O que a civilização ocidental “deve” à Igreja Católica?

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O que a civilização ocidental “deve” à Igreja Católica?

Mensagem por Pe. Anderson em Qui Jun 16, 2011 6:18 pm

Caros amigos,

Vejam que interessante esse tema, central para compreender as relaçoes entre fé e razao na Historia da Igreja.


Philip Jenkins, renomado professor de história e estudos religiosos da Pennsylvania State University, chamou ao anti-catolicismo ”o último preconceito aceitável nos Estados Unidos”. É difícil contestar esse juízo: nos nossos meios de comunicação e na nossa cultura popular, pouca coisa é inadmissível quando se trata de ridicularizar ou de satirizar a Igreja.

Os meus alunos, quando têm alguma noção a respeito dela, só sabem reclamar a sua pretensa “corrupção”,sobre a qual ouviram intermináveis histórias de duvidosa credibilidade dos seus professores do ensino médio.

A questão é que, no ambiente cultural da atualidade, é fácil esquecer – ou não tomar conhecimento sequer – de tudo aquilo que a nossa civilização deve à Igreja Católica.

Muitos reconhecem que ela influenciou, sem dúvida, a música, a arte e a arquitetura, mas não vão além disso. Para o nosso estudante do ensino médio, a história do catolicismo pode ser resumida em três palavras: ignorância, repressão e estagnação; ninguém fez o menor esforço por mostrar-lhes que a civilização ocidental deve à Igreja o sistema universitário, as ciências, os hospitais e a previdência, o direito internacional, inúmeros princípios básicos dos sistemas jurídicos, etc. etc.

O propósito deste livro é precisamente mostrar essas influências decisivas, mostrar que devemos muito mais à Igreja Católica do que a maior parte das pessoas – incluídos os católicos – costuma imaginar. Por que, para sermos exatos, foi ela que construiu a civilização ocidental.

Como nem é preciso dizer, o Ocidente não deriva apenas do catolicismo; ninguém pode negar a importância da antiga Grécia e de Roma, ou das diversas tribos germânicas que sucederam ao Império Romano do Ocidente, como elementos formadores de nossa civilização. E a Igreja não só não repudiou nenhuma dessas tradições, como na realidade aprendeu e absorveu delas o melhor que tinham para oferecer.

Nenhum católico sério pretende sustentar que os eclesiásticos tenham acertado em todas as decisões que tomaram. Cremos que a Igreja manterá a integridade da fé até o fim dos tempos, não que cada uma das ações de todos os papas e bispos que já houve esteja acima de qualquer censura.

Pelo contrário, distinguimos claramente entre a santidade da Igreja, enquanto instituição guiada pelo Espírito Santo, e a natureza inevitavelmente pecadora dos homens que a integram, incluídos os que atuam em nome dela.

Mas estudos recentes têm submetido a revisão uma série de episódios históricos tradicionalmente citados como evidências da iniquidade dos eclesiásticos, e a conclusão que chegam depõe em favor da Igreja.

Hoje sabemos, por exemplo, que a Inquisição não foi nem de longe tão dura como se costumava retratá-la e que o número de pessoas levadas aos seu tribunais foi muito menor(1) – em várias ordens de magnitude – do que se afirmava anteriormente. E isto não é nenhuma alegação nossa, mas conclusão claramente expressa nos melhores e mais recentes estudos(2).

De qualquer modo, com exceção dos estudiosos da Europa medieval, a maioria das pessoas acredita que os mil anos anteriores a Renascença foram um período de ignorância e de repressão intelectual, em que não havia um debate vigoroso de idéias nem um intercâmbio intelectual criativo, e que se exigia implacavelmente uma estrita submissão aos dogmas.

Ainda hoje continua a haver autores que repetem essas afirmações. Numa das minhas pesquisas, deparei com um livro de Christopher Knight e Robert Lomas intitulado Second Messiah [ "O Segundo Messias" ], em que se traça um quadro da Idade Média que não poderia estar mais longe da realidade, mas que o público em geral “engole” sem hesitar, por força do preconceito e da ignorância reinantes.

Podemos ler ali, por exemplo: “O estabelecimento da era cristã romanizada marcou o começo da Idade das Trevas, esse período da história ocidental em que se apagaram todas as luzes do conhecimento e a superstição substituiu o saber. Esse período durou até que o poder da Igreja Católica foi minado pela reforma”(3). E também: ” Desprezou-se tudo o que era bom e verdadeiro e ignoraram-se todos os ramos de conhecimento humano em nome de Jesus Cristo”(4).

Hoje em dia, é difícil encontrar um único historiador capaz de ler semelhantes comentários sem rir. Essas afirmações contradizem frontalmente muitos anos de pesquisa séria, e no entanto os seus autores – que não são historiadores de profissão – repetem com inteira despreocupação esses velhos e gastos chavões. Deve ser frustrante lecionar história medieval! Por mais que se trabalhe e se publiquem evidências em contrário, quase todo mundo continua a acreditar firmemente que a Idade Média foi um período intelectual e culturalmente vazio e que a Igreja não legou ao Ocidente senão métodos de tortura e repressão.

O que Knight e Lomas não mencionam é que, durante essa “Idade das Trevas”, a Igreja desenvolveu o sistema universitário europeu, autêntico dom da civilização ocidental ao mundo. Muitos historiadores se maravilham diante da ampla liberdade e autonomia com que se debatiam as questões naquelas universidades. E foi a exaltação da razão humana e das suas capacidades, o compromisso com um debate rigoroso e racional, a promoção da pesquisa intelectual e do intercâmbio entre os estudantes dessas universidades patrocinadas pela Igreja – foi isso que forneceu as bases para a Revolução Científica.

Nos últimos cinqüenta anos, praticamente todos os historiadores da ciência – entre eles Alistair C. Crombie, David Lindberg, Edward Grant, Stanley Jaki, Thomas Goldstein e Jonh L. Heilbron – chegaram a conclusão que a própria Revolução Científica se deveu à Igreja.

E a contribuição católica para a ciência não se limitou às idéias – incluídas as teológicas – que tornaram possível o método científico; muitos dos principais inovadores científicos foram sacerdotes, como Nicolau Steno, um luterano converso que se tornou sacerdote católico e é considerado o pai da geologia, ou Athanasius Kircher, pai da egiptologia, ou ainda Rogério Boscovich, considerado freqüentemente o pai da teoria atômica moderna.

A primeira pessoa a medir a taxa de aceleração de um corpo em queda livre foi ainda outro sacerdote, o pe. Giambattista Riccioli. E os jesuítas dominaram a tal ponto o estudo dos terremotos que a sismologia ficou conhecida como “a ciência jesuítica”.

E isso não é tudo. Poucos conhecem a contribuição da Igreja no campo da astronomia, apesar de cerca de trinta e cinco crateras da Lua terem sido descobertas por cientistas e matemáticos jesuítas, dos quais receberam o nome. Jonh L. Heilbron, da Universidade da Califórnia em Berkeley, comentou que “durante mais de seis séculos – desde a recuperação dos antigos conhecimentos astronômicos durante a idade média até o Iluminismo – , a Igreja Católica Romana deu mais ajuda financeira e suporte social ao estudo da astronomia do que qualquer outra instituição e, provavelmente, mais do que todas as outras juntas”(5). Mesmo assim, o verdadeiro papel da Igreja no desenvolvimento da ciência continua a ser até hoje um dos temas mais completamente silenciados pela historiografia moderna.

Embora a importância da tradição monástica seja reconhecida em maior ou menor grau nos livros de História – todo o mundo sabe que, no rescaldo da queda de Roma, os monges preservaram a herança literária do mundo antigo, para não dizer a própria capacidade de ler e escrever - , o leitor descobrirá nesta obra que a sua contribuição foi, na realidade, muito maior. Praticamente não há ao longo da Idade Média nenhum empreendimento significativo para o progresso da civilização em que a intervenção dos monges não fosse decisiva. Os monges proporcionaram “a toda a Europa [...] uma rede de indústrias-modelo, centro de criação de gado, centros de pesquisa, fervor espiritual, a arte de viver[...], a predisposição para a ação social, ou seja, [...] uma civilização avançada, que emergiu das vagas caóticas da barbárie circundante, São Bento, o mais importante arquiteto do monacato ocidental, foi, sem dúvida alguma, o pai da Europa. E os beneditinos, seus filhos, foram os pais da civilização européia.

O desenvolvimento do conceito de Direito Internacional e normalmente atribuído aos pensadores e teóricos dos séculos XVII e XVIII. Na realidade, porém, encontramos pela primeira vez esse conceito jurídico nas universidades espanholas do século XVI, e foi Francisco da Vitória, um sacerdote e teólogo católico e professor universitário, quem mereceu o título de pai do direito internacional. Em face dos maus tratos infligidos pelos espanhóis aos indígenas do Novo Mundo, Vitória e outros filósofos e teólogos começaram a especular a cerca dos direitos humanos fundamentais e de como deveriam ser as relações entre as nações. E foram esses pensadores que deram origem à idéia do direito internacional tal como hoje o concebemos.

Aliás, todo o direito ocidental é uma grande dádiva da Igreja. O direito canônico foi o primeiro sistema legal moderno a existir na Europa, demonstrando que era possível compilar um corpo de leis coerente a partir da barafunda de estatutos, tradições, costumes locais etc. que caracterizava tanto a Igreja como o Estado medievais. De acordo com Harold Berman, “a Igreja foi a primeira a ensinar ao homem ocidental o que é um sistema legal moderno. Foi a primeiro a mostrar que costumes, estatutos, decisões judiciais e doutrinas conflitantes podem ser conciliados por meio de análise e síntese”(7).

A própria idéia de que ser humano tem direitos bem definidos não se deve a Jonh Locke e Thomas Jefferson – como muitos poderiam pensar – , mas ao direito canônico. E muitos outros princípios legais importantes do nosso direito também se devem à influência da Igreja, graças ao empenho milenar dos eclesiásticos em substituir as provas em juízo baseadas em superstições – como o ordálio -, que caracterizavam o ordenamento legal germânico, por procedimentos baseados na razão e em conceitos legais elaborados.

De acordo com a história econômica tradicional, a economia moderna teria sido criada por Adam Smith e outros teóricos do século XVIII. Estudos mais recentes, no entanto, vêm enfatizando a importância do pensamento econômico dos últimos escolásticos, particularmente dos teólogos espanhóis dos séculos XV e XVI. Tem-se chegado até designar esses pensadores – assim o faz o grande economista do século XX Joseph Schumpeter - como fundadores da moderna economia científica.

A maior parte das pessoas tem uma vaga noção das obras assistenciais da Igreja Católica, mas muitas vezes não sabe como foi única a sua ação nesse campo. O mundo antigo fornece-nos alguns exemplos de liberalidade para com os pobres, mas tratava-se de uma liberalidade que procurava fama e reconhecimento para o doador, tendendo a ser indiscriminada e não dirigida especificamente àqueles que passavam necessidade. Os pobres eram com excessiva freqüência tratados com desprezo, e a simples idéia de ajudar os necessitados sem nenhuma expectativa de reciprocidade ou de ganho pessoal era alheia à mentalidade da época.

Mesmo William Lecky, um historiador do século XIX sempre hostil à Igreja, chegou a admitir que a dedicação aos pobres – tanto no seu espírito como nos seu objetivos – constituiu algo novo no mundo ocidental e representou um avanço surpreendente com relação aos padrões da antiguidade clássica.

Em todas essas áreas, a Igreja imprimiu uma marca indelével no próprio coração da civilização européia. Um recente livro de história da Igreja Católica tem por título Triunph ["Triunfo"]: é um título extremamente apropriado para resumir de uma instituição que tem no seu haver tantos homens e mulheres heróicos e tantas realizações históricas.

Até agora, encontramos relativamente poucas dessas informações nos livros de texto que a maioria dos estudantes tem de estudar no ensino médio e superior.

A Igreja Católica configurou a civilização em que vivemos e o nosso perfil humano de muitas maneiras além das que costumamos ter presentes. Por isso insistimos em que ela foi o construtor indispensável da civilização ocidental. Não só trabalhou para reverter aspectos moralmente repugnantes do mundo antigo – como o infanticídio e os combates de gladiadores -, mas restaurou e promoveu a civilização depois da queda de Roma. Tudo começou pela educação do bárbaros.

O autor é bacharel pela Universidade de Harvard e doutor por Columbia, além de outros títulos.
Notas:
(1) Isto é, no número de zeros depois dos algarismos significativos. Concretamente, não foram milhões, como às vezes se diz, mas centenas (N. do Editor).
(2)Veja-se, por exemplo, Henry Kamen, The Spanish Inquisition: A Historical Revision, Yale University Press, New Haven, 1999; Edward M. Peters,Inquisition University of California Press, Berkeley, 1989.
(3)Christopher Knight e Robert Lomas, Second Messiah, Fair Winds Press, Gloucester, Massachussets, 2001, pág. 70
(4) Christopher Knight e Robert Lomas, Second Messiah, pág. 71.
(5)Jonh L. Heilbron, The Sun in the Church: Cathedrals as Solar Obsertvatories,Harvard University Press, Cambridge, 1999, pág. 3.
(6) Réginald Grégorie, Léo Moulin e Raymond Oursel, The Monastic Realm,Rizzoli, New York, 1985, pág. 277.
(7) Harold J. Berman, The Interacion of Law and Religion, Abingdon Press, Nashville, Tenesse, 1974, pág. 59.
Excerto do livro: “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental” de Thomas E. Woods Jr.

Fonte: http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/24580-o-que-a-civilizacao-ocidental-deve-a-igreja-catolica

Grande abraço a todos.
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