Deus e o mal.

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Deus e o mal.

Mensagem por Pe. Anderson em Dom Jan 24, 2010 8:24 am

Caros amigos,

Sei que esse tema já foi tratado em outro tópicos, mas esse texto de Dom Estevao Bettencourt merece ser postado no nosso fórum. Dom Estevao foi um dos maiores teólogos brasileiros e suas respostas sao sempre esclarecedoras. Colocamos aqui esse texto, visto que é um tema que sempre interessa e sempre pode ser aprofundizado. Espero que ajude.

Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 297 – Ano 1987 – Pág. 61.

Em síntese: O sofrimento parece a alguns ser um argumento contra o poder ou a bondade de Deus. A mensagem cristã responde que Deus não é – nem pode ser – o autor de algum mal; mas Ele permite que as criaturas, limitadas como são, cometam males físicos e morais; Ele não quer “policiar” o mundo artificialmente, mas se encarrega de tirar dos males produzidos pelas criaturas bens ainda maiores. Isto em vários casos é evidente, pois se verifica que, para muitas pessoas, o sofrimento é uma escola que converte e transfigura. Em outros casos, os frutos positivos do sofrimento não são tão perceptíveis; não obstante, o cristão tem certeza de que a Providência Divina não falha e um dia ele compreenderá plenamente o plano de Deus, do qual atualmente ele só percebe segmentos e facetas.

Mais: a figura do Filho de Deus, que, feito homem, assumiu a dor e a morte a fim de fazê-las passagem para a ressurreição e a glória, é o testemunho mais eloqüente de que o sofrimento não é mera sentença da justiça ou castigo, mas está intimamente associado ao amor que Deus tem para conosco. Aceito em união com Cristo, o sofrimento vem a ser fonte de salvação para o paciente e de expiação dos pecados do mundo.

Um dos temas que mais vêm à tona nos círculos filosóficos e religiosos de nossos dias, é o do sofrimento. Quanto mais se alastra e intensifica a dor dos homens provocada pela fome, o terrorismo, as guerras…, tanto mais indagam a respeito do sentido do sofrimento. Freqüentemente nasce daí a objeção; se Deus existe, como pode permitir tanta desgraça, especialmente quando afeta pessoas inocentes? Se tanto mal acontece, ou Deus não pode ou não quer evitá-lo. No primeiro caso, Ele não é todo-poderoso (então não é Deus); no segundo caso, Ele não ama seus filhos, pois nenhum pai assiste indiferente ao sofrimento dos seus filhos. Em conseqüência de tais raciocínios, parece lógico a muitos negar a existência do próprio Deus.

Eis por que as páginas subseqüentes serão dedicadas ao estudo de tal problema. Pode-se-lhe apresentar solução?… ou ao menos alguma luz que o esclareça? – Aliás, também o último Sínodo Mundial dos Bispos, encerrado em dezembro de 1985, chamou a atenção para a recrudescência do mal em nossos dias (tão marcados pela fome e pela ameaça de catástrofes nucleares) e solicitou especial atenção para a Teologia da Cruz:

“Percebemos que os sinais dos tempos são, em parte, diferentes daqueles dos tempos do Concílio, com problemas e angústias ainda mais graves. Com efeito; assistimos em toda parte ao aumento da fome, da opressão, da injustiça; a guerra domina em vários lugares, com os sofrimentos que ela acarreta, enquanto o terrorismo e a violência, sob mil formas, se manifestam um pouco por toda parte. Isto nos obriga a nova e mais profunda reflexão teológica para interpretar esses sinais à luz do Evangelho…
Parece que nas atuais dificuldades Deus nos quer ensinar mais profundamente o valor, a importância e a centralidade da Cruz de Jesus Cristo” (D, nº. 1 e 2).

Examinemos agora as objeções que, em vista do sofrimento da humanidade, são atualmente levantadas contra a existência ou os atributos de Deus.

1. Se o mal existe, Deus existe?

Eis quatro objeções que a opinião pública não raro formula:

1.1. Deus sem poder ou sem amor
“Diante do sofrimento no mundo, Deus não pode ou não quer intervir. No primeiro caso, Ele é fraco ou destituído de poder; no segundo caso, Ele carece de amor para com seus filhos”.

- Esta objeção já foi longamente desenvolvida por Voltaire após o terremoto de Lisboa em 1755 e pelo filósofo Arthur Schopenhauer (+1860). Houve quem lhe respondesse, admitindo que Deus é muito sábio e muito poderoso, mas não todo-poderoso (assim Voltaire, Stuart Mill, M. Schiller). – Todavia quem assim pensa, está praticamente negando a existência de Deus, pois, por definição, ou Deus é a Suma Perfeição, sem limites, ou simplesmente não existe.

A resposta católica a tal objeção já foi formulada por S. Agostinho (+ 430), ao qual S. Tomás de Aquino (+ 1274) fez eco: “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem. – Nulo modo sineret aliquid mali esse in operibus suis, nisi esset adeo omnipotens et bonus ut bene faceret etiam de malo” (Enchiridion, c. 11; ver Suma Teológica l qu, 22, art. 2, ad 2). Estas palavras, aliás, sintetizam toda a doutrina católica relativa à origem do mal:

1) O mal não é uma entidade positiva; mas uma carência do ser (ou do bem) devido. Assim a cegueira é a falta de olhos (é um mal nas criaturas às quais a natureza concede olhos); o pecado é a falta de concordância do ato humano com o Fim Supremo da moralidade, que é Deus.

2) Ora o não ser ou a carência como tal não tem causa. Só pode ser indiretamente causado por um agente falível ou uma criatura que, ao agir, seja capaz de produzir um efeito incompleto, carente de sua perfeição.

3) Por conseguinte, Deus, sendo por definição o Ser Perfeitíssimo, não pode ser causa do mal, Esta há de ser a criatura, que pode falhar ao agir no plano físico (um desastre de automóvel, uma enchente, uma seca…) ou no plano moral (o pecado).

4) Deus permite que as criaturas exerçam a sua atividade conforme a natureza de cada uma; permite, pois, as falhas respectivas. Ele não fez um mundo artificialmente policiado ou de marionetes. Todavia em sua sabedoria e bondade. Ele se compromete a aproveitar o próprio mal cometido pelas criaturas para daí tirar bens maiores.

5) Não raro é-nos dado perceber os bens que se seguem aos males decorrentes da ação das criaturas. Com efeito, sabemos que muitas e muitas pessoas se transformaram e nobilitaram em conseqüência de uma moléstia grave, de um baque ou insucesso na vida. Em outros casos não nos é possível indicar os frutos positivos procedentes de algum mal; mas o cristão tem a certeza de que, no final dos tempos, lhe será concedido contemplar o plano de Deus e as ligações existentes entre os fatos que ele abrange.

A resposta teológica aqui esboçada será mais amplamente explanada sob o título 2 deste artigo. Importa aqui mostrar apenas que a existência do mal no mundo não significa falta de poder ou de bondade em Deus. Os caminhos de Deus não são os dos homens, diz o Profeta (Is 55,8); a visão que Deus tem das criaturas e da história, é muito mais extensa do que a que nós temos. Por causa de nossas perspectivas limitadas, corremos o risco de apontar sem mais um mal ou um desastre onde há apenas o preâmbulo de um grande benefício arquitetado sobre a própria falibilidade das criaturas.

1.2. Insistindo…
“Não aceito a explicação, pois freqüentemente me parece que a desgraça é tão-somente desgraça, longe de qualquer plano providencial de Deus”.


A propósito formularemos três observações:
1) É preciso que a criatura não faça de si mesma o padrão ou o critério para avaliar felicidade ou desventura. Não diga: “Se eu não vejo o lado positivo de uma desgraça, tal lado positivo não existe”. Somente Aquele cujo olhar abarca toda a história da humanidade pode definir o sentindo real que cada acontecimento tem nesse conjunto.

2) Se determinado mal não tem realmente uma contra-parte positiva ou valiosa, isto se deve muitas vezes ao endurecimento ou à indisposição do ser humano. Deus não constrange ninguém a acolher a sua graça. Com outras palavras: a pessoa que sofre, pode fechar-se numa atitude de revolta, que a torna impermeável à ação do Espírito de Deus.

3) Se alguém insiste em negar a existência de Deus por causa das desgraças existentes no mundo, elimina do seu horizonte um fator de esperança e coragem, e não resolve o problema do sofrimento. Ao contrário, cria para si um novo problema. Com efeito, verifica-se que muitas e muitas pessoas, quando sofrem, apelam espontaneamente para Deus; assim nos cárceres, nos hospitais, nas trincheiras de guerra… é mais freqüente o clamor que pede ajuda, do que a blasfêmia. Quem sofre, experimenta muitas vezes a necessidade de um auxílio mais do que humano para tirá-lo da sua dor e salvar da desgraça os seus semelhantes.

Mais: se alguém nega a existência de Deus, vê-se diante de um mundo marcado pela injustiça e retido pelas leis do mais forte que esmaga o mais fraco… sem que possa haver esperança de restauração da ordem ou do reconhecimento dos verdadeiros valores. Já Platão (+ 347 a.C.), diante da injusta morte de Sócrates, afirmava a necessidade de haver uma justiça superior ou divina para que a morte de Sócrates não fosse um mero absurdo ou o triunfo do mal sobre o bem (ver os diálogos República e Fedon).

1.3. Só para os maus…
“Somente os criminosos deveriam sofrer, ao passo que os justos haveriam de gozar de paz e felicidade. Ora às vezes parece que se dá contrário”.


A respeito ponderamos:
1) Todos os seres humanos são portadores de pecado. Não os dividamos em criminosos, de um lado, e inocentes, de outro lado. Os que não cometem graves faltas morais, trazem dentro de si a potencialidade ou a capacidade de as cometer.

2) O sofrimento não deve ser considerado apenas como punição ou sanção devida a um réu. Ao contrário, o sofrimento tem significado muito mais largo e nobre. Com efeito.

a) o sofrimento físico é decorrente da própria natureza do homem. A dor é sinal de alarme que torna o homem consciente de uma moléstia ou um distúrbio do seu organismo; se não fosse a dor, o mal progrediria sem que o paciente pudesse perceber adequadamente. O natural desgaste dos órgãos (coração, pulmões, fígado…) provoca dores que vêm a ser salutar advertência ou ensinamento para o homem.

b) O sofrimento está também muito ligado ao amor e à nobreza de caráter. Longe de ser castigo, o sofrimento decorre muitas vezes do fato de que alguém ama outra pessoa e compartilha as dores desta. Pode-se mesmo dizer: quanto mais alguém é digno e magnânimo, tanto mais sofre; quanto mais mesquinho ou desnaturado, tanto menos sofre. Qual a mãe que não sofre por causa da dor de seu filho?

c) De modo geral, o sofrimento é escola para o ser humano. Contribui para vencer o egoísmo e tornar a pessoa mais voltada para o próximo; torna atuantes muitas energias e potencialidades que nunca desabrochariam se não fosse o sofrimento. Esta verdade é tão óbvia que já os antigos gregos a formularam no trocadilho: pathos mathos (sofrimento é ensinamento ou aprendizagem). Quem não passa pelo cadinho do sofrimento, muitas vezes é egocêntrico, e insensível para com os outros; desfigura-se no plano da personalidade.

1.4. Ao menos, não seja excessivo!

Dirá alguém: “Se o sofrimento tem suas vantagens, é para desejar que não se torne excessivo. Deus deveria saber moderá-lo”.
- Respondemos que as expressões “excessivo” e “pouco demais” são relativas. Quem gosta de trabalhar, se dá por feliz quando desempenha uma tarefa grande e importante, que a pessoa vadia rejeitaria como “excessiva”. Caminhar um quilômetro, para uns, é excessivo, enquanto para outros é insuficiente. – Por conseguinte, é difícil levar em consideração a reivindicação do sofrimento não excessivo, já que este termo é vago ou genérico demais. Como dito, não devo fazer de minhas categorias de pensamento e afeto os critérios de aferição do que acontece aos outros principalmente se não conheço esses outros.
Passemos agora à explanação da resposta cristã ao problema do sofrimento.

2. A resposta cristã

2.1. Observação prévia

A fé ajuda o cristão a esclarecer o problema do sofrimento, mas não dissipa todo enigma a tal propósito. Especialmente quando se consideram casos particulares, como a morte desta mãe ou deste pai, que deixam crianças pequenas, não é possível oferecer explicação cabal e precisa para o ocorrido; nem nos é possível dizer por que tal desgaste de automóvel se deu precisamente em tal dia de festa. O livro de Jó nos recorda a insondabilidade do sofrimento, quando, referindo-se às tentativas de explicar o sofrimento, põe nos lábios de Jó as seguintes palavras:

“Eis que falei levianamente; poderei responder-te? Porei minha mão sobre a boca; Falei uma vez, não replicarei… Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te os meus olhos; por isto retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 40, 4s; 42, 3-6).

Todavia a fé cristã projeta o mistério do sofrimento a perspectiva do amor de Deus; como é difícil dar explicação cabal para o mistério do amor, também é árduo explicar o mistério do sofrimento. A fé católica enquadra o mistério do sofrimento dentro do mistério maior do amor. Com efeito, o amor de Deus, que criou o homem num misterioso ato de benevolência, jamais o abandona; certamente exerce seus planos através dos percalços da caminhada que a criatura percorre na terra. Todas as respectivas ocorrências estão sob o signo desse amor primeiro gratuito e irreversível (cf. 1Jo 4, 10, 19).

Examinemos agora, de mais perto, a explicação teológica.

2.2. A origem do mal no mundo

A S. Escritura refere que o mal no mundo teve origem por violação (por parte dos primeiros pais) da ordem instaurada pelo Criador.
Com efeito. Deus quis dotar os primeiros homens de grande riqueza interior: 1) a graça santificante, que lhes comunicava a filiação divina e 2) os dons preternaturais (a isenção da morte, do sofrimento, da desordem de tendências interiores…). Tal era o estado de justiça original.
Estes dons estavam condicionados à fidelidade do homem ao plano de Deus. Sim; deviam ser livremente aceitos pela criatura. Por isto o Criador propôs a esta um modelo de vida (figurado pela proibição da fruta da árvore da ciência do bem e do mal, Gn 2,16s). Aceitando-o, o homem significaria sua entrega ao desígnio de Deus; recusando-o, exprimiria o seu Não e sua auto-suficiência. Ora na verdade os primeiros pais rejeitaram o modelo de vida apresentado pelo Senhor Deus; pecaram por soberba, que os levou à desobediência. Em conseqüência, perderam a chamada “justiça original” e caíram num estado em que existem a morte, o sofrimento, as tendências desregradas… Verdade é que tanto a morte como o sofrimento e os apetites instintivos são algo de natural; todavia após o pecado dos primeiros pais trazem a marca da desordem e da desobediência. O mundo que, por dom de Deus, estava harmoniosamente sujeito ao homem, já não é tal; enquanto o homem se mantinha submisso e fiel a Deus, o mundo inferior estava subordinado ao homem; todavia, rompida a sujeição do homem ao Criador, rompe-se a serventia das criaturas irracionais ao homem; estas o maltratam e esmagam, negam-lhe os frutos da terra e, não raro, as condições de sobrevivência.

Por conseguinte, conforme o texto sagrado e a doutrina da fé, a origem do mal no mundo está no pecado ou no plano moral. Este suscitou o mal físico (doenças, mortes, catástrofes, calamidades…).

A doutrina do pecado original assim concebida tem sido questionada ou posta em dúvida por parte de alguns teólogos e exegetas. Estes afirmam que o pecado começou sua história no mundo sem o quadro ou a moldura que o texto sagrado lhe assinala; não importaria o modo de suas origens. Tal teoria destrói a cosmovisão cristã. Por isto o S. Padre João Paulo II, em suas audiências de Quarta-feira, tem insistido no assunto, incutindo a doutrina de fé na Igreja; tenha-se em vista L’Osservatore Romano, edições semanais de setembro-outubro 1986.
Eis, porém, que, na história das relações do homem com Deus, a última palavra não foi a do pecado nem a da desordem. O Senhor Deus não se quis deixar vencer pelo mal, mas venceu o mal com o bem (cf. Rm 12,21). É o que veremos a seguir.

2.3. O resgate da dor

Diz São Paulo: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo” (Ef 2,4s). Ou ainda: “Onde abundou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm 5,20). Com outras palavras: Deus não ficou indiferente à desgraça na qual o homem se atirou pelo pecado; não assistiu “friamente” à tragédia; mas houve por bem assumi-la em toda a sua realidade concreta.

O testemunho do amor de Deus foi precisamente a obra de Cristo. Enviando seu Filho ao mundo, o Pai constituiu um segundo Adão ou um novo Cabeça da humanidade. Este assumiu a dor e a morte do homem até as últimas conseqüências, numa atitude de entrega e de amor ao Pai. Desta maneira mudou o significado do sofrimento humano; este já não é mera conseqüência do pecado ou sanção da justiça divina; ele foi redimido vindo a ser a vida de volta do homem a Deus. O homem sofre e, sofrendo, se encaminha para o Pai com Cristo.

Os teólogos costumam deter-se na explanação do valor do sacrifício de Cristo, valendo-se do texto de São Paulo: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por nós a fim de que nos tornássemos justiça de Deus por Ele” (2Cor 5,21). Estes dizeres significam que Cristo foi constituído sacrifício pelo pecado; Ele fez partir da própria natureza humana o amor e a dedicação ao Pai que o primeiro Adão recusou.
O cristão, sofrendo com Cristo, pode até mesmo tornar-se corredentor com Jesus, expiando em sua carne os pecados da humanidade, como lembra o S. Padre Pio XII na encíclica Mystici Corporis Christi. Desta maneira, o sofrimento, além de ser escola benéfica (como foi dito à p. 65 deste artigo), é também ocasião de derramamento de graças sobre o mundo. O sofrimento dos inocentes há de ser visto à luz desta verdade: como Cristo inocente padeceu transfigurando a dor, assim o cristão santamente configurado a Cristo, padece oferecendo ao Pai o repúdio ao pecado e o amor que os pecadores deveriam tributar a Deus. O Pai celeste dispôs salvar os homens mediante Cristo e aqueles que se unem a Cristo pela santidade de sua vida. Assim a própria dor das pessoas retas e justas toma sentido. São Paulo dizia: “Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Quando o cristão sofre, não é simplesmente um ser biológico que sofre, mas é o próprio Redentor que estende a sua Paixão aos membros do seu Corpo Místico, associando-os à sua obra redentora: na verdade, o sacrifício de Cristo na Cruz foi infinitamente meritório, mas cada cristão pode dar-lhe o suporte ou a moldura da sua vida pessoal…, suporte que a Paixão de Cristo não teria se não fosse a vida de cada discípulo de Cristo.

O valor do sacrifício do cristão unido ao de Cristo foi realçado pelo Cardeal Frantisek Tomasek, de Praga, numa entrevista concedida ao periódico italiano II Sabato. O prelado falou então dos graves problemas que o regime comunista suscita para a Igreja na Tchecoslováquia (cerceamento de atividades pastorais, dificuldades para a nomeação de Bispos, encarceramento de sacerdotes e leigos…). O repórter então lhe perguntou: “Eminência, não está cansado de combater uma batalha sem êxito?”

Respondeu o Cardeal: “A situação é difícil; não se vê como e quando possa melhorar. Mas tenho sempre esperança. Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus, faz muito, quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que fazemos entre nós, na Tchecoslováquia”.

Quem sofre, faz tudo, desde que unido a Cristo, pois toma parte íntima na Paixão Redentora do Senhor, fonte de salvação para o mundo inteiro.

3. Conclusão

Eis a maneira como a mensagem cristã responde ao problema do sofrimento humano. Aos olhos da fé, é plenamente satisfatória; tem suscitado grandes heróis e heroínas através dos séculos. O que esta explicação possui de mais típico, é o fato de conjugar entre si justiça e amor. Sim; o sofrimento, de um lado, é a justa conseqüência do Não dito pelo homem a Deus no início da sua história; por outro lado, é o testemunho do amor de Deus que, assumindo o sofrimento e a morte, demonstra ao homem que lhe quer bem e não desiste de o chamar à Vida; Cristo transfigurou o sofrimento e o fez caminho de conversão ou de retorno ao Pai.

A propósito citamos:
John M. McDermott S.J., ll sensi dela sofferenza, em La Civiltà Catolica nº 3272, 18/10/1986, pp. 112-126.


Sei que o texto é longo, mas vale a pena ser lido e meditado. Esperamos ajudar assim aos nossos leitores. Grande abraço a todos.
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Re: Deus e o mal.

Mensagem por Ralão em Dom Jan 24, 2010 1:32 pm

Boas,

Texto muito interessante, contudo tenho duas questões que gostava de partilhar convosco e que gostaria de obter algumas ilucidações:

- A 1º diz respeito à origem do mal no mundo.
Julgo que todos concordaram que Deus quando fez os anjos os fez dotados com o mesmo Livre arbitrio que os homens possuem.
Ao que parece o diabo ao querer asemelhar-se ao Altissimo deixou que a inquidade entra-se nele e assim entrou no camilho da perdição.
Ora a minha questão é a seguinte:
Independentemente da escolha de lucifer não vos parece que o simples sentimento de Orgulho terá sido criado por Deus?
Se Deus do nada fez o universo com os seus anjos, todos os sentimentos humanos e anjélicos terão que ter-se iniciado em Deus.
Ou então por outro lado teremos 1 ser criado por Deus com o poder de criar por si próprio sentimentos e pensamentos, o que é 1 pouco estranho.

- A 2ª questão tem a vêr com os nossos primeiros pais.
Muitas vezes já ouvimos dizer que por vezes a Bíblia utiliza imagens próprias para passar determinadas mensagens, nesse sentido gostava de colocar a seguinte questão:
Não é verdade que o Igreja já veio a terreno afirmar que não era contra a teoria da evolução?
Se sim é porque provavelmente não acha descabido o facto de a terra não ter tido origem à tão pouco tempo como alguns defendem. Ora isso coloca-nos a questão de Adão e Eva serem 1 facto veridico ou uma imagem utilizada para dar sentido a todo 1 processo que culminou com o aparecimento homem no planeta.
Se o aparecimento do homem não foi como a história de Adão e Eva nos fazem crer, então todas as reflexões que certos Santos fizeram no passado foram vãs pois assentavam em persupostos errados, e assim em que ficamos?

Com a veracidade Éden terreno ou numa evolução pensada e planeada por Deus, que a Igreja actual não rejeita?

Situações deveras intrigantes e merecedoras de verdadeiras refleções.

Cumprimentos,

José Ralão
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Re: Deus e o mal.

Mensagem por Pe. Anderson em Qui Jan 28, 2010 4:24 pm

Caro Ralao,

Muito interessantes suas questões e também são bem difíceis. Tentarei te ajudar com umas repostas a essas questões.

À sua primeira questão:

Em primeiro lugar, o livre arbítrio dos anjos criados por Deus é muito maior do que os dos homens. Isso por que eles são criaturas somente espirituais e conhecem as coisas diretamente nas suas essências, enquanto nós homens conhecemos as coisas através dos sentidos. Os anjos tem um conhecimento superior ao dos homens e por isso são mais livres.

Para isso devemos dar uma definição de liberdade. A melhor que conheço é a que diz: “a liberdade é o domínio sobre os próprios atos.” Isso significa que os atos livres são aquele em que atuam a inteligência e a vontade (que é nosso apetite racional, movida pela verdade conhecida e que nos aparece como apetecível). Dessa forma, quanto mais inteligência, quanto mais conhecimento uma pessoa tiver, mais livre ela é. Por isso Jesus disse “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Dessa forma a ignorância aparece como uma terrível escravidão dos homens e com toda certeza, podemos dizer que os anjos são mais livres que os homens.

Ainda sobre sua última questão devemos dizer: Deus não pode querer nem direta nem indiretamente o mal. Por isso, tudo o que Deus fez, tudo o que ele criou é bom. Dessa forma, Deus não pode criar nem mesmo querer o mal. Deus não quer o mal nem mesmo em vistas de um mal maior.

Agora em relação ao orgulho e dos defeitos que estão presentes na natureza humana. Dizemos na Teologia que Deus “os criou virtualmente”. Quer dizer, Deus fez o homem e os anjos livres, terrivelmente livres. Isso significa, com a capacidade de responder positiva ou negativamente à sua proposta. É claro que ele quer uma resposta positiva de todos, mas a quer livremente. Por isso, ele quis correr o risco de criar essas criaturas livres. Se Deus tivesse criado somente criaturas não livres (como os animais, as plantas e os vegetais) teria privado a sua criação do maior de todos os bens: a liberdade. Dessa forma Santo Tomás pôde dizer que se Deus eliminasse o risco da liberdade, e com ela a capacidade do mal entrar no mundo, teria eliminado o maior dos bens que ele criou.

A liberdade é realmente um mistério grandíssimo, creio que um dos maiores do Cristianismo, e estou seguro que muitos poucos a aceitam em sua radicalidade total. Santo Agostinho expressou o mistério da liberdade humana em uma homilia sua de forma totalmente genial. Ele disse:

“Foi melhor Jó do esterco que Adão no Paraíso.”

Esse é o mistério da liberdade humana. Adao teve todos os bens e pôde escolher o mal, o pecado. E Jó em meio a todos os sofrimentos, não pecou. Sabemos ainda que Jó é uma imagem de Cristo, que sofreu por todos nós se fez em tudo igual aos homens exceto no pecado.

À sua segunda questão, te convido a ler antes o que nós já dissemos sobre a Evoluçao. Depois podemos aprofundar mais a questão se você julgar necessário.

http://quemtembocavaiaroma.livreforum.com/questoes-disputadas-f7/criacao-ou-evolucao-t419.htm?highlight=evolu%e7ao

Grande abraço e obrigado por sua participaçao.
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Re: Deus e o mal.

Mensagem por Pe. Anderson em Ter Out 11, 2011 10:32 am

Caros amigos,

Vejam esses textos que encontrei esses dias sobre o tema. Creio que é a resposta mais bela e sintética que encotrei até hoje sobre esse assunto.


“Eu, desde criança, tenho pensado muitas vezes sobre o fato de que há muitas almas boas, às quais lhes toca sofrer muito na terra; penas de todo o gênero: reveses de fortuna, desmoronamento da família, tendo que deixar-se pisotear o legítimo orgulho... Ao mesmo tempo, via outras pessoas, que não pareciam boas, não digo que não fossem, porque não temos o direito de julgar a ninguém, às quais tudo lhes parecia uma maravilha. Até que um bom dia me veio a consideração de que também os maus fazem coisas boas, ainda que não as realizem por um motivo sobrenatural; e compreendi que Deus de alguma maneira as tinha que premiar aqui na terra, já que logo não poderá premiá-las na eternidade. Lembrei-me então do ditado: também se engorda ao boi que irá ao matadouro” (São Josemaria Escrivá, meditação de 04-II-1962).

“Cruz, trabalhos, tribulações: os terás enquanto vivas. Por esse caminho foi Cristo e não é o discípulo maior que o Mestre” (Caminho, 699).

Grande abraço a todos.
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Re: Deus e o mal.

Mensagem por quemtembocadizaverdade em Ter Out 11, 2011 12:04 pm

É-nos impossível, por nós mesmos, escapar ao abismo do pecado em que estamos mergulhados. Nosso coração é ímpio, e não o podemos transformar. "Quem do imundo tirará o puro? Ninguém!" Jó 14:4. "A inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser." Rom. 8:7. A educação, a cultura, o exercício da vontade, o esforço humano, todos têm sua devida esfera de ação, mas neste caso são impotentes. Poderão levar a um procedimento exteriormente correto, mas não podem mudar o coração; são incapazes de purificar as fontes da vida. É preciso um poder que opere interiormente, uma nova vida que proceda do alto, antes que os homens possam substituir o pecado pela santidade. Esse poder é Cristo. Sua graça, unicamente, é que pode avivar as amortecidas faculdades da alma, e atraí-la a Deus, à santidade. Disse o Salvador: "Aquele que não nascer de novo"- não receber um novo coração, novos desejos, propósitos e motivos, que conduzem a uma nova vida - "não pode ver o reino de Deus." João 3:3.Caminho a Cristo. pág.18
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