo autor, não pode haver contradição. Quando surge uma aparente contradição, significa que estamos lendo mal um dos dois livros e ele diz: é mais provável que sejamos nós que nos equivoquemos ao ler o livro da Bíblia – porque o sentido das palavras da Bíblia às vezes é recôndito e é preciso trabalhar para extraí-lo – que equivocar-se ao ler o livro da natureza, porque a natureza não se equivoca.

Uma verdade natural, cientificamente demonstrada, tem uma força maior que a interpretação que eu dou do livro da Bíblia. Portanto, diz ele, em presença de uma verdade científica demonstrada, terei de corrigir o modo de interpretar a Bíblia. A Bíblia não se equivoca, mas quem a interpreta se equivoca. Um critério claro compartilhado por seus juízes e por todo o mundo.

O Concílio de Trento, por outro lado, dizia que, na leitura da Bíblia, era preciso seguir a interpretação literal da Bíblia e o consenso unânime dos Padres da Igreja, a menos que houvesse uma verdade demonstrada que nos permitisse fazer uma leitura espiritual ou alegórica. O critério era muito claro: o que ocorre é que Galileu pensou que estava a ponto de conseguir a demonstração do movimento da terra. Uma coisa é estar convencido de que a terra se move e outra coisa é demonstrar que a terra se move. Galileu nunca demonstrou que a terra se movia. Estava convencido disso e hoje sabemos que tinha razão, mas seus juízes lhe diziam que não viam por que tinham de mudar o modo de interpretar a Bíblia, sobretudo quando o bom senso diz o contrário, sem uma prova definitiva. Os juízes de Galileu adotaram uma posição de prudência. Galileu foi além. Qual foi o erro dos juízes de Galileu? Deveriam ter se abstido de condená-lo.

– Como foi, na verdade, o julgamento de Galileu?

– Dom Sánchez de Toca: Fundamentalmente, Galileu foi processado em 1633 por ter violado uma disposição que lhe foi feita em 1616. A disposição de 1616, que Galileu não cumpriu, proibia-o de ensinar o copernicanismo, ou seja, a doutrina que diz que o sol está no centro e a terra se move ao redor dele.

Galileu pensou que a proibição não era tão rígida, sobretudo depois da eleição do Papa Urbano VIII, e publicou um livro no qual, sob a aparência de um diálogo no qual se expõem os argumentos a favor e contra, tanto do sistema ptolomaico como do copernicano, na realidade se escondia uma apologia declarada do sistema copernicano. Não só isto, era já fraudulentamente o imprimatur, enganou a quem o concedeu dizendo que era uma exposição imparcial, mas não era nada imparcial. Por este motivo foi acusado e, portanto, submetido a processos, ou seja, submetido a um processo disciplinar.

Galileu nunca foi condenado como herege, nem tampouco o copernicanismo foi declarado como herético. Simplesmente foi declarado contrário à Escritura porque sobre a base das provas que existiam então não era possível demonstrar o movimento da terra e, portanto, dizer que a terra se movia parecia ir contra a Escritura. Foi muito significativo que em 1616 um grupo de especialistas declarasse que a doutrina segundo a qual a terra se move ao redor do sol era absurda e isso se entende perfeitamente no contexto da época, porque não se podia demonstrar e o bom senso dizia que o sol se põe e sai.

Sem uma física como a de Newton, sem uma prova ótica como o movimento da terra, a coisa parecia absurda. Nós crescemos desde pequenos vendo modelos e imagens do sistema solar, mas o fato é que ninguém viu a terra mover-se ao redor do sol, nem sequer um astronauta. Temos provas óticas do movimento da terra, mas ninguém viu a terra mover-se. Por isso nos parece que a atitude dos que condenaram Galileu é exagerada, mas na realidade responde a uma lógica.

– E responde não somente ao que a Igreja pensava, mas a sociedade em geral…

– Dom Sánchez de Toca: Naturalmente. O copernicanismo encontrou uma grande oposição, principalmente nas universidades. Teve uma aceitação muito gradual e a oposição não foi só na Igreja Católica. Também as igrejas protestantes se opuseram a Copérnico. E ainda, em 1670, a universidade de Upsala, na Suécia, condenou um estudante porque havia defendido as teses copernicanas.

– Quais foram os erros que a Igreja cometeu em seu julgamento a Galileu? O que se concluiu no trabalho feito pela comissão que João Paulo II criou em 1981 para estudar o caso de Galileu?

– Dom Sánchez de Toca: Quem expressou muito bem isso foi o cardeal Paul Poupard no discurso ao finalizar o trabalho desta comissão, quando, com estas palavras – que no discurso parecem sublinhadas – destacou seu julgamento sobre o que aconteceu: “Naquela conjuntura histórico-cultural, a de Galileu, muito afastada da nossa, os juízes de Galileu, incapazes de dissociar a fé de uma cosmologia milenar, acreditaram que adotar a revolução copernicana, que por demais não estava ainda aprovada definitivamente, podia quebrar a tradição católica e que era seu dever proibir o ensinamento”.

“Este erro subjetivo de juízo, tão claro hoje para nós, conduziu-os a uma medida disciplinar por causa da qual Galileu deve ter sofrido muito. É preciso reconhecer estes erros tal como o Santo Padre pediu.”

Os juízes de Galileu se equivocaram não somente porque hoje sabemos que a terra se move, mas naquele tempo não era possível saber. Por outro lado, a história da humanidade esteve cheia de loucos que afirmavam coisas surpreendentes e depois se revelaram falsas, hoje ninguém se lembra de seus nomes. Se Galileu tivesse proposto uma teoria diferente, hoje ninguém se lembraria dele. Este foi o primeiro erro objetivo.
O cardeal Poupard também fala de um erro subjetivo. Qual foi? Creram que deveriam proibir um ensino científico por temor às suas consequências. Pensaram que permitir o ensinamento de uma doutrina científica que não estava aprovada podia colcoar em perigo o edifício da fé católica e sobretudo a fé das pessoas simples. E creram que era seu dever proibir este ensinamento.

Hoje sabemos que proibir o ensinamento de uma doutrina científica é um erro. Não cabe à Igreja dizer se está provada cientificamente ou não. Corresponde à ciência. O que Galileu pedia é que a Igreja não condenasse o copernicanismo, não tanto por medo à sua própria carreira profissional, mas porque depois, caso se demonstrasse que a terra se movia ao redor do sol, a Igreja se veria em uma situação muito difícil e faria o ridículo diante dos protestantes e Galileu queria evitar isto, porque era um homem católico sincero. E dizia também: “Se hoje se condena como herética uma doutrina científica como a que a terra se move ao redor do sol., o que acontecerá no dia em que a terra demonstrar que se move ao redor do sol? Será preciso declarar heréticos então os que sustentam que a terra está no centro?”. Isso é o que estava em jogo, é muito mais complexo do que se costuma dizer.

– Em que consistiu o castigo de Galileu?

– Dom Sánchez de Toca: Disseram que Galileu havia sido veementemente suspeito de heresia, mas não o declararam herege. Pediram-lhe que abjurasse para dissipar toda dúvida. Galileu abjurou. Disse que ele não havia defendido nem defendeu o copernicanismo. Condenou-se ao índice de livros proibidos sua obra “O diálogo”, foi-lhe imposta uma penitência saudável, que consistia em recitar uma vez na semana os sete salmos penitenciais. Sua filha se ofereceu para fazê-lo no lugar dele, e isso foi o mais humilhante, deveriam enviar uma cópia da sentença e da abjuração a todas as nunciaturas da Europa. Foi condenado à prisão de regime domiciliar. Ou seja, digamos que a condenação objetivamente não foi muito grande. Não esteve na prisão nem um só momento, em atenção à sua fama, à sua idade e à consideração que tinha; foi tratado sempre com grande admiração.

– Quem começou a difundir a lenda negra de que Galileu foi queimado na fogueira?

– Dom Sánchez de Toca: Isso é o bom, ninguém o disse, mas todo mundo acredita. Provavelmente porque se sobrepõem as imagens de Galileu e de Giordano Bruno. Em todo caso, o mito de Galileu nasce com o Iluminismo, que converteu Galileu em uma espécie de promotor do livre pensamento contra o obscurantismo da Igreja, um mártir da ciência e do progresso.

Galileu, na realidade, e isto é o que surpreende muitos, não só não foi queimado nem torturado, mas também foi católico e foi crente a vida toda. Não há nele o mínimo rastro de livre pensador. Não foi um católico exemplar, é verdade, e há momentos de sua vida pouco edificantes, mas em nenhum momento renega sua pertença à Igreja.

Ele o diz, exagerando como faz sempre, em uma carta a um nobre francês: “Outros podem ter falado mais piamente e mais doutamente, mas nenhum mais cheio de zelo pela honra e a reputação da Santa Mãe Igreja do que escrevi eu”. É exagerado, mas, em todo caso, demonstra que é verdade.

– Ele teve duas filhas monjas?

– Dom Sánchez de Toca: Teve três filhos, duas mulheres. Quando mudou-se de Pádua à corte de Toscana, colocou-as em um convento para o qual teve que pedir dispensa, porque eram muito jovens. De uma delas, Irmã Maria Celeste, conserva-se a correspondência entre pai e filha, que é verdadeiramente admirável. Ela era uma mulher extraordinária, muito inteligente, de uma grande perspicácia, grande escritora e há um livro que se baseia no epistolário entre a Irmã Maria e o pai.

– Fale-nos sobre seu livro “Galileu e o Vaticano”, cuja edição italiana foi publicada recentemente…

– Dom Sánchez de Toca: Esta investigação não trata exatamente sobre o caso Galileu, mas sobre o modo em que a comissão que João Paulo II criou releu o caso Galileu, porque se o caso Galileu é uma telenovela, como dizia Dom Mariano Artigas, em um sentido literário – segundo o dicionário, uma telenovela é, além de uma novela longa e melodramática, uma “história” real com caracteres de telenovela, ou seja, insólita, lacrimogênia e sumamente longa –, o termo se contagia também à comissão que João Paulo II instituiu entre 1981 e 1992, à qual fizeram críticas muito fortes. Dizem que não esteve à altura do desejo de João Paulo II, que os discursos de encerramento do cardeal Poupard e do Papa foram deficientes e muito fracos, que a Igreja não fez realmente o que devia ter feito. Com o professor Artigas, o outro autor do livro, que morreu em 2006, o que fizemos foi estudar toda a documentação que há nos arquivos. Ver exatamente o que fez e como fez esta comissão.

Nossa opinião é que faltavam elementos desde o princípio. Faltaram meios, boa vontade, mas, apesar de tudo, fez um bom trabalho, permitiu a abertura dos arquivos do Santo Ofício e demonstrar que na realidade não há documentos escondidos. Foram publicadas obras de referência importantes e creio que isto permitiu à Igreja fazer uma espécie de exame de consciência. Reler o caso de Galileu com outra luz. Não descobrir coisas novas, porque isso é difícil, e fazer que a Igreja em seu conjunto olhe serenamente para o caso Galileu sem rancor, sem medo.

– Por que crê que o tema de Galileu irrita tanto a opinião pública, até o ponto de que os professores da Universidade da Sapienza tenham negado ao Papa Bento XVI a entrada no ano passado, por tê-lo citado em um discurso que pronunciou em 1990?

– Dom Sánchez de Toca: Porque há quem esteja interessado em continuar fazendo de Galileu uma espécie de “santo leigo”, leigo em sentido anticristão. Mas, na realidade, foi um homem de Igreja, ainda com todas as suas deficiências. Recordo que um arcebispo de Pisa, que foi astrônomo, quis colocar, há anos, na praça dos milagres, a mais famosa, onde está a torre, uma estátua dedicada a Galileu. A prefeitura não o permitiu porque queria continuar mantendo a exclusiva sobre a imagem de Galileu, como se fosse alguém que não pertence à Igreja, mas ao mundo chamado leigo.

Por isso, cada vez que por parte da Igreja alguém cita Galileu, há uma reação de “alergia instintiva” nestes ambientes de pseudociência, que dizem: “Como vocês se atrevem a falar de Galileu, vocês que queimaram Galileu?”.

– Por que o Conselho Pontifício para a Cultura tem uma imagem de Galileu em sua biblioteca?

– Dom Sánchez de Toca: Precisamente porque Galileu é um modelo de cientista crente. Ele investiga o céu, descobre coisas novas e procura integrar seus novos conhecimentos dentro de uma visão cristã. Esforça-se por demonstrar que não há contradição com a Escritura, com a Bíblia. O que acontece é que o fez com todo o entusiasmo transbordante que irritava muito os outros. Sem ser teólogo, ele se metia em um campo que era reservado exclusivamente aos teólogos. Na contra-reforma, que um leigo, sem ter estudos de teologia, se atrevesse a interpretar a Bíblia por sua conta, ainda que fosse em sintonia com a tradição católica, despertava imediatamente suspeitas.

– Você se referiu às condutas pouco exemplares de Galileu…

– Dom Sánchez de Toca: Não é nenhum mistério que Galileu não tenha sido nenhum santo. Há alguns que, reivindicando o caráter de cientista crente, chegam a pedir inclusive sua beatificação. É demais… Galileu esteve convivendo sem estar casado com Marina Gamba, em Pádua, de quem teve três filhos. Isso não era especialmente escandaloso, mas tampouco era bem visto.

Por outra parte, tinha um temperamento forte, como os grandes gênios em geral. Tinha uma língua terrível. Foi imprudente, enfrentou a Companhia de Jesus, apesar de que os jesuítas o acolheram em Roma e avalizaram seus descobrimentos, quando era um perfeito desconhecido. Foi um pouco presunçoso, vaidoso, com grande ego. São defeitos que qualquer um pode ter e que não eliminam nada da genialidade de Galileu.

Grande abraço a todos.
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DO TELESCÓPIO DE GALILEU À COSMOLOGIA EVOLUTIVA

Mensagem por Pe. Anderson em Qui Fev 09, 2012 1:10 pm

Caros amigos,

Vejam essa recente mensagem do Papa sobre o tema em discussao.

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI AO REITOR DA UNIVERSIDADE LATERANENSE POR OCASIÃO DO CONGRESSO «DO TELESCÓPIO DE GALILEU À COSMOLOGIA EVOLUTIVA. CIÊNCIA, FILOSOFIA E TEOLOGIA EM DIÁLOGO»


Ao Venerado Irmão
D. Rino Fisichella
Magnífico Reitor da Pontifícia
Universidade Lateranense

Sinto-me feliz por dirigir a minha saudação a todos os participantes no Congresso internacional sobre o tema Do telescópio de Galileu à cosmologia evolutiva. Ciência, filosofia e teologia em diálogo. A minha saudação dirige-se de modo particular a Vossa Excelência, Venerado Irmão, que se fez promotor deste importante momento de reflexão, no contexto do "Ano Internacional da Astronomia", para celebrar o quarto centenário da descoberta do telescópio. O meu pensamento dirige-se também ao Prof. Nicola Cabibbo, Presidente da Pontifícia Academia das Ciências, que colaborou na preparação deste Congresso. Saúdo cordialmente as personalidades que vieram de diversos países do mundo, as quais, com a sua presença, qualificam estas jornadas de estudo.

Quando se abre o Sidereus nuncius e se lêem as primeiras expressões de Galileu, sobressai imediatamente a maravilha do cientista pisano diante de quanto ele mesmo tinha realizado: "Neste breve tratado proponho grandes coisas escreve ele à observação e à contemplação dos estudiosos da natureza. Digo grandes, quer pela excelência da matéria em si mesma, quer pela novidade jamais escutada nos séculos, quer também pelo instrumento através do qual estas mesmas coisas se manifestaram aos nossos sentidos" (Galileu Galilei, Sidereus nuncius, 1610, tr. P.A. Giustini, Lateran University Press 2009, p. 89). Corria o ano de 1609, quando Galileu orientou pela primeira vez para o céu um instrumento "por mim inventado – como escreverá – iluminando-me primeiro a graça divina": o telescópio. Quanto se apresentou ao seu olhar é fácil imaginar; a maravilha transformou-se em emoção e esta em entusiasmo que lhe fez escrever: "É certamente grandioso acrescentar à imensa multidão das estrelas fixas, que com a natural capacidade visiva se puderam ver até hoje, outras inumeráveis estrelas, jamais vistas até agora e que superam mais do que dez vezes o número das estrelas antigas já conhecidas" (Ibid.). O cientista podia observar com os próprios olhos quanto, até àquele momento, era apenas fruto de hipóteses controversas. Não se engana quem pensa que o ânimo profundamente crente de Galileu, diante daquela visão, se tenha como que aberto naturalmente à oração de louvor, fazendo próprios os sentimentos expressos pelo Salmista: "Ó Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso nome em toda a terra!... Quando contemplo os céus, obra das Vossas mãos, a lua e as estrelas, que Vós fixastes; que é o homem, para Vos lembrardes dele, o Filho do homem, para dele cuidardes? Contudo... destes-lhe domínio sobre as obras das Vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés" (Sl 8, 1.4-5.7).

Com esta descoberta cresceu na cultura a consciência de se encontrar diante de um ponto crucial da história da humanidade. A ciência tornava-se algo de diverso do modo como os antigos a tinham sempre considerado. Aristóteles tinha permitido alcançar o conhecimento certo dos fenómenos, partindo de princípios evidentes e universais; agora Galileu mostrava concretamente como aproximar e observar os próprios fenómenos, para compreender as suas causas secretas. O método dedutivo cedia o passo ao indutivo e abria o caminho à experimentação. O conceito de ciência que durou por muitos séculos agora era modificado, iniciando-se o caminho rumo a uma moderna concepção do mundo e do homem. Galileu tinha penetrado nos caminhos desconhecidos do universo; ele abria de par em par a porta para observar os seus espaços cada vez mais imensos. Provavelmente, além das suas intenções, a descoberta do cientista pisano permitia também voltar atrás no tempo, suscitando perguntas sobre a própria origem da criação e fazendo sobressair que também o facto de que o universo, que saiu das mãos do Criador, tem uma sua história; ele "geme e sofre as dores de parto" – usando uma expressão do Apóstolo Paulo – na esperança de ser libertado "da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus" (Rm 8, 21-22).

Também hoje o universo continua a suscitar interrogações às quais, contudo, a simples observação não consegue dar uma resposta satisfatória: unicamente as ciências naturais e físicas não são suficientes. De facto, a análise dos fenómenos, se permanecer fechada em si mesma, corre o risco de apresentar o cosmos como um enigma insolúvel: a matéria possui uma inteligibilidade capaz de falar à inteligência do homem e indicar um caminho que vai além do simples fenómeno. É a lição de Galileu que conduz a esta consideração. Não foi, porventura, o cientista de Pisa quem afirmou que Deus escreveu o livro da natureza na forma da linguagem matemática? Contudo, a matemática é uma invenção do espírito humano para compreender a criação. Mas se a natureza está realmente estruturada segundo uma linguagem matemática e a matemática inventada pelo homem pode chegar a compreendê-la, isto significa que se verificou algo de extraordinário: a estrutura objectiva do universo e a estrutura intelectual do sujeito humano coincidem; a razão subjectiva e a razão objectiva na natureza são idênticas. No final, é "uma" razão que relaciona ambas e convida a olhar para uma única Inteligência criadora (cf. (Bento XVI, Discurso aos jovens da Diocese de Roma, em Insegnamenti II, [2006], 421-422).

As perguntas sobre a imensidade do universo, a sua origem e o seu fim, assim como sobre a sua compreensão, não admitem uma só resposta de carácter científico. Quem olhar para o cosmos, seguindo a lição de Galileu, não se poderá deter só no que observa com o telescópio, mas deverá ir além para se interrogar acerca do sentido e do fim para os quais toda a criação orienta. A filosofia e a teologia, nesta fase, assumem um papel importante, para explicar o caminho rumo a ulteriores conhecimentos. A filosofia diante dos fenómenos e da beleza da criação procura, com o seu raciocínio, compreender a natureza e a finalidade última do cosmos. A teologia, fundada na Palavra revelada, perscruta a beleza e a sabedoria do amor de Deus, o qual deixou os Seus vestígios na natureza criada (cf. S. Tomás de Aquino, Summa theologiae, Ia. q. 45, a. 6). Neste movimento gnoseológico estão envolvidas quer a razão quer a fé; ambas oferecem a sua luz. Quanto mais aumenta o conhecimento da complexidade do cosmos, tanto mais ele exige uma pluralidade de instrumentos capazes de o poder satisfazer; não existe qualquer conflito eminente entre os vários conhecimentos científicos e os filosóficos e teológicos; ao contrário, só na medida em que eles conseguirem entrar em diálogo e intercambiar as respectivas competências, serão capazes de apresentar aos homens de hoje resultados deveras eficazes.

A descoberta de Galileu foi uma etapa decisiva para a história da humanidade. A partir dela, tiveram início outras grandes conquistas, com a invenção de instrumentos que tornam precioso o progresso tecnológico alcançado. Dos satélites que observam as várias fases do universo, às máquinas mais sofisticadas utilizadas pela engenharia biomédica, tudo mostra a grandeza do intelecto humano que, segundo o mandamento bíblico, está chamado a "dominar" toda a criação (cf. Gn 1, 28), a "cultivá-la" e a "guardá-la" (cf. Gn 2, 15). Mas há sempre, contudo, um risco subtil por detrás de tantas conquistas: que o homem tenha confiança só na ciência e se esqueça de elevar o olhar para além de si mesmo, para o Ser transcendente, Criador de tudo, que em Jesus Cristo revelou o seu rosto de Amor. Tenho a certeza de que a interdisciplinaridade com que se realiza este Congresso permitirá captar a importância de uma visão unitária, fruto de um trabalho comum para o verdadeiro progresso da ciência na contemplação do cosmos.

Acompanho de bom grado, venerado Irmão, o seu compromisso académico, pedindo ao Senhor que abençoe estes dias, assim como a pesquisa de cada um de vós.

Vaticano, 26 de Novembro de 2009.

PAPA BENTO XVI

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O caso Galileu: 350 anos depois

Mensagem por Pe. Anderson em Sex Fev 10, 2012 2:56 pm

Caros amigos,

Finalmente foi traduzido ao portugues o melhor e mais claro texto que conheco sobre o caso Galileu. Foi escrito por um ex-professor da Universidade onde eu estudei. Conheçam e divulguem-no.


O caso Galileu: 350 anos depois
Introdução

O caso Galileu é comumente utilizado para afirmar que a Igreja Católica é inimiga do progresso científico. Por tanto, chama-me a atenção que diversos católicos, inclusive sacerdotes, religiosos e outras pessoas que têm conhecimento teológico, conheçam esse caso de um modo bastante superficial e, por vezes, equivocado.

Há alguns anos, estava em Roma ministrando um curso de doutorado. Em uma aula falei sobre o caso Galileu. Ao concluir, um sacerdote que estava trabalhando em sua tese de doutorado veio falar comigo. Estava muito contrariado e me dizia: “como é possível que eu, sacerdote católico, que passei anos em um Seminário e agora trabalho em minha tese de doutorado em Roma, soube apenas hoje que a Inquisição não matou Galileu?” Tinha toda razão em se sentir desnorteado. Visto que tenho experiências semelhantes com certa frequência, decidi escrever este artigo, no qual pretendo resumir, brevemente, os aspectos centrais do caso Galileu: o que sabemos com segurança que aconteceu ou não aconteceu, quais temas continuam sendo discutidos, qual é, definitivamente, o estado atual da questão em seus pontos principais.

As causas da ignorância e confusão existentes em torno ao caso Galileu é um tema que mereceria ser estudado. Em parte pode ser devido ao uso demasiado partidarista que muitas vezes se fez neste caso: alguns, desejando atacar a Igreja, acentuaram excessivamente o que lhes interessava ou deformaram os fatos, e outros, ao defender a Igreja, por vezes utilizaram-se de uma apologética demasiado fácil, desconhecendo a complexidade do caso. Atualmente, há muitos estudos rigorosos sobre Galileu, de modo que é possível estabelecer com objetividade o que sabemos e o que desconhecemos. A Igreja católica mostrou, por meio do seu representante maior, o Papa, um desejo claro de esclarecer o tema, e não encontrou inconveniente em reconhecer, sem paliativos, os erros que os seus representantes puderam cometer com Galileu, pedindo inclusive perdão por eles. Parece que estamos em um bom momento para propor um resumo desapaixonado do famoso caso.

1. Como morreu Galileu?

O primeiro ponto que deveria ficar claro é que a Inquisição não matou a Galileu, nem a ninguém. Morreu de morte natural. Galileu nasceu na terça-feira, 15 de fevereiro de 1564 em Pisa, e morreu na quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, em sua casa, uma vila em Arcetri nas imediações de Florença. Portanto quando morreu tinha quase 78 anos (é possível encontrar uma diferença de um ano inclusive em documentos oficiais, porque então, em Florença, os anos começavam a contar em 25 de março, data da Encarnação do Senhor). Conta Vicenzo Viviani, um jovem discípulo de Galileu que permaneceu continuamente junto a ele nos últimos trinta meses, que sua saúde estava muito debilitada: tinha uma grave artrite desde os 30 anos e a isto se unia uma irritação constante e quase insuportável nas pálpebras e outros achaques que traz consigo uma idade tão avançada, sobretudo quando consumida em muito estudo e vigília.

Acrescenta que, apesar de tudo, seguia cheio de projetos de trabalho, até que por fim lhe assaltou uma febre que o foi consumindo lentamente e uma forte palpitação, com a qual ao longo de dois meses foi se extenuando cada vez mais, e por fim, uma quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, às quatro horas da manhã, morreu com firmeza filosófica e cristã, aos setenta e sete anos de idade, dez meses e vinte dias. Portanto, não existiu a fogueira nem nada parecido.

Tampouco foi condenado à morte. O único processo em que foi condenado ocorreu em 1633, e ali foi condenado à prisão que em vista de suas boas disposições, foi comutada imediatamente por prisão domiciliar, de modo que nunca chegou a ingressar em um cárcere. durante o processo deveria ter estado na prisão da Inquisição, segundo as normas comuns, mas de fato nunca esteve lá: antes de começar o processo se alojou na embaixada de Toscana em Roma, situada no Palazzo Firenze, onde vivia o embaixador; durante o processo foi exigido em alguns momentos que se alojasse no edifício da Inquisição, mas então lhe habilitaram umas estâncias que estavam reservada para os eclesiásticos que trabalhavam ali, permitindo que lhe levassem comida da embaixada Toscana; e ao acabar o processo foi permitido que estivesse alojado na Vila Médici, uma das melhores vilas de Roma, com esplêndidos jardins, propriedade do Grande Duque de Toscana. Tudo isto se explica porque Galileu era oficialmente o primeiro matemático e filósofo do Grande Duque de Toscana, território importante (inclui Florença, Pisa, Livorno, Siena, etc.) e tradicionalmente bem relacionado com a Santa Sé, e as autoridades de Toscana exerceram bons ofícios para que em Roma Galileu fosse tratado o melhor possível, como de fato sucedeu. O embaixador de Toscana, Francesco Niccolini, apreciava muitíssimo a Galileu, e colocou todos os meios para que sofresse o menos possível com o processo, e para que não fosse preso. Niccolini conseguiu que, ao fim do processo, a pena de prisão que se impôs fosse comutada por confinamento na Vila Médici. Depois de poucos dias foi permitido que se trasladasse a Siena, onde se alojou no palácio do arcebispo, monsenhor Ascanio Piccolomini; este era um grande admirador e amigo de Galileu, e o tratou esplendidamente durante os vários meses em que esteve em sua casa, de modo que ali se recuperou do trauma que sem dúvida, supôs o processo (em 1633, quando ocorreu o processo, Galileu tinha 69 anos). Depois, foi permitido que se trasladasse à casa que tinha fora de Florença, e ali permaneceu até a morte, já velho, de morte natural. Acabou sua obra mais importante, e a publicou, em 1638, depois do processo.

Definitivamente, Galileu não foi condenado à morte, mas a uma prisão que não chegou a se executar porque foi comutada: primeiro, por uma estância de vários dias na Vila Médici, em Roma; depois, por uma estância de vários meses no palácio de seu amigo arcebispo de Siena; e a continuação (fins de 1633), foi-lhe permitido residir, em uma espécie de prisão domiciliar, em sua própria casa, na Vila do Gioiello, em Arcetri, nas imediações de Florença, onde viveu e trabalhou até sua morte.

Galileu nunca foi submetido a tortura ou a maus tratos físicos. Sem dúvida, fazê-lo ir a Roma vindo de Florença para ser julgado, tendo 69 anos, supõe mau trato, e o mesmo se pode dizer da tensão psicológica que teve de suportar durante o processo e na condenação final, seguida de uma abjuração forçada. É certo. Desde o ponto de vista psicológico, com a repercussão que isto pode ter na saúde, Galileu teve que sofrer por estes motivos e, de fato, quando chegou a Siena depois do processo, se encontrava em más condições. Mas é igualmente certo que não foi nenhum objeto dos maus tratos físicos típicos da época. Algum autor afirmou que, durante o processo, ao final, em uma ocasião, foi submetido a tortura; entretanto, autores de todas as tendências estão de acordo, com praticamente unanimidade, que isto realmente não aconteceu. Na fase conclusiva do processo, em uma ocasião, encontra-se uma ameaça de tortura por parte do tribunal, mas todos os dados disponíveis estão a favor de que se tratou de pura formalidade que, devido aos regulamentos da Inquisição, o tribunal devia mencionar, mas sem intenção de levá-la à prática e sem que, de fato, fosse realizada (consta, além disso, que em Roma não se praticava a tortura com pessoas da idade de Galileu). Depois da condenação, em Siena, Galileu se recuperou. Logo sofreu diversas doenças, mas eram as mesmas que já sofria habitualmente desde muitos anos antes e que foram se agravando com a idade. Chegou a ficar completamente cego, mas nada teve a ver com o processo.

2. Porque Galileu foi condenado?

O que mais chama a atenção não são os maus tratos físicos que como acabamos de ver, não existiram, mas o fato em si mesmo de que Galileu foi condenado, com as tensões e sofrimentos que isto implica. Desde logo, não era homicida, nem ladrão, nem malfeitor em nenhum sentido habitual da palavra. Então, porque foi condenado? Qual foi a condenação?

Costuma-se falar de dois processos contra Galileu: o primeiro em 1616, e o segundo em 1633. Às vezes só se fala do segundo. O motivo é simples: o primeiro processo realmente existiu, porque Galileu foi denunciado à Inquisição romana e o processo foi adiante, mas Galileu não chegou a ser convocado diante do tribunal: o denunciado se inteirou de que existia a denúncia e o processo através de comentários de outras pessoas, mas o tribunal nunca lhe disse nada, nem o convocou, nem o condenou. Por isso com frequência não se considera que se tratou de um autêntico processo, ainda que de fato a causa se abriu e se desenvolveram algumas diligências processuais durante meses. Ao contrário, o de 1633 foi um processo a toda regra: Galileu foi intimado a comparecer diante do tribunal da Inquisição de Roma, teve que se apresentar e declarar diante desse tribunal, e finalmente foi condenado. Tratam-se de dois processos muito diferentes, separados por muitos anos; mas estão relacionados, porque o que aconteceu no de 1616 condicionou em grande parte o que aconteceu em 1633.

2.1. O processo de 1616

Em 1616 Galileu era acusado de postular o sistema heliocêntrico proposto na Antiguidade pelos pitagóricos e na época moderna por Copérnico: afirmava que a Terra não está quieta no centro do mundo, como geralmente se acreditava, mas que gira sobre si mesma e ao redor do Sol, da mesma forma que os outros planetas do Sistema Solar. Isto parecia ir contra textos da Bíblia onde se diz que a Terra está quieta e o Sol se move, de acordo com a experiência; além disso, a Tradição da Igreja assim havia interpretado a Bíblia durante séculos, e o Concílio de Trento havia insistido em que os católicos não deveriam admitir interpretações da Bíblia que se afastassem das interpretações unânimes dos Santos Padres.

Os acontecimentos de 1616 acabaram com dois atos extrajudiciais. Por um lado, publicou-se um decreto da Congregação do Index, datado de 5 de março de 1616, pelo qual se incluíram no índice de livros proibidos três livros: Sobre as revoluções do cônego polaco Nicolau Copérnico, publicado em 1543, onde se expunha a teoria heliocêntrica de modo científico; um comentário do agostiniano espanhol Diego de Zúñiga, publicado em Toledo em 1584 e em Roma em 1591, onde se interpretava alguma passagem da Bíblia de acordo com o copernicanismo; e um opúsculo do carmelita italiano Paolo Foscarini, publicado em 1615, onde defendia-se que o sistema de Copérnico não está contra a Sagrada Escritura. Ficava afetado pelas mesmas censuras qualquer outro livro que ensinasse as mesmas doutrinas. O motivo que se dava no decreto para essas censuras era de que a doutrina que defende que a Terra se move e o Sol está em repouso é falsa e completamente contrária à Sagrada Escritura. Por outro lado, Galileu foi admoestado pessoalmente para que abandonasse a teoria heliocêntrica e se abstivesse de defendê-la.

O opúsculo de Foscarini foi proibido absolutamente. Ao contrário, os livros de Copérnico e de Zúñiga somente foram suspendidos até que se corrigissem algumas passagens. No caso de Zúñiga, o que deveria se modificar era muito breve. No caso de Copérnico tratavam-se de diversas passagens onde deveria explicar que o heliocentrismo não era uma teoria verdadeira, mas só um artifício útil para os cálculos astronômicos. De fato, essas correções foram preparadas e aprovadas ao fim de quatro anos, em 1620.

Podemos nos perguntar por que se dava tanta importância a algo que, hoje em dia, parece simples: quando a Bíblia fala de questões científicas, com frequência adota o modo de falar próprio da cultura, da época ou simplesmente da experiência ordinária. De fato este foi um dos argumentos que Galileu utilizou em sua Carta a Benedetto Castelli, que circulou em cópias à mão (Castelli era um beneditino, amigo e discípulo de Galileu, professor de matemática na Universidade de Pisa), e com maior extensão em sua Carta à Grande Duquesa de Toscana, Cristina de Lorena (mãe daquele que naqueles momentos era Grande Duque de Toscana, Cosme II), a quem havia chegado ecos das acusações bíblicas contra Galileu.

Para compreender o fundo do assunto deve-se mencionar três problemas. Em primeiro lugar, Galileu tinha se tornado célebre com seus descobrimentos astronômicos de 1609-1610. Utilizando o telescópio que ele mesmo contribuiu de modo decisivo para aperfeiçoar, descobriu que a Lua possui irregularidades como a Terra, que ao redor de Júpiter giram quatro satélites, que Vênus apresenta fases como a Lua, que na superfície do Sol existem manchas que mudam de lugar, e que existem muito mais estrelas do que as que se veem a olho nu. Galileu se baseou nestes descobrimentos para criticar a física aristotélica e apoiar o heliocentrismo copernicano. Os professores aristotélicos, que eram muitos e poderosos, sentiam que os argumentos de Galileu contradiziam sua ciência, e às vezes passavam ridículo. Estes professores atacaram seriamente a Galileu e, quando acabavam-se as respostas, alguns recorreram aos argumentos teológicos (a pretendida contradição entre Copérnico e a Bíblia).

Em segundo lugar, a Igreja católica era naqueles momentos especialmente sensível para com aqueles que interpretavam por sua conta a Bíblia, afastando-se da Tradição, porque o enfrentamento com o protestantismo era muito forte. Galileu se defendeu de quem dizia que o heliocentrismo era contrário à Bíblia explicando por que não era, mas com isto se fazia de teólogo, o que era considerado então como algo perigoso, sobretudo quando, como neste caso, se afastava das interpretações tradicionais. Galileu argumentou bem como teólogo, sublinhando que a Bíblia não pretende nos ensinar ciência e se acomoda aos conhecimentos de cada momento, e inclusive mostrou que na Tradição da Igreja se encontravam precedentes que permitiam utilizar argumentos como os que ele propunha. Mas, em uma época de fortes polêmicas teológicas entre católicos e protestantes, estava muito mal visto que um profano pretendesse dar lições aos teólogos, propondo algumas novidades um tanto estranhas.

Em terceiro lugar, a cosmovisão tradicional, que colocava a Terra no centro do mundo, parecia estar de acordo com a experiência ordinária: vemos que se movem o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas; ao invés, se a Terra se movesse, deveriam suceder coisas que não sucedem: projeteis atirados para cima cairiam atrás, não se sabe como estariam as nuvens unidas à Terra sem ficar também atrás, se deveria notar um movimento tão rápido.

Além disso, essa cosmovisão tradicional parecia muito mais coerente com a perspectiva cristã de um mundo criado para o homem, e também com a Encarnação e a Redenção da humanidade através de Jesus; de fato, entre aqueles que haviam aceitado as ideias de Copérnico contava-se Giordano Bruno, que defendeu que existem muitos mundos habitados e acabou sustentando doutrinas mais ou menos heréticas (Bruno foi queimado, como consequência de sua condenação pela Inquisição romana, em 1600, ainda que deve-se sublinhar, não como desculpa mas para maior claridade, que não era propriamente um cientista, ainda que utilizasse o copernicanismo como ponto de partida).

Os acontecimentos de 1616 culminaram em um decreto da Congregação do Índex, datado de 5 de março de 1616, pelo qual foram proibidos os livros mencionados, com os matizes já apontados. O decreto foi publicado em nome da Congregação, e está assinado pelo cardeal prefeito e pelo secretário da Congregação, não pelo Papa. Desde então, um ato desse tipo era feito com o mandato ou aprovação do Papa e, de algum modo, comprometia a autoridade do Papa, mas de nenhuma maneira pode ser considerado como um ato que põe em jogo a infalibilidade do Papa: por uma parte, porque nem está assinado pelo Papa e nem mesmo o menciona; por outra, porque trata-se de um ato de governo de uma Congregação, não de um ato de magistério; e além disso, porque não pretende definir uma doutrina de modo definitivo. Isso era perfeitamente sabido então, como agora; como prova disso pode-se mencionar uma carta de Benedetto Castelli a Galileu, escrita em 2 de outubro de 1632, quando já tinha sido ordenado a Galileu que comparecesse perante a Inquisição de Roma. Castelli falou com o Padre Comissário do Santo Ofício, Vincenzo Maculano, e defendeu a ortodoxia da posição de Copérnico e de Galileu, acrescentando que várias vezes falou de tudo isso com teólogos piedosos e muito inteligentes, e não viram nenhuma dificuldade; acrescenta que o próprio Maculano lhe disse que concordava e que, em sua opinião, a questão não deveria se resolver recorrendo à Sagrada Escritura. É fácil advertir que estas opiniões, tratadas no próprio Comissário do Santo Ofício, não teriam sentido se o decreto do índex de 1616 pudesse ser interpretado como tendo um alcance de magistério infalível ou definitivo.

Nas deliberações da Santa Sede, prévias ao decreto, foram pedidas as opiniões de onze consultores do Santo Ofício, que relataram, em 24 de fevereiro de 1616, que dizer que o Sol está parado no centro do universo é absurdo em filosofia e além disso formalmente herético, porque contradiz muitos lugares da Escritura tal como expõe os Santos Padres e os teólogos, e dizer que a Terra se move é também um absurdo em filosofia e ao menos errôneo na fé. Com frequência é tomada esta opinião dos teólogos consultores como se fosse ditame da autoridade da Igreja, mas não é: foi somente a opinião dessas pessoas. O único ato público da autoridade da Igreja foi o decreto da Congregação do Índex, e nesse decreto não é dito que a doutrina heliocêntrica seja herética: é dito que é falsa e que se opõe à Sagrada Escritura. O matiz é importante, e qualquer entendido em teologia o sabia então e o sabe agora. Ninguém considerou, então, nem deveria considerar agora, que o heliocentrismo foi condenado como heresia, porque não é certo. Isto explica que Galileu e outras pessoas igualmente católicas continuaram aceitando o heliocentrismo; Galileu sabia (e estava certo) que ele havia mostrado, em suas cartas a Castelli e a Cristina Lorena, que o heliocentrismo podia ser compatível com a Sagrada Escritura, utilizando princípios que não eram novos, mas que tinham apoio na tradição da Igreja.

A decisão da autoridade da Igreja em 1616 foi equivocada, ainda que não tenha qualificado o heliocentrismo como heresia. Galileu e seus amigos eclesiásticos se propuseram a conseguir que este decreto fosse revogado. Poderiam ter conseguido: trata-se de um decreto disciplinar que ainda que fosse acompanhado por um valor doutrinal, não condenava o heliocentrismo como heresia, nem era um ato de magistério infalível.

Outro aspecto importante a levar em conta é que, ainda que as críticas de Galileu à posição tradicional estavam fundamentadas, nem ele nem ninguém possuíam naqueles momentos argumentos para demonstrar que a Terra se move ao redor do Sol. Esta afirmação parecia mais absurda, tal como a qualificação dos teólogos do Santo Ofício. Em uma famosa carta, o cardeal Roberto Belarmino, um dos teólogos mais influentes então, pedia tanto a Foscarini como a Galileu que utilizassem o heliocentrismo somente como um hipótese astronômica, sem pretender que fosse verdadeira nem entrar em argumentos teológicos, em cujo caso não haveria nenhum problema. Mas Galileu para defender-se de acusações pessoais e para tentar que a Igreja não interviesse no assunto, se lançou a uma defesa forte do copernicanismo, mudando-se para Roma e tentando influenciar nas personalidades eclesiásticas; isto teve talvez um efeito contrário, provocando que a autoridade da Igreja interviesse para frear a propaganda de Galileu que, ao menos em suas críticas, era bastante convincente.

Além do decreto da Congregação do Índex, as autoridades eclesiásticas tomaram outra decisão que afetava pessoalmente a Galileu e que influiu decisivamente em seu processo, 17 anos mais tarde. Em concreto, por ordem do Papa (Paulo V), o cardeal Belarmino citou Galileu (que se encontrava então em Roma, dedicado à propaganda do copernicanismo) e, na residência do cardeal, em 26 de fevereiro de 1616, o admoestou a abandonar a teoria copernicana. O Papa tinha mandado Belarmino a que fizesse essa admoestação, acrescentando que, se Galileu não quisesse abandonar a teoria, o Comissário do Santo Ofício, diante do notário e testemunhas, o ordenasse para que não ensinasse, defendesse nem tratasse essa doutrina, e que se isto fosse negado, o prendesse. Consta que Belarmino fez a admoestação. Mas entre os documentos que foram conservados existe um que deu espaço a discussões sobre a força e o alcance desse preceito: disse que, em continuação à admoestação de Belarmino, o Padre Comissário do Santo Ofício (o dominicano Michelangelo Seghizzi) transmitiu o preceito mencionado; mas esse documento está sem assinar. Foram dadas interpretações de todo tipo; a mais extrema é que tratasse de um documento falsificado deliberadamente em 1616 ou em 1633 para acabar com Galileu; mas isto parece muito pouco provável. Com os documentos que possuímos, é muito difícil saber exatamente como se desenvolveu o encontro com Belarmino e Galileu, mas está claro que Galileu entendeu perfeitamente, que em diante, não poderia argumentar a favor do copernicanismo, e, com efeito, assim o fez durante anos. Precisamente o processo a que foi submetido 17 anos depois, em 1633, foi motivado porque, aparentemente, Galileu desobedeceu a esse preceito.

2.2. O processo de 1633

Se o decreto da Congregação do Índex em 1616 foi um equívoco, também o foi proibir Galileu de tratar ou defender o copernicanismo. Galileu o sabia. Entretanto, obedeceu. Sempre foi e quis ser um bom católico. Mas sabia que a proibição de 1616 era baseada em um equívoco e queria solucioná-lo. Inclusive advertia do perigo de escândalo que poderia ocasionar essa proibição no futuro, se chegasse a demonstrar com certeza que a Terra gira ao redor do Sol. Seus amigos concordavam com ele.

Em 1623 coincidiram umas circunstâncias que pareciam favorecer uma revisão das decisões de 1616, ou pelo menos tornar possível que se expusesse ainda que fosse com cuidado, os argumentos a favor do copernicanismo. O fator principal foi a eleição como Papa do cardeal Maffeo Barberini, que adotou o nome de Urbano VIII. Era, há muitos anos, um admirador de Galileu, a quem inclusive havia dedicado uma poesia latina em que louvava seus descobrimentos astronômicos. Além disso, desde o primeiro momento teve em postos muita confiança em vários amigos e partidários de Galileu. Em 1624 Galileu foi a Roma e o Papa o recebeu seis vezes, com grande cordialidade. Mas Galileu comprovou ao sondar sobre o assunto do copernicanismo, que se bem Urbano VIII não o considerava herético (já vimos que nunca foi declarado como tal), o considerava como uma posição doutrinalmente temerária e, além disso, estava convencido de que nunca poderia se demonstrar: dizia que os mesmos efeitos observáveis que se explicam com essa teoria, poderiam ser devidos à outras causas diferentes, pois caso contrário, estaríamos limitando a onipotência de Deus. Tratava-se de um argumento que, aparentemente, tinha muita força, e parecia que quem pretendesse demonstrar que o copernicanismo estava pondo limites à onipotência de Deus.

Apesar de tudo, o humor do novo Papa e a posição estratégica de seus amigos levou Galileu a embarcar em um velho projeto pendente: escrever uma grande obra discutindo o copernicanismo e, desde então, argumentando a seu favor. Simplesmente, a apresentaria como um diálogo entre um partidário do geocentrismo e outro do heliocentrismo, sem deixar resolvida a questão. E acrescentaria o argumento do Papa. Mas o leitor inteligente logo se daria conta de que ele tinha razão.

Além disso, Galileu pensava que dispunha de um argumento novo que demonstrava o movimento da Terra: o argumento das marés. Segundo Galileu, as marés só poderiam ser explicadas supondo o movimento da Terra (e não aceita, como se soasse a astrologia, que se devesse à influência da Lua). Inclusive queria intitular sua obra desse modo, como um tratado sobre as marés, mas o Papa soube que pretendia utilizar este título e, como soava demasiadamente realista (de fato o era), aconselhou colocar outro título que não parecesse uma prova do movimento da Terra (desde então, como sabemos, o argumento das marés estava errado). Galileu mudou o título do livro, que passou a chamar Diálogo em torno dos grandes sistemas do mundo, o ptolomaico e o copernicano. Um título muito acertado devido, em parte, à interferência de um Papa que não queria que se tratasse o movimento da Terra como algo real: mas sem dúvida, essa era a intenção principal de Galileu em sua obra. Galileu estava disposto a conceder tudo o que fosse necessário, com tal de publicar uma obra onde se recorressem os argumentos contra a posição tradicional e a favor do copernicanismo.

Galileu acabou de redigir o Diálogo em 1630, e o levou a Roma para obter a permissão eclesiástica para imprimi-lo. A permissão deveria ser concedida pelo Mestre do Sagrado Palácio, o dominicano Niccolò Riccardi, que não sabia astronomia mas era admirador de Galileu e sempre tinha se mostrado desejoso de ajudá-lo. Agora Riccardi se encontrou em um compromisso. Deu a entender que não haveria problemas, ainda que devesse ajustar uma série de detalhes. Galileu voltou a Florença, a peste causou sérias limitações ao tráfego e correio entre Florença e Roma, e aí começou uma cadeia de equívocos que alargaram a concessão da permissão e deixou Galileu irritado. Ao fim de um ano, Galileu solicitou e obteve a intervenção do Grande Duque de Toscana e de seu embaixador em Roma para obter a permissão. Riccardi, que também era toscano e era parente da esposa do embaixador, foi submetido a uma pressão muito forte. Finalmente concedeu a permissão para que se imprimisse o livro em Florença, mas com uma série de condições que se fazia saber Galileu e o Inquisidor de Florença. Riccardi sabia o que o Papa pensava: que só se poderia tratar o copernicanismo como uma hipótese matemática, não como uma representação da realidade; as condições e advertências que deu se encaminhavam a garantir, que não estava nada claro na obra de Galileu.

Galileu introduziu a mudança, mas, seguramente, nem todas as que tinha introduzido Riccardi e tivesse desejado o Papa. No livro, Simplício, o personagem que defende a posição tradicional de Aristóteles e Ptolomeu, sempre sai perdendo. Simplício foi um dos mais famosos comentadores antigos de Aristóteles, mas na obra de Galileu dava a impressão de que seus argumentos e sua atitude correspondiam muito bem a seu nome. Por outro lado, o argumento favorito do Papa aparecia no final da obra: depois de ter exposto todos os argumentos físicos e filosóficos, Simplício, precisamente Simplício, utilizava esse argumento, e ainda que Salviati, o defensor de Copérnico (e Galileu) o aprovasse, o final é muito breve e forçado. Para maior confusão, uma introdução aprovada por Riccardi, em que se explicava que essa obra não pretendia estabelecer o copernicanismo como teoria verdadeira, apareceu impressa em um tipo diferente do resto da obra, dando a impressão de uma adição postiça.

O diálogo terminou de ser impresso em Florença em 21 de fevereiro de 1632. Galileu enviou em seguida exemplares por todas as partes, também a seus amigos em outros países da Europa. Ainda havia problemas de comunicação com Roma por causa da peste, de modo que os primeiros exemplares não chagaram a Roma até a metade de maio. Um deles foi entregue ao cardeal Francesco Barberini, sobrinho e mão direita do Papa, a quem Galileu havia ajudado há alguns anos, a conseguir o doutorado, e quem considerava, igualmente ao Papa, como um grande amigo.

Em 1632, a maior preocupação do Papa era precisamente o movimento do Sol e da Terra. Estava em pleno desenrolar a Guerra dos Trinta Anos, que começou em 1618 e não terminou até 1648, que enfrentava toda a Europa em duas metades, os católicos e os protestantes. Naquele momento havia problemas muito complexos, porque a França católica se encontrava mais para o lado dos protestantes da Suécia e Alemanha, enfrentada com outras potências católicas, Espanha e o Império. Urbano VIII tinha sido cardeal legado em Paris e tendia a alinhar-se com os franceses, temendo, além disso, uma excessiva prepotência dos espanhóis, e tentando não perder a França. Tratava-se de equilíbrios muito difíceis. Os problemas eram graves. Em 8 de março de 1632, em uma reunião de cardeais com o Papa, o cardeal Gaspar Borgia, protetor da Espanha e embaixador do Rei Católico, acusou abertamente ao Papa de não defender como era preciso a causa Católica. Criou-se uma situação extraordinariamente violenta. Nessas condições, Urbano III via-se especialmente obrigado a evitar qualquer coisa que pudesse ser interpretada como não defender a fé católica de modo suficientemente claro.

Precisamente nestas circunstâncias, a metade de maio, começou a chegar a Roma os primeiros exemplares do Diálogo. Em um primeiro momento não aconteceu nada. Mas em dois meses, à metade de julho, se soube que o Papa estava muito enfadado com o livro, que tentava frear sua difusão, e que iria criar uma comissão para estudá-lo e julgá-lo.

A documentação que possuímos não permite saber o que provocou o enfado e a decisão do Papa. Galileu sempre atribuiu a isto a atuação de seus inimigos (que não eram poucos nem pouco influentes), que teriam informado ao Papa de modo tendencioso, predispondo-o contra. Por exemplo, além de denunciar que o livro defendia o copernicanismo, sendo contra o decreto de 1616, teriam colocado em relevo que um dos três personagens, Simplício, que sempre costumava perder, é quem expõe o argumento preferido do Papa sobre a onipotência de Deus e os limites de nossas explicações. Isto poderia parecer uma provocação deliberada, e parece que foi assim interpretado: vários anos depois, Galileu ainda enviava uma mensagem ao Papa, da sua vila de Arcetri, fazendo-se saber que jamais havia passado por sua mente tal coisa. Além disso, como foi assinalado, as circunstâncias pessoais de Urbano VIII naquele momento eram difíceis, e não podia tolerar que se publicasse um livro, com a permissão eclesiástica de Roma e de Florença, em que se defendia uma teoria condenada pela Congregação do Índex em 1616 como falsa e contrária a Sagrada Escritura.

O Papa estabeleceu uma comissão para examinar as acusações contra Galileu e julgou que o assunto devia ser enviado ao Santo Ofício (ou Inquisição romana), de onde foi ordenado a Galileu, que vivia em Florença, que se apresentasse em Roma ante esse tribunal durante o mês de outubro de 1632. Depois de tentativas de prorrogação que duraram vários meses, em 30 de dezembro de 1632, o Papa com a Inquisição deu a conhecer que, se Galileu não se apresentasse em Roma, enviaria alguém que se certificasse de sua saúde e se visse que poderia ir a Roma, o levaria preso. O Papa aconselhou seriamente ao Grande Duque que se abstivesse de intervir, porque o assunto era sério. As autoridades toscanas decidiram aconselhar a Galileu que fosse a Roma. O Embaixador Noccolini, que conhecia bem ao Papa e falava com ele com frequência, advertia que discutir com o Papa e contrariá-lo era o melhor caminho para arruinar a Galileu. Quando o Papa falava com Niccolini do problema causado por Galileu, em várias ocasiões encheu-se de cólera. Todos advertiram Galileu que era melhor ir a Roma e se mostrasse em todo o momento disposto a obedecer no que dissessem, porque se tomasse outra atitude as consequências seriam prejudiciais para ele.

Galileu chegou a Roma no domingo dia 13 de fevereiro de 1633, em um liteira facilitada pelo Grande Duque, depois de esperar na fronteira dos Estados Pontifícios por causa da peste que seguia em Florença. O embaixador de Toscana, Francesco Niccolini, se portou maravilhosamente com Galileu, intervindo continuamente em seu favor ante as autoridades de Roma, de acordo com as instruções do Grande Duque, Conseguiram que Galileu não estivesse no cárcere do Santo Ofício, como exigia a norma. Desde sua chegada à Roma até 12 de abril (dois meses), Galileu viveu no Palácio de Florença, onde se encontrava a embaixada de Toscana e a casa do embaixador. As autoridades o recomendaram que evitasse a vida social, de modo que não saía de casa, mas gozava de um tratamento excepcional por parte do embaixador e de sua esposa. Niccolini pedia ao Papa que o assunto fosse o mais breve possível, mas se alongava porque a Inquisição ainda estava deliberando sobre o modo de atuar. Como se descobriu nos arquivos do Santo Ofício o escrito de 1616 em que proibia Galileu de tratar de qualquer modo o copernicanismo, o processo se centrou completamente em uma única acusação: a desobediência desse preceito em 1616.

Galileu foi chamado a depor no Santo Ofício na terça-feira 12 de abril de 1633. Sua defesa pode nos parecer muito estranha: negou que, no Diálogo, defendesse o copernicanismo. Galileu sabia que o Santo Ofício pediu a opinião de três teólogos a respeito e que, em 17 de abril, os três informes concluíam sem lugar a dúvidas (como de fato assim o era) que Galileu, em seu livro, defendia o copernicanismo; neste caso, os teólogos tinham razão. Isto complicava a situação, pois um acusado que não reconhecia um erro comprovado devia ser tratado muito severamente pelo tribunal. Por outro lado, Galileu se defendeu mostrando uma carta que, a seu pedido, o cardeal Balarmino tinha escrito depois dos acontecimentos de 1616, para que pudesse se defender frente àqueles que o caluniavam; nesse escrito, Belarmino dava fé de que Galileu não teve que abjurar de nada e que simplesmente tinha sido notificada a proibição da Congregação do Índex. Mas isso podia ser interpretado também contra Galileu se fosse mostrado, como era o caso, que em seu livro argumentava a favor da doutrina condenada em 1616. O tribunal centrou-se em matizes da proibição feita a Galileu em 1616, que Galileu dizia não se lembrar, porque tinha conservado o documento de Balarmino e aí não se incluíam esses matizes. Desafortunadamente, Balarmino havia morrido e não podia esclarecer a situação.

Estes dias Galileu seguia no Santo Ofício, ainda que tampouco tivesse estado na prisão. Por deferência com o Grande Duque de Toscana e frente à insistência o embaixador, Galileu foi instalado nas habitações do fiscal da Inquisição, traziam-lhe comidas da embaixada de Toscana, e podia passear. Esteve ali desde a terça-feira 12 de abril até o sábado 30 de abril: 17 dias completos.

Para desbloquear a situação, o Padre Comissário propôs aos Cardeais do Santo Ofício algo insólito: visitar Galileu em suas estalagens e tentar convencê-lo a reconhecer seu erro. Conseguiu depois de uma longa conversa com Galileu em 27 de abril. No dia seguinte, sem comunicar a ninguém mais, escreveu o que tinha feito e o resultado ao cardeal sobrinho do Papa, que se encontrava nestes dias em Castelgandolfo com o Papa; através dessa carta se vê claramente que esta atuação estava aprovada pelo Papa: desse modo, o tribunal poderia salvar sua honra condenando a Galileu, e logo poderia usar clemência com Galileu deixando-o recluso em sua casa, tal como ( disse o Padre Comissário) sugeriu Vossa Excelência (o cardeal Francesco Barberini).

Com efeito, no sábado 30 de abril Galileu reconheceu perante o tribunal que, ao voltar a ler agora seu livro, que tinha acabado há muito tempo, se dava conta de que, devido não a má fé, mas a vanglória e ao desejo de se mostrar mais engenhoso que o resto dos mortais, tinha exposto os argumentos a favor do copernicanismo com uma força que ele mesmo não acreditava que tivesse. A partir daí, as coisas se desenrolaram como o Comissário tinha previsto. Esse mesmo dia foi permitido a Galileu voltar ao Palácio de Florença, à casa do embaixador. Na terça-feira 10 de maio foi chamado ao Santo Ofício para que apresentasse sua defesa; apresentou o original da carta do cardeal Belarmino, e reiterou que tinha atuado com reta intenção. Continuava fechado no palazzo Firenze; o embaixador conseguiu que lhe permitisse a passear na Vila Médici, e inclusive em Castelgangolfo, porque lhe causava mal não fazer nenhum tipo de exercício. Entretanto, a peste continuava açoitando Florença, em alguma carta o diziam que, no meio de sua desgraça, era uma sorte que não estivesse então em Florença.

Na quinta-feira 16 de junho, a Congregação do Santo Ofício tinha, a cada semana, sua reunião com o Papa. Nesta ocasião celebrou-se no palácio do Quirinal. Estavam presentes 6 dos 10 Cardeais da Inquisição, além do Comissário e do Assessor (nos interrogatórios e, em geral, em todas as sessões que foram mencionadas até agora, não estavam presentes os Cardeais: estavam os oficiais do Santo Ofício que transmitiam as atas à Congregação dos Cardeais, e estes, com o Papa, tomavam as decisões). Esse dia o Papa decidiu que Galileu fosse examinado sobre sua intenção com ameaça de tortura (neste caso tratava-se de uma ameaça puramente formal, já que se sabia de antemão que não se realizaria). Depois, Galileu devia abjurar da suspeita de heresia perante a Congregação em pleno. Seria condenado à prisão ao arbítrio da Congregação, seria proibido que no futuro tratasse de qualquer modo o tema do movimento da Terra, seria proibido o Diálogo. Também seria enviada uma cópia da sentença aos núncios inquisidores, sobretudo ao de Florença, para que a lesse publicamente em uma reunião na qual procuraria que se encontrassem os professores de matemática e filosofia. O Papa comunicou esta decisão ao embaixador Niccolini em 19 de junho. Niccolini pediu clemência, e o Papa, manifestando algo que, como se apontou, estava já decidido de antemão, lhe respondeu que, depois da sentença, voltaria a ver o embaixador para ver como se poderia arrumar para que Galileu não estivesse na prisão. De acordo com o Papa, Niccolini comunicou a Galileu que a causa seria terminada em seguida e o livro proibido sem dizer-lhe nada sobre o que tocava a sua pessoa, para não causar-lhe mais aflição.

Desde a terça-feira 21 de junho até sexta-feira 24 de junho, Galileu esteve de novo no Santo Ofício. Na quarta-feira dia 22, Galileu foi levado ao convento de Santa Maria sopra Minerva; foi lida a sentença (assinada por 7 dos 10 Cardeais do Santo Ofício) e abjurou de sua opinião sobre o movimento da Terra diante da Congregação. Foi, para Galileu, o mais desagradável de todo o processo, porque afetava diretamente a sua pessoa e se desenvolveu um público de modo humilhante. Na quinta-feira o Papa, com a Congregação do Santo Ofício reunida no Quirinal, concedeu a Galileu a prisão fosse comutada por arresto na Vila Médici, aonde se trasladou na sexta-feira dia 24. Na quinta-feira dia 30 foi permitido a Galileu abandonar Roma e trasladar-se a Siena, na Toscana, ao palácio do arcebispo. Galileu deixou Roma na quarta-feira 6 de julho e chegou a Siena no sábado 9 de julho. Tinha acabado o pesadelo romano.

A sentença da Inquisição começa com os nomes dos 10 cardeais da Inquisição, e acaba com as assinaturas de 7 deles. O Papa, junto com a Congregação, decidiu que Galileu fosse condenado e que abjurasse de sua opinião, mas no texto da sentença não aparece em nenhum momento citado o Papa; portanto, esse documento não pode ser considerado como um ato de magistério pontifício, e menos ainda como um ato de magistério infalível nem definitivo. No texto da abjuração se lê – maldigo e detesto os mencionados erros e heresias – ; mas não se trata de uma doutrina definida como heresia pelo magistério da Igreja: no texto da abjuração se diz, como assim é, que essa doutrina foi declarada contrária à Sagrada Escritura, e, como sabemos, esta declaração se fez mediante um decreto da Congregação do Índex, que não constituiu um ato de magistério infalível nem definitivo.

O Arcebispo de Siena, Ascanio Piccolomini, era um antigo discípulo, admirador e grande amigo de Galileu. Tinha se oferecido várias vezes para se alojar em sua casa, tendo em conta, além disso, que estava relativamente perto de Florença e que em Florença ainda existiam vestígios da peste. Em Siena, Galileu foi tratado esplendidamente e se recuperou da tensão dos meses precedentes. A pedido do Grande Duque de Toscana, o Papa, junto com o Santo Ofício, concedeu em 1 de dezembro de 1633 que Galileu pudesse voltar a sua casa nas imediações de Florença, na Vila do Gioiello, contanto que permanecesse como em prisão domiciliar, sem sair daí nem ter uma vida social. Consta que em 17 de dezembro Galileu já estava em sua casa, e ali continuou até sua morte em 1642.

Em Arcetri Galileu continuou trabalhando. Ali acabou seus Discursos e demonstrações em torno de novas ciências, obra que publicou em 1638 na Holanda. Trata-se de sua obra mais importante, onde expõe os fundamentos da nova ciência da mecânica, que se desenvolverá neste século até alcançar 50 anos mais tarde, com os Princípios matemáticos da filosofia natural de Newton, obra publicada em 1687, a formulação que marca o nascimento definitivo da ciência experimental moderna.

3. PERGUNTAS E INTERPRETAÇÕES

Até aqui tentei expor os dados básicos do processo de Galileu. A partir deste momento me ocuparei da valorização desses dados. Dada a perspectiva que adotei, somente aludirei brevemente a alguns aspectos que considero especialmente interessantes.

Em primeiro lugar, podemos dizer que sabemos o fundamental sobre processo de Galileu? É possível que existam dados importantes desconhecidos? A resposta é que os documentos que se conservam permitem reconstruir quase todos os aspectos do processo com grande segurança. Possuímos os interrogatórios e declarações de Galileu em sua totalidade, assim como as decisões do Papa e da Congregação do Santo Ofício. Neste terreno, não é plausível que apareçam novos documentos que afetem substancialmente o que já sabemos. Seguramente existem buracos, um deles, bastante importante, se refere aos acontecimentos do verão de 1632, desde que o Diálogo chegou a Roma até que o Papa convocasse a congregação de teólogos para decidir o que fazer. Quem e como informou ao Papa? Galileu sempre considerou seu processo como consequência das informações tendenciosas de seus inimigos. É possível que existam documentos sobre esses acontecimentos, cujo conhecimento permitiria compreender melhor porque se desenrolaram do modo que o fizeram. Poderíamos saber, talvez, até que ponto as coisas poderiam ter acontecido de outra maneira. De todos os modos, isso não mudaria os fatos já conhecidos, entre os quais se conta que Galileu levou adiante, durante anos, seu programa copernicano, ainda que exteriormente parecesse ter renunciado a ele, e que Urbano VIII ficou muito afetado quando notou que seu admirado amigo estava, na realidade, fazendo um jogo diferente do que ele pensava.

Isto não significa que Galileu mentisse deliberadamente. Mas não há dúvida de que considerou o copernicanismo como uma teoria verdadeira, também depois do processo. Em sua carta a Cristina de Lorena explicou amplamente como se poderia solucionar a aparente contradição entre o copernicanismo e a Bíblia; tinha razão e o sabia: por este motivo podia admitir, com consciência tranquila, o copernicanismo, inclusive depois das condenações de 1616 e 1633. O mesmo acontecia com seus amigos e com outras pessoas suficientemente informadas. O que nos leva a perguntar por que as autoridades eclesiásticas condenaram uma teoria que, se bem não estava completamente demonstrada naquele momento, podia demonstrar-se e, de fato, recebeu novas confirmações nos anos seguintes.

Para responder a essa pergunta devemos considerar que a ciência experimental moderna, tal como a conhecemos agora, estava nascendo e se encontrava ainda em um estado embrionário. Precisamente foi Galileu um de seus pais fundadores. Mas o Galileu que viam as autoridades era muito diferente do que vemos agora, à luz do desenvolvimento da física durante quase quatro séculos. Galileu havia realizado descobrimentos astronômicos importantes e tinha sido reconhecido. Mas não podia provar o movimento da Terra. A ciência moderna praticamente não existia: as contribuições mais importantes de Galileu a essa ciência foram publicadas, nos Discursos, depois do processo. Os eclesiásticos (Belarmino, Urbano VIII e muitos outros), assim como a maioria dos professores universitários, pensavam que o movimento da Terra era um absurdo, porque contradiz muitas experiências certas e, se existisse, deveria ter consequências que de fato não se observavam. Não era fácil levar a sério o copernicanismo. Os teólogos que valorizaram em 1616 o repouso do Sol e o movimento da Terra disseram, em primeiro lugar, que ambos eram absurdos de filosofia e, além disso, pareciam contrários à Bíblia. Belarmino, e outros eclesiásticos, notaram que caso se chegasse a demonstrar o movimento da Terra, uma série de passagens bíblicas deveriam ser interpretadas de modo não literal; sabiam que isso poderia ser feito, mas pensavam que o movimento da Terra nunca seria demonstrado e que era absurdo. Isto não justifica toda sua atuação, mas permite situá-la em seu contexto histórico real e torná-la compreensível.

O processo de Galileu não deve ser entendido como um enfrentamento entre ciência e religião. Galileu sempre se considerou católico e tentou mostrar que o copernicanismo não se opunha à doutrina católica. Por sua vez, os eclesiásticos não se opunham ao progresso da ciência; durante sua viagem a Roma em 1611, foi tributada a Galileu uma grande homenagem pública em um ato celebrado no Colégio Romano dos jesuítas, por suas descobertas astronômicas. O problema é que não consideravam que o movimento da Terra fosse uma verdade científica, e inclusive alguns (entre eles, o Papa Urbano VIII) estavam convencidos de que nunca poderia ser demonstrado.

Os inimigos de Galileu desempenharam, provavelmente, um papel importante para desencadear o processo. O temperamento muito vivo de Galileu não contribuía para apaziguar as numerosas disputas que originou seu trabalho desde 1610. Além disso, ele mesmo procurou inimizades de modo desnecessário, de tal modo que, quando o Diálogo foi publicado em 1632, é fácil imaginar que seus inimigos em Roma puderam apresentar ao Papa as coisas de tal maneira que, tendo em conta as difíceis circunstâncias pelas que atravessava Urbano VIII, este se considerou ofendido por Galileu e viu ser necessário intervir com força. O temperamento de Urbano VIII também desempenhou um papel: tinha um caráter forte e pensou que Galileu tinha traído sua amizade sincera; repetiu várias vezes ao embaixador Niccolini que Galileu havia caçoado dele. Consta que, ao falar deste tema com Niccolini, Urbano VIII se encolerizava. Galileu certamente não pretendeu, de modo algum, caçoar do Papa, mas é provável que os inimigos de Galileu, no verão de 1632, convenceram ao Papa do contrário, e que isto influíra seriamente no desenvolvimento dos acontecimentos.

Não se deve pensar somente em inimigos pessoais de Galileu. O movimento da Terra podia facilmente ser visto como causa de dificuldades importantes para o cristianismo. Se a Terra se transformasse em um planeta a mais, e se existissem muitas mais estrelas das que se veem a olho nu, não poderia isto ser interpretado na linha de Giordano Bruno, que afirmou que existem muitos mundos como o nosso, com suas estrelas e planetas habitados? Nesse caso, que significado teria a Encarnação e a Redenção de Jesus Cristo? O que aconteceria com a salvação de possíveis seres inteligentes que poderiam viver em outros lugares do universo? São perguntas que, na atualidade, se propõem ainda com mais força do que então, frente à possibilidade, remota mas real, de se chegar a saber que existe vida em outros lugares do universo. Em realidade, não é difícil perceber que a revelação cristã se refere diretamente ao que acontece conosco e, portanto, não há dificuldade em princípio para integrar dentro dela outros seres inteligentes. Além disso, a Igreja ensina que os frutos da Redenção se aplicam também a pessoas que viveram antes da Encarnação, ou que vivem depois dela e não conhecem, sem culpa sua, a verdade do cristianismo. Mas se compreende que estes problemas puderam influir naquele momento. A associação do copernicanismo com Bruno não podia favorecer a Galileu. Pode-se recordar que duas pessoas chaves na condenação do copernicanismo em 1616 foram o Papa Paulo V e o cardeal Belarmino; ambos eram Cardeais da Inquisição quando, em 1600, o processo de Bruno chegou a seu fim, e pode se supor que, ao pensar em copernicanismo, o veriam, por assim dizer, associados aos erros teológicos de Bruno.

O movimento da Terra parecia afetar ao cristianismo desde outro ponto de vista. O Diálogo de Galileu continha críticas muito fortes contra a filosofia de Aristóteles, que se vinha usando, ao menos desde o século XIII, como auxílio para a teologia. Nesta filosofia se admitia, por exemplo, que no mundo existe finalidade, e que as qualidades sensíveis existem objetivamente e são base do conhecimento humano. Estas ideias pareciam se arruinar com a nova filosofia matemática e mecanicista de Galileu. A nova ciência nascia em polêmica com a filosofia natural antiga, e não parecia poder preencher o buraco que esta deixava. Ainda que as críticas de Galileu ao aristotelismo se reduzissem a aspectos concretos da física que, certamente, deviam ser abandonados, parecia que a nova ciência pretendia jogar fora, como se costuma dizer, a criança junto com a banheira. Este problema segue sendo atual. Inclusive pode-se dizer que o progresso científico dos últimos séculos o tornou cada vez mais agudo. São muitas as vozes que pedem um sério esforço para integrar o progresso científico dentro de uma visão mais ampla que inclua as dimensões metafísicas e éticas da vida humana. Neste sentido, os que viam na nova ciência uma fonte de dificuldades não estavam completamente errados. Obviamente, o problema não é a ciência em si mesma, cuja legitimidade seria absurdo duvidar. O progresso científico é ambivalente e o fato de que possa ser mal utilizado mal não significa que deva castigar a ciência simplesmente ressaltando que, no fundo do caso Galileu, encontram-se alguns problemas que são reais, continuam sendo atuais, e ainda esperam uma solução. Qual o alcance do conhecimento científico é um desses problemas.

Consta que houve uma tentativa de denunciar Galileu perante a Santa Sé por sua filosofia atomista, exposta brevemente em sua obra, de 1623, Il Saggiatore, argumentando que Galileu negava a objetividade das qualidades sensíveis (cores, odores, sabores) e que isto contradiz a doutrina do Concílio Trento sobre a Eucaristia, segundo a qual, depois da consagração, encontram-se as espécies sacramentais (acidentes do pão, como por exemplo as qualidades sensíveis) sem seu sujeito natural. Chegou-se a dizer que o motivo mais profundo da acusação contra Galileu em 1632 era este, e que o Papa conseguiu que o processo se centrasse em torno ao movimento da Terra, porque em outro caso as consequências teriam sido muito piores. A denúncia mencionada existiu, mas parece exagerada demais centrar aí os problemas de Galileu. Esta questão põe de manifesto, entretanto, que a nova física vinha acompanhada por uma filosofia mecanicista que, em parte, chocava com a filosofia e a teologia geralmente admitidas, e é certo que este problema continuou vivo durante muito tempo e inclusive continua vivo, em parte, na atualidade.

O caso de Galileu não afetou seriamente o progresso da ciência. A semente que Galileu plantou deu fruto imediatamente, também na Itália. Ao cabo de poucas décadas, Newton levou a física moderna até seu nascimento definitivo, e o trabalho de Galileu ficou bem assentado.

Por fim, é interessante assinalar que não existiu nenhum outro caso semelhante ao de Galileu. O caso de Galileu não é um caso entro outros do mesmo tipo. O caso mais semelhante é o do evolucionismo, mas a teoria da evolução, dentro de seu âmbito científico, nunca foi condenada por nenhum organismo da Igreja. Quando se tenta colocar no mesmo nível que o caso de Galileu assuntos como o aborto, a eutanásia, a bioética, etc., deve-se ressaltar que, se bem esses problemas incluem componentes relacionados com a ciência, não são problemas propriamente científicos, mas, no máximo, de aplicação dos conhecimentos científicos. Mas isto exigiria uma reflexão específica que vai além dos objetivos a que me propus.

REFERÊNCIAS : Os dados deste artigo estão retirados, em sua maioria, da Edição Nacional das obras de Galileu, preparada por Antonio Favaro: Le Opere di Galileo Galilei, 20 volumes, reimpressão, G. Barbèra Editore, Firenze 1968. Os documentos do processo se encontram no tomo XIX, pp. 272-421, e também foram editados por Sérgio Pagano: I documenti del processo di Galileo Galilei, Pontifícia Academia Scientiarum, Cidade do Vaticano 1984.

Mariano Artigas

Fonte: http://www.acidigital.com/controversia/galileu.htm
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por MSPP em Ter Out 16, 2012 2:29 pm

Eu não sabia que havia pessoas que pensassem que Galileu tinha sido condenado à morte pela Igreja Católica, e muito menos morto numa fogueira.
Na verdade TODOS nós estamos condenados à morte depois da escolha de Adão, no Éden.
Mas, pergunto, porque é que há pessoas que pensam isso?!
Porquê toda essa confusão, na mente de pessoas que desconhecem isso por completo?!

Será que a Igreja Católica nunca condenou ninguém à morte?!

E o castigo dado pela igreja católica a Galileu cabe na doutrina do Cristo?!

É bom pensarmos nestas coisas do passado, para que no presente não se façam coisas muito semelhantes!
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Flor de Liz em Seg Nov 26, 2012 10:15 pm

Na verdade, quem condenava não era a igreja, mas, sim o estado e os nobres em questão, a igreja criou um meio de salvar as pessoas das mãos do estado são chamados de inquisição ( ato de inquirir ou interrogar alguém), e no caso de Galileu ele não foi acusado por dizer que a terra era redonda, mas, por meter-se na filosofia e teologia igual a eu nesse exato momento e perdão padre Anderson por entrar em um debate sem ser chamada e sua benção e continuando a inquisição é a amostra da justiça que temos hoje, tanto é, antes da inquisição os reis da época em vez de interrogar ou investigar e ou ouvir o réu e a sua defesa, o rei já o condenava á morte na hora, não só o rei fazia isso como todos os nobres faziam isso inclusive eles faziam isso com os seus próprios inimigos ou seja condenava á morte a eles sem um julgamento justo e a inquisição surgiu para acabar com as heresias mas como havia muita como se diz condenações de pessoas justas e inocentes sem interrogatório, a igreja começou a forçar o estado de tal maneira para que haja esse tipo de interrogatório, só sabemos foram poucos a morrer na inquisição católica, mas, sabemos a única inquisição mais séria foi ocorrida na Espanha não por que a Igreja queria muito pelo contrário quem deixou a inquisição violenta nem foi a igreja, mas, foi a própria autoridade espanhola que usou desse recurso para massacrar a população e aos inimigos da coroa e quanto ao caso do Galileu tem vários documentos inclusive da igreja que prova a sentença de Galileu á prisão domiciliar se não me engano. E para compreender melhor esse assunto tem que ler o livro a inquisição em seu mundo, este livro é o melhor livro sobre a inquisição que temos e retrata bem essa época em questão.
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Flávio Roberto Brainer de em Seg Nov 26, 2012 10:30 pm

Cara Flor de Liz,

Seja muito bem-vinda ao nosso fórum, e que a paz de Nosso Senhor esteja sempre no seu coração !

O seu comentário é muito pertinente e esclarecedor.

Mesmo não sendo o Pe. Anderson, quero dizer que você é um presente de Deus para nós, e que foi o próprio Deus que lhe moveu a entrar no nosso fórum. Nada acontece sem a sua permissão, não é verdade ? O nosso fórum, exatamente por se livre, está aberto a todos que o encontram, inclusive os que professam uma fé diferente da fé católica. Mais uma vez seja bem-vinda e sinta-se em casa !!!

Fugindo um pouco da discussão, fiquei curioso com o nome que a identifica: "FLOR DE LIZ" é algo muito sugestivo que deixa transparecer beleza, perfume e doçura.

Um grande abraço !!!
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Flor de Liz em Ter Nov 27, 2012 9:32 am

Caro Flávio Roberto Brainer de,

Muito obrigada pela acolhida e agradeço as palavras e a propósito estou neste fórum para praticar a minha argumentação, para a minha argumentação melhorar, pois sou leiga e pelo pouco aprendi vasculhando em sites e espero aprender um pouco mais com vocês.

Outro para você também!!!
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por MSPP em Ter Nov 27, 2012 12:43 pm

Flor de Liz escreveu:Na verdade, quem condenava não era a igreja, mas, sim o estado e os nobres em questão,
Errado! A IGREJA condenava sim, mas quem aplicava o castigo era o braço secular a quem "Flor de Liz" chama de « o estado e os nobres em questão». O mesmo aconteceu com Yeshua (Jesus) quem o condenou foi o Sinédrio (onde havia muitos sacerdotes e o Sumo sacerdote), mas quem aplicou o castigo foi Pilatos, apesar de o ter feito contrariado.
A religião e o Estado têm andado de mãos juntas. Uma é a panela e o outro o testo. Compreende?!


Flor de Liz escreveu:a igreja criou um meio de salvar as pessoas das mãos do estado são chamados de inquisição ( ato de inquirir ou interrogar alguém),
Ora a inquisição não serviu para «salvar» ninguém mas para condenar e até aplicou instrumentos de tortura. Este procedimento não é cristão!
Flor de Liz escreveu:
e no caso de Galileu ele não foi acusado por dizer que a terra era redonda,
No caso de Galileu não foi a terra ser redonda ou quadrada, mas se era a terra que girava à volta do sol, no movimento REAL de translação da terra, que agora ninguém pode contestar, ou se era o sol que girava, com o seu movimento APARENTE, à volta da terra, como ainda hoje se diz na linguagem popular. A Biblia usa a linguagem popular que ainda é a mesma que hoje utilizamos, mas Galileu usou uma linguagem cientifica, que mais tarde foi confirmada.
Flor de Liz escreveu:mas, por meter-se na filosofia e teologia igual a eu nesse exato momento
Qualquer pessoa pode e deve meter-se tanto na filosofia e na teologia «sem ser chamada». Isso é um direito que TODOS temos de livre expressão e de mostrar os nossos conhecimentos, por mais errados que estejam. Mesmo que sejamos completamente ignorantes, YHWH deu-nos a capacidade de raciocinar. Por ex. eu sem nunca ter estudado programação nem informática, fiz um programa em linguagem máquina num micro computador «Spectrum» cerca do ano 1989 e ganhei o 1º prémio num concurso promovido pelo Jornal de Notícias do Porto (Portugal). Concorreram muitos estudantes universitários que tinham as disciplinas de informática e programação e ficaram mais mal classificados que eu. YHWH distribui dons a quem quer, mesmo que não sejamos dignos disso.

Flor de Liz escreveu:e perdão padre Anderson por entrar em um debate sem ser chamada
Não precisa pedir perdão a ninguém por entrar num debate dum forum público. Os «foruns» foram abertos precisamente para isso.

Flor de Liz escreveu:e continuando a inquisição é a amostra da justiça que temos hoje,
A justiça dos homens nunca foi justa quer tenha ou não havido inquisição. Sempre foi assim a natureza malvada e vingativa dos homens. O que merece reparo é chamar a isso de cristianismo quando fere frontalmente os princípios pregados por Yeshua Messiah (Jesus cristo).

Flor de Liz escreveu:tanto é, antes da inquisição os reis da época em vez de interrogar ou investigar e ou ouvir o réu e a sua defesa, o rei já o condenava á morte na hora, não só o rei fazia isso como todos os nobres faziam isso inclusive eles faziam isso com os seus próprios inimigos ou seja condenava á morte a eles sem um julgamento justo
Lembre-se que esses reis que procediam assim de forma maléfica e injusta tanto foi antes do cristianismo, como os reis que se diziam cristãos e católicos, assim como os nobres. Lembre-se que acima da classe dos «nobres» havia a classe do «clero» que era mais influente.

Flor de Liz escreveu: e a inquisição surgiu para acabar com as heresias
Ora isso foi um grave ERRO da Igreja Católica que a levou a proceder assim de uma forma completamente anti-Cristã, pois cada um tem o direito de pensar o que quiser e de acreditar em que quiser e até mesmo de pecar e até YHWH DEUS respeita esse direito do HOMEM. Contudo o homem, ao contrário dos «anjos» também tem o dom, vindo de YWHW, de se ARREPENDER quando a sua consciência lhe diz que fez ERRADO.
Flor de Liz escreveu:mas como havia muita como se diz condenações de pessoas justas e inocentes sem interrogatório, a igreja começou a forçar o estado de tal maneira para que haja esse tipo de interrogatório,
Isto não se chama INQUISIÇÃO, mas procedimento de averiguação para julgamento. Ainda hoje se faz isso nos tribunais e mesmo assim nem sempre o culpado é condenado e nem sempre o justo é absolvido.
Flor de Liz escreveu: só sabemos foram poucos a morrer na inquisição católica,
Há quem diga que foram muitos milhares, a morrer, e muitos mais ainda os que sofreram por causa dessa horrível prática. Mesmo católicos fervorosos dizem que foram .... talvez «menos de mil». Ora mesmo se só fosse um e esse um fosse Yeshua Messiah (Jesus Cristo) já podíamos considerar isso um horror, como eu considero. O método usado pelo Sinédrio foi muito mais leve que o da Inquisição.

Flor de Liz escreveu:mas, sabemos a única inquisição mais séria foi ocorrida na Espanha
Parece que se esqueceu de dizer que os reis espanhóis que aplicaram essa inquisição eram e ainda hoje são chamados de «REIS CATÓLICOS» ....

Flor de Liz escreveu:não por que a Igreja queria muito pelo contrário quem deixou a inquisição violenta nem foi a igreja, mas, foi a própria autoridade espanhola que usou desse recurso para massacrar a população e aos inimigos da coroa
.... sim foram os tão apelidados «reis católicos». E porque é que ultrapassaram em muito a vontade dos papas?! O papa tinha então poder sobre os reis. Mudava reis e distituia reis etc ....
Flor de Liz escreveu: e quanto ao caso do Galileu tem vários documentos inclusive da igreja que prova a sentença de Galileu á prisão domiciliar se não me engano.
E então essa sentença, que não foi de morte, não viola frontalmente os princípios da ética cristã?! Quer considerar-se cúmplice disso?! Estavamos numa época que se dizia de cristianismo oficial! Mas será que isso pode alguma vez ser chamado cristianismo? Peço desculpas! Para mim isso não é cristianismo. mas selvajaria!
Flor de Liz escreveu: E para compreender melhor esse assunto tem que ler o livro a inquisição em seu mundo, este livro é o melhor livro sobre a inquisição que temos e retrata bem essa época em questão.
Em seu mundo?! Mas a que mundo se refere?! um mundo cristão ou um mundo de selvagens?! Na verdade este MUNDO inteiro ainda está debaixo do poder do Maligno que é o deus deste mundo.

para os incrédulos, cuja inteligência o deus deste mundo cegou, a fim de não verem brilhar a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é imagem de Deus.
(2ª Corintios 4:4)


E bem sabemos que somos de Deus, ao passo que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno.
(1 João 5:19)
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Flor de Liz em Ter Nov 27, 2012 2:01 pm

A inquisição não foi feita pela igreja, a inquisição foi feita por fanáticos religiosos, quando se fala a igreja praticou a inquisição, você coloca a igreja toda incluindo os santos e santas e o povo no meio pois a igreja é feita por todos e não por um ou meia duzia, e sim por várias pessoas, mas, por medidas de controle. Tinha um grande julgamento sim ! Mas antes disso existia um dialogo . Um tempo de conversa, entre outros meios que a Igreja usava. O povo da época tinha essa visão de morta das coisas que eram contra os princípios e a moral da época. Então o próprio povo se encarregava de matar ou queimar enfim, mas, quando não era o povo era o nobre que mandava matar. A Igreja nunca deu ordem de morte ou ordem de fogo na Inquisição. A Igreja tinha um trabalho muito grande com essas pessoas, pessoas enviadas para ajudar, tempo de espera. A maioria se convertia.
A Igreja se manifestou em defesa da vida, para controlar o erro dos seus filhos. Quando se fala o Papa pediu perdão, ele não pediu perdão pela igreja mas, pelos erros cometidos por seus filhos que desrespeitaram ordens diretas da Santa Igreja e acabavam manchando a igreja e a sua imagem mais ainda. A Igreja é o próprio Cristo, portanto, não pode errar. Quem erra são os filhos da Igreja, ou seja, nós. Vamos fazer um paralelo. A justiça, através de seus juízes, pode cometer excessos, mas nem por isso a justiça é ruim. Ruim foi o sujeito que fez mau uso da justiça praticando assim uma injustiça. Da mesma forma, a Igreja não erra nunca, quem erra somos nós. A Inquisição, ao contrário do que lhe foi ensinado, não foi um erro. Leia o livro "A Inquisição em seu mundo" de João Bernardino Gonzaga ( já citei esse livro acima no meu comentário e torno a repeti-lo) e você entenderá que no contexto onde a Inquisição aconteceu, ela foi um acerto. Ela criou a pena de penitência (daí o nome de penitenciária), reduziu em 24 vezes o número de penas de morte aplicadas, criou celas humanizadas contendo alimentação, higiene, segurança para os detidos, iluminação e, dependendo do caso, até sala de estudos. Graças à Inquisição as terríveis e supersticiosas ordálias do Direito Germânico desapareceram, dando lugar ao julgamento transparente e provido de Direito de Defesa do Direito Romano. Não acredite em tudo o que falam. Se tratando de Inquisição há muito exagero e mentira. A inquisição foi nada mais nada menos praticada não contra as outras pessoas de outros credos na época a inquisição católica foi praticada contra os próprios católicos e as heresias que eles acabavam praticando diferente da inquisição dos nossos irmãos em separado protestantes em que além deles praticarem contra eles mesmos eles praticavam contra outros de outros credos tanto é que temos um testemunho da mesma época em questão: Janssen, um escritor desse período, cita uma testemunha que afirma: "O teólogo protestante Meyfart descreve a tortura que ele mesmo presenciou: 'Um espanhol e um italiano foram os que sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura. Porém, na Alemanha (protestante) a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias (...); outras vezes, até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada (...) Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer".

A Inquisição podemos dividi-la em duas a católica a que esta se debatendo aqui e a não muito falada a inquisição protestante a que sera debatida em um outro tópico.
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por Flor de Liz em Ter Nov 27, 2012 4:31 pm

E já estava me esquecendo, Copérnico e Kepler deram a ideia do heliocentrismo, mas essa "polêmica" com a Igreja foi dada pela defesa de Galileu Galilei a favor da teoria do sol ser o centro do universo. Galileu dizia que esta teoria não ia contra as passagens da escritura assumindo a posição de Santo Agostinho, dizendo que não devemos levar tudo que a bíblia diz ao pé da letra. Ele já tinha algum crédito com o clero, quando postulou o movimento do pêndulo encontrando falhas na física aristotélica, e nunca o heliocentrismo foi considerado uma heresia. Tanto é que a Igreja não podia tomar uma posição física e cientifica como uma questão de fé, o heliocentrismo não ia contra a doutrina da Igreja Católica. Vários estudantes teólogos e clérigos rejeitaram esta teoria, dizendo que contradizia a ideia da bíblia de a Terra ser o centro do Universo, mas nada tinha sido provado e a Igreja nem se expressou sobre tal assunto.
As proposições de Galileu chegaram a ser apresentadas pela Inquisição, e os teólogos perceberam falta de provas para tal afirmação ser verdadeira. E tomaram isso como uma proposição tola e herética, isso levou a Igreja a perguntar para Galileu sua verdadeira posição.... No final, Galileu nem foi condenado. A Igreja só pediu para que ele diminuísse o nível de suas afirmações para não correr o risco de entrar em conflito com a doutrina Católica.
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Re: Mas quem foi Galileu?

Mensagem por MSPP em Qui Nov 29, 2012 2:04 pm

Então você aprova e é cúmplice da prisão de Galileu?! apesar de tudo! Não a compreendo!
Quanto a Igreja eu distingo a Igreja de Cristo que é pura, imaculada de qualquer outra igreja como por exemplo a Igreja Católica apostólica ROMANA, que é uma instituição do mundo apoiada pelos Imperadores ROMANOS e ao seu serviço.
Nem Cristo nem a SUA IGREJA erram, mas as igrejas dos homens cometem muitos erros o que é compreensível. O facto de haver tantos pecados nos membros da alta hierarquia da igreja católica e continuarem nos seus cargos isso prova que essa igreja não é a de Cristo, que é pura e santa e imaculada:

Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela,
para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra,
para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.
(Efésioa 5:25-27)
Então acha bem que os servos de Cristo matem os outros e ainda para mais seus correligionários (irmãos) só pelo facto de pensarem de modo diferente?! Era assim nesse tempo, pode dizer: mas isso não é cristianismo!

Quanto aos santos, eu não confio em cânones humanos. YHWH DEUS escolhe os que quer. Esses e só esses são os ELEITOS do Altíssimo.
Os que a hierarquia canoniza são uma espécie de cobaias que só servem para exploração comercial religiosa. São vitimas da sua igreja. As coisas neste mundo são mesmo assim, paga justo por pecador:
Ora veja
esta passagem neste link em Josué 7, na tradução dos Capuchinhas (não sei se conhece)
Apenas por um homem ter prevaricado, todo o exército sofreu a derrota dos Israelitas em «Ai» e foram mortos, pelo inimigo, os que não tinham feito nada de mal, pois YHWH retirou a sua proteção deles.
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