Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

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Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Pe. Anderson em Sex Mar 25, 2011 5:35 pm

Caros amigos,

Vejam esse texto irônico que me enviaram hoje. Acho que é muito interessante para refletirmos uns aspectos estranhos da Igreja Católica no Brasil.


Caríssimo amigo,

Eu sempre pensei que devíamos sugerir aos bispos da CNBB solicitarem à Santa Sé a autorização para abolir a Quaresma pois este tempo de penitência, oração e obras de misericórdia atrapalha efetivamente o bom andamento da Campanha da Fraternidade. As músicas alegres com letras que se contorcem para fazer alguma alusão quaresmal, o simbolismo próprio de cada tema da campanha, tudo fica muito mal composto com a pobreza simbólica e musical da liturgia quaresmal católica. Além disso o fato de que, na pregação, o pregador tenha de fazer achegos com saltos mortais para tentar não esquecer a dimensão tipicamente catecumenal dos domingos do tempo de quaresma, faz com que os padres percam na homilia um precioso tempo que poderiam dedicar aos temas absolutamente relevantes da campanha da fraternidade. Poder-se-ia renovar cada ano o lecionário da missa, evitando os rotineiros textos dos Evangelhos e substituindo-os por leituras de autores contemporâneos mais adequados a uma visão crítica de toda esta realidade que está ai. O Genésio (outrora fr. Leonardo) Boff e Frei Beto poderiam ser encarregados de organizar cada ano o tal lecionário. Além disso, o convite à oração próprio da quaresma poderia ser melhor aproveitado se transformado em convite para a reflexão em pequenas comunidades sobre a realidade concreta que vivem, quiçá com algum subsidio preparado pelo Centro Pastoral Vergueiro (onde se formaram os primeiros militantes do PT seguindo os escritos de Antonio Gramsci). Afinal de contas hoje temos instrumentos melhores do que os que tinham as comunidades que escreveram coletivamente a Bíblia ou outros livros sagrados das várias tradições religiosas: um pouco de abertura nesse diálogo interreligioso não faria mal algum, sobretudo a esses católicos da geração Ratzinger que estão fazendo a Igreja regressar aos tempos pré-conciliares.

Aproveitaria para fazer uma carta de repúdio aos autores das cartas contra a campanha, porque partem de um modelo de Igreja de estrutura piramidal, ignorantes que são da eclesiologia de comunhão inspirada pelo espírito do Vaticano II: uma comunhão ampla, que ultrapassa os limites da igreja institucional, das hierarquias vaticanas comprometidas com a busca do poder. É hora de ter uma visão mais aberta, cósmica, e, nas atuais condições climáticas, também telúrica: seria uma eclesiologia de inclusão, menos a reboque dessa religiosidade tardo-medieval ou, ainda pior, da devotio-moderna, individualista e desatenta às conquistas de direitos da sociedade moderna. É preciso ampliar os horizontes aos direitos humanos, aos direitos da mulher, aos direitos da natureza e dos animais. Este conceito de Deus que impõe obrigações de procriação contra o direito da mulher ao próprio corpo, obrigações contrárias à dimensão lúdica da sexualidade, universal e sem discriminação de gênero ou de tendência... tudo em vista de uma maior comunhão afetiva para resgatar a verdadeira eclesiologia como comunidade de pessoas felizes, resolvidas e sem senso de culpa...

Veja a quaresma atrapalha todo este projeto eclesiológico com uma visão negativa do corpo, que deve ser macerado com a penitência, o jejum.. com essa concepção greco-romana da alma espiritual que deve ser reduzida pela fé dogmática à servidão aos tiranos de turno. É hora de mudar. E a campanha da fraternidade oferece esta ocasião profética de transformar tudo isso.

Fica a minha sugestão. A teologia da libertação não morreu, está viva num processo dinâmico de nova síntese com outros anseios da mãe-terra e dos povos, numa dimensão multi-étinca e multi-cultural inovativa. As armas da luta são a não violência-ativa e a tolerância. Mas não se pode perder de vista que é preciso desmascarar os reacionários - que sempre existirão - e mostrar que querem reduzir a igreja a uma seita fundamentalista a serviço do poder. Mais do que nunca a ortopráxis da tolerância e da não-violência ativa deve juntar esforços para reduzir ao silêncio os que se arvoram em verdadeiros católicos, seguidores do projeto restaurador do Ratzinger.

Um passo de cada vez. é preciso preencher o vazio da quaresma com este conteúdo que a campanha da fraternidade ainda dá. Depois outros passos e a vitória está próxima.

E se você não concordar comigo, a minha única resposta é: a palavra passe ao próximo, pois o companheiro não entendeu a proposta. O companheiro é um reacionario, racista e homófobo, que por isso mesmo perde o direito à palavra.

Padre Iereus.

Grande abraço a todos.
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Re: Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Binhokraus em Sex Mar 25, 2011 5:50 pm

Pe. eu já tenho a lenha, o senhor acende o fogo? (antes que alguém me critique, quero só deixar claro que é uma piada)

O que achei mais engraçado, dentre muitas outras coisas foi:

"sobretudo a esse esses católicos da geração Ratzinger que estão fazendo a Igreja regressar aos tempos pré-conciliares."

tempos pré-conciliares??? Como o primeiro concílio foi o de Jerusalém, me pergunto a que época ele faz referencia?


Teria muitos mais coisas para criticar, e até brincar, afinal, a respeito deste texto, a inversão do dito popular ganha vida: "Seria cômico, se, não fosse trágico!"

Me pergunto que formação é dada aos seminaristas Brasil afora???? Que Padre (instruído realmente como deveria, e em sã consciência) chamaria o tempo quaresmal de tempo vazio?

Lamento profundamente ler essa carta, e embora eu tenha dado risos enquanto a lia, eles não mascaram em hipótese nenhuma meu sentimento de indignação e repúdio por palavras tão descabidas.

Isso é lamentável.

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Re: Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Pe. Anderson em Sex Mar 25, 2011 6:04 pm

Caro Binho,

Esse texto é irônico, nao é uma carta verdadeira, mas é um estilo literário que mostra o que muitos pensam secretamente, mas nao tem coragem de dizer (as vezes tem).

A ironia é uma figura de linguagem que significa afirmar o contrário do que se pensa. Nao há porque ficar com raiva da carta, é só um texto ironico, para desperetar a reflexao.

Grande abraço.
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Re: Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Binhokraus em Sex Mar 25, 2011 6:08 pm

Felizmente o texto é irônico, mas infelizmente a ironia do texto reflete a realidade de muitos lugares Brasil afora, por isso não me apercebi que o objetivo do texto era ser irônico. Obrigado pelo esclarecimento.

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Re: Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Flávio Roberto Brainer de em Sab Mar 26, 2011 11:08 am

Lutero também era padre e fez o que fez. Esse tal Pe. Iereus não precisa dizer a que veio. Dentre as aberrações que protagoniza no seu texto, está a substituição dos textos bíblicos do lecionario liturgico por textos de Fr. Beto e de Leonardo Boff é algo inescrupuloso ao extremo, algo que em si mesmo, dispensa qualquer comentário. Prefiro crer que o autor do texto deva ser um louco (no sentido literal da palavra), ou alguem que está movido por qualquer droga alucinógena, apesar de ser padre ou de se servir de tal identificação (creio também que pela mesma ironia com que descreveu seu "pensamento").

Um grande abraço a todos !!!
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Re: Campanha da fraternidade e Quaresma: é possível conciliar?

Mensagem por Binhokraus em Qua Mar 30, 2011 7:56 pm

Aproveitando o gancho ao se falar em teologia da libertação e Leonardo Boff, trago mais um texto do site de Dom Henrique, e mais uma vez um texto muito bom, com comentários perfeitos de Dom Henrique.

Disponível em: http://www.domhenrique.com.br/index.php/analises/956-teimam-em-gritar-a-teologia-da-libertacao-esta-viva

Caro Internauta, aí está o que apareceu em www.acidigital.com. Após o texto, farei alguns breves comentários...

Segundo representantes a Teologia da Libertação (TL) ainda está viva como continuam as desigualdades da América Latina onde nasceu. Luis Carlos Susin, secretário-geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação, disse que além de viva já está presente na África e na Ásia.
Mas Dom Odilio Scherer afirmou que "como todos os movimentos, (a Teologia) teve um momento de nascer, de crescer, de enfraquecer e de desaparecer".
"O próprio Vaticano sabe que perdeu a batalha. Os dois documentos de 1984 e 1986 não frearam o movimento. Ele nasceu ouvindo o grito dos oprimidos e hoje este grito se transformou em clamor", acrescentou Boff. Casaldáliga, um dos importantes representantes da TL disse que "acredito firmemente que a Teologia da Libertação continua viva em muitas cabeças, em muitos textos, em muitas comunidades", "tenho a convicção de que a Teologia está se renovando com novos preceitos. Agora, além dos pobres, a Igreja também assumiu a causa do negro, do índio, da mulher". Afirmou também que "a recente notificação do Vaticano a Jon Sobrino e a preparação da CELAM colocaram a Teologia de novo na primeira página. É possível que avancemos (em Aparecida) e afirmemos novamente, com toda clareza, com toda convicção e atendo-nos a todas as conseqüências, a Teologia da Libertação".
Segundo Susin "a notificação tem observações, mas não proíbe nada. Estamos interpretando isso da melhor forma possível, até mesmo como um convite ao diálogo".
O frade capuchinho afirmou que "temos uma expectativa de que possa haver um debate e parece que o Papa já disse, em duas ou três ocasiões, que é favorável a um debate teológico".
Porém Boff destacou que "tememos que, em Aparecida, o Papa renove suas advertências à Teologia (TL). Como cristãos, sempre respeitaremos a figura do Papa. Mas este Papa condenou mais de cem teólogos e escreveu textos duros, quase fundamentalistas, sobre igrejas e religiões, e cerceou as conferências episcopais progressistas. Por isso, é difícil amá-lo", disse ao G1.

Somente algumas observações:
1. Quando um movimento ou instituição teima em garantir que está vivo é porque morreu e virou fantasma. A Teologia da Libertação passou como produção criativa e original. Há dez anos atrás ninguém precisava bradar que ela estava viva; ela estava e era evidente. Basta! Hoje, ela é como uma serpente com a cabeça esmagada: o corpo se contorce, mas a vida já se foi... Muitas de suas idéias ficaram, algumas boas, a maioria, muito ruim: fechamento para a Transcendência, manipulação da Palavra de Deus, deturpação da doutrina da Igreja, utilização do cristianismo com fins ideológicos, messianismo político, idolatria da esquerda, concepção marxista da história, das relações de produção e das relações entre as classes.
2. Como sempre fizeram, os expoentes de tal Teologia usam falácias como nuvens de poeira. É o caso de Leonardo Boff, ao dizer que o Vaticano perdeu para a Teologia da Libertação. O “Vaticano” é, aqui, um modo depreciativo de dizer o Sucessor de Pedro, a quem os teólogos da libertação sempre menosprezaram... Também o Frei Susin, quer iludir, falando em convite do Vaticano para o diálogo com os teólogos da libertação. Os teólogos da libertação, em geral, não dialogam. Para haver diálogo é necessário sinceridade dos dois lados. Infelizmente, o diálogo dos teólogos de esquerda é somente no sentido de tirar proveito em nome da ideologia socialista...
3. A prova do mal que tal teologia fez é que nas dioceses nas quais ela vingou as vocações sacerdotais desapareceram e tais dioceses sobrevivem às custas de padres estrangeiros, adeptos dessa teologia secularizada e secularizante.
4. A Igreja permanecerá firme no caminho do Evangelho, que exige a opção preferencial pelos pobres, o cuidado com os injustiçados do mundo, e não tem nada a ver com PT, socialismo, luta de classes, secularização, etc... A Teologia da Libertação ficou para trás porque a Igreja, o mundo, a economia mundial, as prioridades e mentalidades mudaram... O problema das ideologias é precisamente o de não querer ver a realidade: Se a realidade não concorda com os meus pressupostos ideológicos, pior para ela. É assim que eles pensam!

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