Museu secreto das almas no Vaticano? Reportagem do Fantástico.

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Museu secreto das almas no Vaticano? Reportagem do Fantástico.

Mensagem por Pe. Anderson em Qua Jul 07, 2010 1:00 pm

Caros amigos,

Recebemos algumas perguntas sobre uma reportagem apresentada no Fantástico, na qual era apresentado um “museu secreto” no Vaticano que demonstraria que a Igreja Católica aceita a doutrina da comunicação dos mortos com os vivos. Alguns católicos nos escreveram mostrando preocupação e dúvidas sobre esse tema. Concretamente nos perguntaram se houve alguma mudança na doutrina oficial da Igreja Católica.

A reportagem pode ser vista no seguinte link:

http://www.youtube.com/watch?v=hXsoxnvQd3A

Eu achei muito estranho essas perguntas e não consegui compreender como é possível que uma Reportagem de televisão, que deveria informar, suscitasse mais dúvidas do que certezas. Isso me pareceu algo bem suspeito. Então tive que ver a reportagem. Quando o fiz, confesso que fiquei bastante surpreso: pois sinceramente pensava que a reportagem seria bem pior do que ela realmente é. Tenho que dizer que me surpreendi positivamente em alguns aspectos pois creio que foram apresentadas informações bastante objetivas (no que diz respeito aos fatos, ou seja, “às relíquias” do “museu”); entretanto identifiquei na reportagem um problema real: a interpretação feita dos dados objetivos.

Do ponto de vista doutrinal, estou certo que não há nada preocupante para um católico minimamente informado nessa reportagem. Vamos comentá-la aqui mostrando que toda ela se baseia em alguns mal-entendidos, em algumas confusões e num fantástico sensacionalismo.
Em primeiro lugar gostaria de comentar o nível técnico da reportagem. Como quase tudo feito pela TV Globo, o nível técnico e profissional é realmente ótimo! A montagem da reportagem é excelente, com músicas e cenas sugestivas de filmes de terror, com a “voz misteriosa” de Cid Moreira; mas o mais chamativo do ponto de vista comunicativo nessa reportagem são as frases feitas, as afirmações de impacto que anunciam a reportagem: “Igreja Católica admite a comunicação com os mortos”; “um segredo dentro da Igreja católica”; “Museu vaticano que não pode ser visitado e nem fotografado”; “Museu praticamente desconhecido, inclusive pelos católicos”; e a melhor afirmação de todas: “Mistério na Igreja”, dita pela voz belíssima de Cid Moreira. Dessa forma até parece que há um verdadeiro mistério por detrás de tudo isso.
Agora vejamos tudo isso do ponto de vista informativo. Por um lado, a reportagem me surpreendeu positivamente. Em primeiro lugar porque mostra com detalhes e objetividade as histórias das principais “relíquias” do museu; depois porque tenta explicar (ainda que de modo superficial) a doutrina católica sobre o Purgatório; depois porque mostra ótimas entrevistas com alguns bons teólogos católicos (que por sinal, contradiz a manchete principal da reportagem: “O Vaticano já admite comunicação com Espíritos”).

Agora ainda do ponto de vista informativo gostaria de apresentar algumas diversas contradições da reportagem, que em geral, passam despercebidos pela maioria dos telespectadores.

1) A reportagem se baseia toda na idéia de que há um “museu secreto” no Vaticano que faria supor a verdade da doutrina da comunicação entre vivos e mortos. A primeira contradição está na própria idéia de “museu secreto”. Que seria um museu secreto? Não é lógico pensar que um museu existe sempre para um público, sempre para ser visitado? Um museu não é algo essencialmente público? A idéia de “museu secreto” é absurda, é uma contradição em termos. Se um espaço é fechado ao público, jamais pode ser considerado um museu.

2) Depois o “museu vaticano secreto dos mortos” desvendado pelo Fantástico é realmente algo muito particular: em primeiro lugar porque não é um museu, em segundo porque não é secreto; e terceiro porque não está localizado no Vaticano. Esse “museu” é na verdade uma Igreja situada numa área bem central de Roma: ao lado do Palácio do Ministério da Justiça Italiana, perto do Castelo Sant’Angelo, da Via della Conciliazione e do Rio Tevere. Esse estranho “museu” é na verdade a “Igreja do Sagrado Coração do Sufrágio”, como bem afirma Cid Moreira, uma igreja neo-gótica muito bela que está a vista de todos os turistas atentos que durante todo o ano enchem a cidade de Roma. Bastariam 5 minutos no Google Earth para que se visse que essa Igreja não fica dentro do Vaticano, mas sim numa área bem central e movimentada de Roma.

3) A reportagem do Fantástico diz que com esse “museu” a Igreja passa a admitir a tese da comunicação dos mortos com os vivos, como se o museu fosse algo muito recente. Na verdade, essa igreja existe em Roma desde o século XIX e esteve aberta ao público por quase 150 anos! É verdade que atualmente essa igreja está fechada ao público, mais o motivo é bastante obvio para todos os que visitam Roma: a Igreja está sendo reformada. Bastaria um pouco de boa vontade do cinegrafista da rede Globo para mostrar os imensos andaimes que atualmente circundam toda a igreja. Não é de estranhar que as imagens da Igreja só mostrem as torres e a imagem do Cristo sobre uma das suas portas? A parte baixa e externa da Igreja está cheias de andaimes que revelam o porquê do “mistério” de dito “museu secreto”.

4) A reportagem dá a entender que o que permite afirmar que a Igreja Católica admite a “comunicação com os espíritos” são as relíquias que estão numa pequena sala daquela igreja. Essa seria a grande novidade descoberta pelo Fantástico. Mas, estranhamente, tudo o que se apresenta ali são objetos dos séculos XVII e XVIII. Não tem nada de atual ali que permita afirmar a mudança da doutrina católica naquela Igreja.

5) A Ilze Scamparini diz no início da reportagem que foi durante a Idade Média que o “Purgatório ocupou lugar privilegiado na imaginação dos cristãos”. Mas, paradoxalmente, as “relíquias” de tal igreja são todas dos séculos XVII e XVIII. Nenhuma “relíquia” medieval das almas do Purgatória é apresentada na reportagem. Estranho isso, não acham?

6) A reportagem diz que a Igreja pertencia aos “Missionários do Sagrado Coração”, ordem católica fundada em 1854. Então diz belamente Cid Moreira: “os antigos missionários do Sagrado Coração acreditavam que elas [as relíquias na sala ao lado da sacristia] eram prova da comunicação entre vivos e mortos”. Evidentemente se diz o que esses missionários acreditavam naquela época; não há, portanto, nada então de novidade, e nenhuma “mudança” da doutrina católica. O Fantástico não apresentou nenhum texto do Magistério que mostre tal mudança.
Depois, é realmente lamentável ouvir Cid Moreira dizendo que o hábito religioso é uma “espécie de avental.” Realmente isso representa uma ignorância fantástica.

7) A manchete principal da reportagem dizia: “O Vaticano já admite comunicação com Espíritos”; e no final da reportagem a repórter entrevista alguns teólogos. Todos esses são unânimes: desconfiam da autenticidade das “relíquias”, dizem que não é possível a materialização de uma realidade espiritual. Ou seja, ao final, o que dizem os representantes da Igreja entrevistados contradiz abertamente a título da reportagem.

Há uma página de internet que nos apresenta várias informações sobre essa igreja: ótimas fotos das “relíquias”, história da sua construção, etc. Aí temos indicado o número de telefone da mesma: 6540517; e se diz ainda que a igreja está aberta aos domingos das 09:00 ao 12:00 com entrada grátis. Ademais se indica que os visitantes devem pedir na sacristia para que lhes abra o “museu”. Confiram a página:

http://marcianitosverdes.haaan.com/2007/05/el-museo-cristiano-de-las-pareidolias/

Agora gostaria de expor simplesmente algo dito na reportagem que é totalmente impreciso e é a fonte principal da ambigüidade dessa reportagem: a afirmação feita: “As relíquias trazem uma questão muito delicada para a Igreja Católica: existe a comunicação entre vivos e mortos?”

A base do mal-entendido da reportagem está exatamente nessa palavra: “comunicação”. Essa pode ser entendida de dois modos totalmente diversos: de acordo com o modo católico e com o modo espírita. No primeiro sentido, pode-se dizer que é possível haver uma “comunicação” entre vivos e mortos, entendida como uma comunicação de graças, de dons espirituais. No segundo sentido “comunicação” significaria a comunicação de informações: de juízos, conceitos, imagens etc. de pessoas falecidas a vivos, através de pessoas habilitadas para tal tarefa (os chamados mediuns) Propriamente isso seria a “necromancia”, ou a invocação de mortos para a “comunicação” de certas verdades ocultas.
Dessa forma a afirmação acima pode ser entendida de dois formas. A comunicação entre vivos e mortos é possível para a Igreja Católica, no sentido de comunicação de graças, ao interno da Igreja, Corpo Místico de Cristo. Nesse sentido, tais relíquias (que não foram declaradas autênticas pelas autoridades da Igreja) não apresentam nenhuma “questão muito delicada para a Igreja Católica”.

No sentido de “necromancia”, as relíquias também não apresentam nenhum problema para a Igreja Católica. Essa prática aparece realmente no Antigo Testamento e foi sempre condenada dentro do povo de Israel. Essa prática de origem pagã, ou seja, proveniente dos povos vizinhos à Israel e foi sempre condenada na Bíblia: no Pentateuco, nos livros históricos, e pelos profetas. A Igreja Católica recolheu a Tradição judaica e a continuou, contando evidentemente com a luz dada à essa pela Revelação feita por Jesus Cristo.
Sendo assim, no primeiro sentido afirma o Catecismo da Igreja Católica:

947 "Uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros... Assim, é preciso crer que existe uma comunhão dos bens na Igreja. Mas o membro mais importante é Cristo, por ser a Cabeça... Assim, o bem de Cristo é comunicado a todos os membros, e essa comunicação se faz por meio dos sacramentos da Igreja." Como esta Igreja é governada por um só e mesmo Espírito, todos os bem que ela recebeu se tornam necessariamente um fundo comum.

948 O termo "comunhão dos santos" tem, pois, dois significados intimamente interligados: "comunhão nas coisas santas (sancta)" e "comunhão entre as pessoas santas (sancti)". "Sancta sanctis!" (o que é santo para os que são santos): assim proclama o celebrante na maioria das liturgias orientais no momento da elevação dos santos dons, antes do serviço da comunhão. Os fiéis (sancti) são alimentados pelo Corpo e pelo Sangue de Cristo (sancta), a fim de crescerem na comunhão do Espírito Santo (Koinonia) comunicá-la ao mundo.

A esse primeiro sentido se referia o Padre Concetti na reportagem do Fantástico: ele dizia que acreditava na comunhão entre vivos e mortos por um motivo teológico: a Igreja é o Corpo místico de Cristo. E de Cristo Cabeça emanam graças e dons aos seus membros. Em Cristo todos cristãos estão unidos e por isso, onde “há união, há verdadeira comunhão”, afirmava o teólogo franciscano.

No final da reportagem falava outra pessoa, creio que um teólogo (não identificado). Ele dizia que a Igreja acredita que há a de comunicação entre esse mundo e o outro. Ou melhor dito, “a Igreja tem a convicção de que essa comunicação existe. A Igreja se sente peregrina, porque vive na Terra e possui uma pátria no Céu.” Com essas palavras esse senhor se referia à doutrina clássica dos três estados da Igreja. No Catecismo da Igreja Católica essa é expressa da seguinte forma:

954 Os três estados da Igreja. "Até que o Senhor venha em Sua majestade e, com ele, todos os anjos e, tendo sido destruída a morte, todas as coisas lhe forem sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na terra; outros, terminada esta vida, são purificados; enquanto outros são glorificados, vendo claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é'. Todos, porém, em grau e modo diverso, participamos da mesma caridade de Deus e do próximo e cantamos o mesmo hino de glória a nosso Deus. Pois todos quantos são de Cristo, tendo o seu Espírito, congregam-se em uma só Igreja e nele estão unidos entre si".

955 A união dos que estão na terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo de maneira alguma se interrompe; pelo contrário, segundo a fé perene da Igreja, vê-se fortalecida pela comunicação dos bens espirituais."

Como conseqüência dessa união, temos o fato da intercessão dos santos, que é uma prática de caridade entre os santos do Céu e os membros da Igreja no seu estado de peregrina na História. O Catecismo diz sobre isso:

956 A intercessão dos santos. "Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por conseguinte, pela fraterna solicitude deles, nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio": Não choreis! Ser -vos-ei mais útil após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha vida.

962 "Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos de juntos que estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando, todos juntos, uma só Igreja, e cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e de seus santos está sempre à escuta de nossas orações."


No segundo sentido dado ao termo “comunicação” (no sentido das doutrinas espíritas de “necromancia”) as Sagradas Escrituras e a doutrina da Igreja são extremamente claras. O Catecismo fala dessas práticas quando expõe o primeiro mandamento. Em resumo, pode-se dizer que todas essas práticas são um pecado contra o primeiro mandamento, pois é uma forma de se tentar manipular o futuro através de “forças ocultas”, o que supõe um desprezo direto ou direto do único Deus Soberano, misericordioso e sábio. Diz o Catecismo:

2115 Deus pode revelar o futuro a seus profetas ou a outros santos. Todavia, a atitude cristã correta consiste em entregar -se com confiança nas mãos da providência no que tange ao futuro, e em abandonar toda curiosidade doentia a este respeito. A imprevidência pode ser uma falta de responsabilidade.

2116 Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe "descobrir" o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e da sorte, os fenômenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e, finalmente, sobre os homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos. Essas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso temor, devemos exclusivamente a Deus.

2117 Todas as práticas de magia ou de feitiçaria com as quais a pessoa pretende domesticar os poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo - mesmo que seja para proporcionar a este a saúde - são gravemente contrárias à virtude da religião. Essas práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas de uma intenção de prejudicar a outrem, ou quando recorrem ou não à intervenção dos demônios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica freqüentemente práticas de adivinhação ou de magia. Por isso a Igreja adverte os fiéis a evitá-lo. O recurso aos assim chamados remédios tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes maléficos nem a exploração da credulidade alheia.

Agora creio que devemos esclarecer as palavras do padre Concetti: “O Espiritismo existe. Há sinais na Bíblia, no Antigo Testamento. Mas não no modo que as pessoas crêem. Não podemos chamar o espírito de Michelangelo ou Rafael. Mas, como existem provas na Sagrada Escritura, não se pode negar que exista essa possibilidade.”

Evidentemente o Espiritismo existe, pois se não existisse, não seria condenável. O texto do Antigo Testamento a que ele se refere é o seguinte:

Samuel tinha falecido e todo o Israel o chorara. Tinham-no sepultado em Ramá, sua cidade. E Saul expulsara da terra os necromantes, os feiticeiros e os adivinhos. Os filisteus mobilizados vieram acampar em Sunão, enquanto Saul ajuntava os israelitas, acampando em Gelboé. Ao ver o acampamento dos filisteus, Saul inquietou-se e teve grande medo. E consultou o Senhor, o qual não lhe respondeu nem por sonhos, nem pelo urim, nem pelos profetas. O rei disse aos seus servos: Procurai-me uma necromante para que eu a consulte. Há uma em Endor, responderam-lhe. Saul disfarçou-se, tomou outras vestes e pôs-se a caminho com dois homens. Chegaram à noite à casa da mulher. Saul disse-lhe: Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar. Respondeu-lhe a mulher: Tu bem sabes o que fez Saul, como expulsou da terra os necromantes e os adivinhos. Por que me armas ciladas para matar-me? Saul, porém, jurou-lhe pelo Senhor: Por Deus, disse ele, não te acontecerá mal algum por causa disso. Disse-lhe então a mulher: A quem evocarei? Evoca-me Samuel. E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito: Por que me enganaste?, disse ela ao rei. Tu és Saul! E o rei: Não temas! Que vês? A mulher: Vejo um deus que sobe da terra. Qual é o seu aspecto? É um ancião, envolto num manto. Saul compreendeu que era Samuel, e prostrou-se com o rosto por terra. Samuel disse ao rei: Por que me incomodaste, fazendo-me subir aqui? Estou em grande angústia, disse o rei. Os filisteus atacam-me e Deus se retirou de mim, não me respondendo mais, nem por profetas, nem por sonhos. Chamei-te para que me indiques o que devo fazer. Samuel disse-lhe: Por que me consultas, uma vez que o Senhor se retirou de ti, tornando-se teu adversário? Fez o Senhor como tinha anunciado pela minha boca: ele tira a realeza de tua mão para dá-la a outro, a Davi. Não obedeceste à voz do Senhor e não fizeste sentir a Amalec o fogo de sua cólera; eis por que o Senhor te trata hoje assim. E mais: o Senhor vai entregar Israel, juntamente contigo, nas mãos dos filisteus. Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará aos filisteus o acampamento de Israel. Saul, atemorizado com as palavras de Samuel, caiu estendido por terra, pois estava extenuado, nada tendo comido todo aquele dia e toda aquela noite. A mulher aproximou-se de Saul, e, vendo-o assim extremamente aterrado, disse-lhe: Tua serva obedeceu-te. Expus minha vida para obedecer à ordem que me deste. Ouve agora, tu também, a voz de tua serva. Vou dar-te um pouco de alimento, para que o comas e tenhas força para retomar o teu caminho. Saul, porém, recusou: Não comerei, disse ele. Entretanto, insistindo com ele seus servos e a mulher, cedeu; levantou-se do chão e sentou-se na cama. A mulher tinha em casa um bezerro cevado. Matou-o depressa e, tomando farinha, amassou-a, fazendo com ela pães sem fermento. Cozeu-os e levou-os a Saul e à sua gente. Tendo comido, levantaram-se e partiram naquela mesma noite. (1Sam. 28, 1-25)

Esse texto do Antigo Testamento representa uma etapa da história da salvação, uma etapa antiga da Revelação de Deus a Israel, que viria a ser completada pelos ensinamentos dados por Jesus Cristo. Por detrás da história está presente uma passagem da Torah, da Lei dada por Deus a Israel que dizia:

Quando tiveres entrado na terra que o Senhor, teu Deus, te dá, não te porás a imitar as práticas abomináveis da gente daquele terra. Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou â invocação dos mortos, porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações. Serás inteiramente do Senhor, teu Deus. As nações que vais despojar ouvem os agoureiros e os adivinhos; a ti, porém, o Senhor, teu Deus, não o permite. (Deut. 18, 9-14)

O mandamento de Deus era claríssimo para o povo de Israel e o rei Saul, que havia decretado a proibição de todos esses cultos de origem pagã em Israel, recorreu nessa ocasião à invocação dos mortos. Nesse caso, ele invocou o espírito do falecido Samuel. Sendo assim, ele cometeu um pecado gravíssimo contra Deus. Nesse texto não fica claro se quem aparece a Saul é realmente Samuel ou não (talvez poderia ser uma aparição demoníaca). De todos os modos, na Revelação que nos deixou Jesus Cristo, está explicitamente afirmado que não é possível a “comunicação” com os mortos (a “necromancia”). O texto principal que o afirma é o seguinte:

Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro no seu seio. Gritou, então: - Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas. Abraão, porém, replicou: - Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento. Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que, os que querem passar daqui para vós, não o podem, nem os de lá passar para cá. O rico disse: - Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar, que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos. Abraão respondeu: - Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos! O rico replicou: - Não, pai Abraão; mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão. Abraão respondeu-lhe: - Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos. (Lucas 16, 19-31)
Esse texto é uma parábola que Jesus conta a seus discípulos de todos os tempos. Nela está expressa o que o Senhor pensava e ensinava sobre o que sucede depois da morte de cada indivíduo. Diz que logo após a morte (separação de corpo e alma) há um juízo, que separa as pessoas: umas vão para “o seio de Abraão” (Abraão foi o “pai da fé” do povo de Israel) e outros vão para o inferno, lugar de sofrimento, de chamas. Nos dois estados, os indivíduos conservam a própria identidade (Lázaro conhecia ao rico e o rico reconhecia Lázaro e se recordava dos seus parentes que estavam ainda vivos). Abraão ensina nesse texto que é impossível se passar de um estado para o outro (do Céu ao Inferno ou do Inferno ao Céu) e, ao mesmo tempo, é impossível retornar desses estados a Terra; não é possível voltar à vida, nem mesmo para exortar aos vivos do perigo que os ameaçam. Esse ensinamento de Jesus completa o ensinamento do Antigo Testamento e se desenvolverá nos textos posteriores do Novo Testamento e na doutrina da Igreja. Um texto da Carta aos Hebreus por exemplo diz:

Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo, assim Cristo se ofereceu uma só vez para tomar sobre si os pecados da multidão, e aparecerá uma segunda vez, não porém em razão do pecado, mas para trazer a salvação àqueles que o esperam. (Hebreus 9, 27-28)
Desses textos a Igreja sempre concluiu que não há reencarnação (no Platonismo antigo essa era conhecida como “transmigração das almas”); também não há possibilidade dos mortos tornarem a vida para comunicar mensagens aos vivos. Após a morte há um juízo particular de todos. Uns vão para junto de Deus e outros vão para o Inferno, “lugar de choro e de ranger de dentes”, como dizia o Senhor. Sobre o juízo particular, diz o Catecismo:

1021 A morte põe fim à vida do homem como tempo aberto ao acolhimento ou à recusa da graça divina manifestada em Cristo. O Novo Testamento fala do juízo principalmente na perspectiva do encontro final com Cristo na segunda vinda deste, mas repetidas vezes afirma também a retribuição, imediatamente depois da morte, de cada um em função de suas obras e de sua fé. A parábola do pobre Lázaro e a palavra de Cristo na cruz ao bom ladrão assim como outros textos do Novo Testamento, falam de um destino último da alma pode ser diferente para uns e outros.

1022 Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre.

‘No entardecer de nossa vida, seremos julgados sobre o amor.’ (São João da Cruz)

O Papa Bento XVI em ocasiões definiu da seguinte forma esses estados das almas separadas dos corpos: “Uma vida eterna sem Deus, isso é o Inferno”; e “o ser do homem em Deus: isso é o Céu”.

O Catecismo fala do Céu com da seguinte maneira:

1023 Os que morrem na graça e na amizade de Deus, e que estão totalmente purificados, vivem para sempre com Cristo. São para sempre semelhantes a Deus, porque o vêem “tal como ele é" (1Jo 3,2), face a face (1Cor 13,12)

Com nossa autoridade apostólica definimos que, segundo a disposição geral de Deus, as almas de todos os santos mortos antes da Paixão de Cristo (...) e de todos os outros fiéis mortos depois de receberem o santo Batismo de Cristo, nos quais não houve nada a purificar quando morreram, (...) ou ainda, se houve ou há algo a purificar, quando, depois de sua morte, tiverem acabado de fazê-lo, (...) antes mesmo da ressurreição em seus corpos e do juízo geral, e isto desde a ascensão do Senhor e Salvador Jesus Cristo ao céu, estiveram, estão e estarão no Céu, no Reino dos Céus e no paraíso celeste com Cristo, admitidos na sociedade dos santos anjos. Desde a paixão e a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, viram e vêem a essência divina com uma visão intuitiva e até face a face, sem a mediação de nenhuma criatura.

1024 Essa vida perfeita com a Santíssima Trindade, essa comunhão de vida e de amor com ela, com a Virgem Maria, os anjos e todos os bem-aventurados, é denominada "o Céu". O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva.

1025 Viver no Céu é "viver com Cristo". Os eleitos vivem "nele", mas lá conservam - ou melhor, lá encontram – sua verdadeira identidade, seu próprio nome.

Sobre o Purgatório diz:

1030 Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.

1031 A Igreja denomina Purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório sobretudo no Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador. No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo, que, se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem presente século nem no século futuro (Mt 12,32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro.

Sobre o Inferno, o ensinamento oficial da Igreja diz (ainda no Catecismo):

1033 Não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-lo. Mas não
podemos amar a Deus se pecamos gravemente contra Ele, contra nosso próximo ou contra nós mesmos: "Aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele" (1 Jo 3,14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados dele se deixarmos de ir ao encontro das necessidades graves dos pobres e dos pequenos que são seus irmãos morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo-Poderoso para sempre, por nossa própria opção livre. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra "inferno".

1034 Jesus fala muitas vezes da "Geena", do "fogo que não se apaga", reservado aos que recusam até o fim de sua vida crer e converter -se, e no qual se pode perder ao mesmo tempo a alma e o corpo. Jesus anuncia em termos graves que "enviar seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente" (Mt 13,41-42), e que pronunciar a condenação: "Afastai-vos de mim malditos, para o fogo eterno!" (Mt 25,41).

1035 O ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que
morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, "o fogo eterno". A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira.

1036 As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um
chamado à responsabilidade com a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno. Constituem também um apelo insistente à conversão: "Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. E poucos são os que o encontram" (Mt 7,13-14): Como desconhecemos o dia e a hora, conforme a advertência do Senhor, vigiemos constantemente para que, terminado o único curso de nossa vida terrestre, possamos entrar com ele para as bodas e mereçamos ser contados entre os benditos, e não sejamos, como servos maus e preguiçosos, obrigados a ir para o fogo eterno, para as trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.

1037 Deus não predestina ninguém para o Inferno; para isso é preciso uma aversão voluntária a Deus (um pecado mortal) e persistir nela até o fim. Na Liturgia Eucarística e nas orações cotidianas de seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, que quer "que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se" (2Pd 3,9).

Em resumo, a reportagem do Fantástico parece-nos bem insatisfatória. Transformar em reportagem de capa do Fantástico umas “relíquias” esquecidas em uma salinha de uma das centenas de igrejas existentes de Roma, parece-nos quase inacreditável. Acrescentamos que tal reportagem está repleta de contradições, o que mostra o porque de uma reportagem “informativa” ter suscitado mais dúvidas do que certezas.

Como sugestão, gostaria de lembrar que há algumas relíquias da cristandade estudadas a sério pela ciência contemporânea e que seriam um ótimo assunto para se tratar num domingo a noite: a imagem de Guadalupe, o milagre eucarístico de Lanciano e, principalmente, o Santo Sudário. Não dá para entender como umas “relíquias” das quais temos graves dúvidas sobre a autenticidade se tornam reportagem de capa do Fantástico, enquanto outras são aparentemente esquecidas.

Mas, no final temos que agradecer ao Fantástico, por ter despertado o interesse de tantas pessoas sobre esses temas tão importantes para nossas vidas (Morte, Céu e Inferno), pois isso nos deu a oportunidade para esclarecer esses temas a quem realmente deseja informar-se.
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Re: Museu secreto das almas no Vaticano? Reportagem do Fantástico.

Mensagem por Manuel Portugal Pires em Sab Ago 27, 2011 8:38 am

As coisas ocultas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, mas aquilo que Ele revelou é para nós e para os nossos filhos eternamente, a fim de cumprirmos todas as palavras desta Lei.»
(Deuteronómio 29,28)
Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.


(Mateus 6,33)
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Manuel Portugal Pires

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